03/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Valdir Corrêa: a voz que o tempo não desliga

Publicado em 14 de fevereiro, 2026

Valdir Corrêa, na Rádio Difusora. Foto: Divulgação

Por Juscelino Taketomi

Eu conheci Valdir em 1976, na velha e querida Rádio Difusora, quando eu já dividia o batente com o saudoso J. Nunes, formando a dupla “JJ” no plantão esportivo da “Emissora do Povo”.

A Difusora era um organismo vivo, respirava futebol, suava política, soluçava samba e, de vez em quando, gargalhava das próprias trapalhadas, que eram poucas, mas que nos divertiam. E foi ali, no meio daquele formigueiro elétrico, que vi surgir — ou melhor, consolidar-se — a figura de Valdir Corrêa.

Ele já vinha de estrada. Trazia no peito a poeira da Rádio Baré, o aprendizado na Cidade Tropical, a cadência adquirida na Rádio Rio Mar. Mas foi na Difusora que ele fincou raízes, como sumaumeira que não pede licença para crescer, pois a samaumeira simplesmente cresce, abriga e sombreia.

Valdir tinha — e tem — essa coisa rara no rádio: a voz que não grita, mas chega. Ele nunca precisou esgoelar-se para ser ouvido. Enquanto muitos confundem microfone com megafone, ele sempre soube que o rádio é, antes de tudo, conversa. Conversa de sala, de varanda, de fim de tarde. Talvez por isso o ouvinte o trate como se fosse da família.

Lembro-me das transmissões em que a gente subia em caixa, equilibrava fio desencapado, atravessava Estado de ônibus, mastigando poeira e sonho. Valdir transmitiu do Maracanã em cima de improviso, como quem transmite da própria sala. Nunca vi reclamar. Se faltava cadeira, narrava em pé. Se faltava luz, narrava no escuro. Se faltava dinheiro, sobrava dignidade.

Entre os gigantes da crônica radiofônica amazonense — e Deus sabe que tivemos gigantes — Valdir ocupa lugar de destaque. Pontifica, certamente, entre os cinco maiores. Não digo isso por camaradagem, mas por justiça. Justiça que o tempo faz questão de confirmar.

Quando Josué Filho deixou o microfone para se aventurar na política, Valdir assumiu espaços, primeiro timidamente, depois com a naturalidade de quem nasceu para aquilo. Não atropelou ninguém. Não puxou tapete. Apenas fez o que sempre soube fazer: rádio. E rádio com credibilidade, uma palavra tão antiga, hoje quase em desuso, mas que nele ainda tem endereço fixo.

A entrevista ao Portal do Marcos Santos mostrou um Valdir inteiro. Sereno. Grato. Sem mágoas. Disse que pediu demissão, que era hora de deixar a juventude modernizar. Achei bonito isso. Num tempo em que tantos se agarram ao microfone como náufragos a um pedaço de madeira, ele soltou a tábua e saiu nadando com honra, cabeça erguida.

“Tenho 76 no documento, mas 50 na cabeça”, disse ele. Eu acredito. Porque idade, no rádio, não está no RG, está no timbre. E o timbre de Valdir continua firme, redondo, sem ferrugem.

Recordo as peripécias: a cachaça que “dava pulinho”, o gol que foi diminuindo porque o comentarista resolvera errar a garrafa na cabine. Valdir fazia rir muito. À noite, a gente se encontrava para tomar cerveja e comentar o absurdo da vida com J Nunes, Nicolau Libório, Carlos Carvalho, Paulo Guerra, Jurandir Vieira e outros grandes colegas.

Valdir nunca foi delegado de microfone. Nunca fez inquérito no ar. Sempre entrevistador, jamais carrasco. Respeitou situação, oposição, centrão e o torcedor que só queria saber por que o lateral não acompanhou o ponta. Ele entendia — e entende — que o rádio não é tribunal. Rádio é ponte.

Agora ele diz que volta em março. Já recebeu convites, mas escolhe com calma. Quer um rádio de credibilidade, “do jeito que eu fazia”. Gosto quando ele fala no passado como quem fala no presente, porque, no fundo, é a mesma coisa. O rádio dele não envelheceu. Quem acha o contrário, é porque caiu na inversão de valores.

Há quem espalhe boato de aposentadoria. Conhecendo Valdir, duvido que se aposente antes da morte — e mesmo assim, suspeito que, lá do outro lado, ainda peça um microfone emprestado para narrar a chegada de São Pedro na área.

Quando penso na história do rádio esportivo do Amazonas, vejo uma linha que começa lá atrás, na velha Rádio Baré, atravessa décadas, passa por cabines quentes, estádios enlameados, governos que sobem e descem, e desemboca na consagração da Rádio Difusora. No meio dessa linha, firme como poste de iluminação de campo de várzea, está o “garotinho” Valdir Corrêa.

Eu o conheci moço. Eu era quase menino. Hoje o vejo maduro. Mas há nele algo que não mudou desde 1976: a alegria de apertar o botão vermelho e dizer “Boa tarde, amigos do esporte”.

E enquanto houver um amigo do esporte do outro lado do rádio, Valdir terá para quem falar. Porque certas vozes não pertencem às emissoras — pertencem à memória afetiva de um povo. E nisso, sinceramente, em letras de ouro, o “Garotinho” já está consagrado, já é eterno.

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Autor
Juscelino Taketomi

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