
Suspensão de rotas aéreas para a Venezuela, em meio à tensão com os EUA, obriga famílias a adiar viagens de Natal e Ano-Novo e buscar alternativas por terra. (Foto: Reprodução)
A suspensão de voos internacionais para a Venezuela transformou os planos de fim de ano de milhares de pessoas em incerteza e frustração. Com rotas canceladas por companhias aéreas das Américas e da Europa, venezuelanos que planejavam passar o Natal e o Ano-Novo com familiares tiveram de adiar viagens aguardadas havia meses, muitas vezes sem previsão de quando poderão ser remarcadas.
A situação ganhou força no fim de novembro, após a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) recomendar que companhias aéreas redobrassem cuidados ao sobrevoar o espaço aéreo venezuelano e o sul do Caribe. Dias depois, declarações do presidente norte-americano Donald Trump, sugerindo o fechamento do espaço aéreo do país, ampliaram o clima de instabilidade e levaram empresas a suspender operações até o fim de dezembro.
Desde então, passageiros foram informados sobre cancelamentos e passaram a escolher entre reembolso ou remarcação para datas indefinidas. Para muitos, o avião representava a única forma viável de chegar a Caracas ou a outras cidades do país.
Histórias de expectativa interrompida se repetem em diferentes países. Sol, venezuelana que vive em Buenos Aires há mais de uma década, tinha viagem marcada com o marido e as duas filhas para o dia 16 de dezembro. Quatro dias antes do embarque, recebeu a confirmação do cancelamento do voo operado pela Boliviana de Aviación. O reencontro familiar, especialmente aguardado pela filha mais velha, precisou ser adiado.
Situação semelhante viveu um engenheiro eletrônico residente na Argentina, que comprou passagens em junho para retornar à Venezuela pela primeira vez desde que emigrou, em 2019. A viagem, planejada como um grande reencontro familiar em Caracas, foi cancelada após a suspensão dos voos da Gol, uma das primeiras empresas a interromper operações. Posteriormente, o Instituto Nacional de Aeronáutica Civil (INAC) da Venezuela revogou a autorização de voo da companhia e de outras empresas que aderiram às recomendações da FAA.
A instabilidade política e diplomática tem impacto direto na conectividade aérea do país. Antes do agravamento das tensões com os Estados Unidos, a Venezuela contava com mais de cem voos semanais para 16 destinos internacionais, operados por 12 companhias, segundo dados da Associação de Linhas Aéreas da Venezuela. Desde 2014, porém, o número de rotas vem sendo reduzido de forma gradual.
Na Europa, o cenário não foi diferente. Companhias como Air Europa, Iberia e Plus Ultra suspenderam voos entre Espanha e Venezuela após terem suas licenças revogadas pelo órgão regulador venezuelano. Alessia Starita, de 76 anos, que vive na Itália, tinha viagem marcada para passar o Ano-Novo em Caracas com os irmãos. A suspensão da rota Roma–Madri–Caracas frustrou o reencontro, especialmente delicado após problemas de saúde que já haviam impedido viagens recentes.
Diante do bloqueio aéreo, a fronteira terrestre surge como alternativa para parte dos viajantes. A Colômbia, que abriga cerca de 2,8 milhões de venezuelanos, tornou-se uma das principais portas de entrada. Em terminais rodoviários, passageiros enfrentam longas viagens de ônibus até regiões fronteiriças, como Arauca, antes de seguir para o interior da Venezuela.
Apesar das dificuldades logísticas, custos adicionais e incertezas na travessia, muitos mantêm a decisão de seguir por terra. Para outros, resta permanecer nos países onde reconstruíram a vida, celebrando as festas com amigos e familiares que também emigraram.
Entre quem ficou e quem tenta chegar, o sentimento predominante mistura saudade, angústia e resignação. A vontade de voltar permanece, mas, para muitos venezuelanos, o reencontro com a família segue condicionado a fatores que escapam ao planejamento individual.
Veja mais notícias em Geral