10/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Aos 98 anos, morre Mãe Carmen, líder do Terreiro do Gantois em Salvador

Publicado em 26 de dezembro, 2025

Aos 98 anos, morre Mãe Carmen, líder do Terreiro do Gantois em Salvador

A ialorixá Mãe Carmem morreu aos 98 anos na madrugada desta sexta-feira (26/12). A informação foi confirmada pelo Ilé Ìyá Omi À Ìyámase, conhecido popularmente como Terreiro do Gantois e localizado em Salvador (BA). A líder religiosa foi descrita como uma “mulher de axé, guardiã da ancestralidade e herdeira de uma linhagem que pavimentou a história do Candomblé na Bahia e no Brasil”. A causa da morte não foi divulgada.

“Filha direta de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Carmen nasceu para o sagrado. Desde muito cedo, foi formada nos fundamentos, nos ritos e nos saberes que sustenta uma nação. Sua infância foi preparação espiritual; sua vida, missão. Nada em seu caminho foi acaso, foi legado, destino, desígnio dos Orixás”, disse o Ilé Ìyá Omi À Ìyámase.

Gantois

Carmen estava há 23 anos à frente do Gantois. “Seu retorno ao Orun acontece em uma sexta-feira, dia consagrado a Oxalá, Orixá da criação e da serenidade, um símbolo que traduz uma trajetória marcada pela retidão, cuidado e fé. Em Oxalá, o descanso, na ancestralidade, a permanência”, destacou o Terreiro.

Autoridades lamentam morte e lembram legado

A ministra da Cultura Margareth Menezes afirmou que teve o privilégio de conhecer Mãe Carmem como autoridade espiritual, mas também como uma “grande mulher de fé que cultivou amor, acolhimento e a força de quem lidera pelo exemplo”.

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania manifestou pesar pela morte da líder religiosa e afirmou que a partida dela representa uma grande perda para o “povo de santo, para a Bahia e para o país”.

“Sua vida permanece como legado de sabedoria, firmeza espiritual e compromisso com a ancestralidade”, citou a pasta. O Ministério também ressaltou que o Terreiro do Gantois integra o conjunto de lugares reconhecidos no âmbito do Projeto de Sinalização de Lugares de Memória da Coordenação-Geral de Memória e Verdade da Escravidão, pelo valor histórico, simbólico e cultural na trajetória da população negra no Brasil.

Bahia

A Secretaria Estadual de Cultura da Bahia também lamentou a morte da ialorixá. “Mãe Carmen será lembrada sempre pelo seu legado de fé, espiritualidade e luta pelas religiões de matriz africana. É uma liderança religiosa que fortalece a nossa cultura e nossas lutas por igualdade. Tenho certeza de que seu legado será assegurado por filhas e filhos de santo, que seguirão na manutenção da tradição no Terreiro do Gantois”, comentou o secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro.

Leia a nota do Terreiro do Gantois na íntegra:

É com profundo pesar, respeito e reverência que a Associação de São Jorge Ebé Oxóssi comunica a passagem da Ìyáloria do Ìlé Ìyá Omi Àe Ìyámaé, Mãe Carmen de Òàgyían.

Ìyáloria, mulher de axé, guardiã da ancestralidade e herdeira de uma linhagem que pavimentou a história do Candomblé na Bahia e no Brasil.

Filha direta de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Carmen nasceu para o sagrado. Desde muito cedo, foi formada nos fundamentos, nos ritos e nos saberes que sustenta uma nação. Sua infância foi preparação espiritual; sua vida, missão. Nada em seu caminho foi acaso, foi legado, destino, desígnio dos Orixás.

Há 23 anos à frente do Gantois, Mãe Carmen assumiu com amor, coragem e responsabilidade a condução de uma Casa que é fé, memória e identidade. Ser Ìyáloria em sua presença, sempre significou cuidar, proteger, orientar e sustentar o axé com dignidade, firmeza e sabedoria, zelando pela comunidade e pela continuidade de uma tradição ancestral.

Mãe Carmen foi farol, colo, caminho e fortaleza. Sua palavra ensinava, seu silêncio acolhia, e seu fazer cotidiano era atravessado pela entrega, pelo respeito aos Orixás e pelo compromisso com a vida coletiva. Em seu corpo e em sua condução, a herança de Mãe Menininha permaneceu viva, pulsante e afirmada dia após dia.

Como Ìyáloria desempenhou com dedicação e firmeza o cuidado cotidiano do axé, contando com o apoio de suas duas filhas, que estiveram ao seu lado na condução da roça, compartilhando responsabilidades, saberes e a sustentação da Casa. Mãe Carmen deixa ainda três netos e quatro bisnetos, expressão viva da continuidade, da memória e do futuro que segue sendo tecido a partir de sua presença e de seu legado.

Seu retorno ao Orun acontece em uma sexta-feira, dia consagrado a Oxalá, Orixá da criação e da serenidade, um símbolo que traduz uma trajetória marcada pela retidão, cuidado e fé. Em Oxalá, o descanso, na ancestralidade, a permanência.

Hoje, nos despedimos de sua presença física, mas afirmamos com convicção: seu axé permanece. Seus ensinamentos seguem vivos, sua missão continua inscrita na história e sua memória permanece como fonte de força, amor e sabedoria para as gerações que virão.

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