
Compromisso encerra disputa iniciada em 2022 e garante protagonismo compartilhado entre os dois países. (Foto: Reprodução)
A Turquia sediará a COP31, a cúpula anual do clima da ONU que ocorrerá no próximo ano, enquanto a Austrália ficará responsável por liderar as negociações diplomáticas entre os governos. O arranjo, anunciado nesta quinta-feira (20) pelo primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, foi construído durante conversas realizadas em Belém do Pará, onde ocorre a COP30.
O acordo põe fim ao impasse que se arrastava desde 2022, quando ambos os países apresentaram candidatura para receber o evento e se recusaram a recuar. As conferências da ONU são consideradas o principal fórum global para impulsionar ações climáticas e demandam meses de preparação, além de mobilizar dezenas de milhares de participantes.
Pelo compromisso, a Turquia será a anfitriã oficial da COP31, que deve ocorrer na cidade de Antalya, enquanto a Austrália organizará um evento pré-COP no Pacífico e assumirá a presidência das negociações, com poder para conduzir debates, nomear cofacilitadores e preparar as minutas de decisões.
“É uma grande vitória tanto para a Austrália quanto para a Turquia”, declarou Albanese à rádio ABC.
O ministro australiano de Mudanças Climáticas e Energia, Chris Bowen, afirmou que o arranjo atende aos objetivos do país e permitirá ao Pacífico manter visibilidade no processo. “Seria ótimo se a Austrália pudesse ter tudo. Mas não podemos ter tudo”, disse. “Era importante chegar a um acordo.”
Bowen ressaltou ainda que, no comando das negociações, terá “todos os poderes da presidência da COP”.
A solução negociada não agradou totalmente às nações insulares. O ministro das Relações Exteriores da Papua-Nova Guiné, Justin Tkatchenko, lamentou que o Pacífico não tenha sido escolhido como sede principal.
“Somos os que mais sofremos com as mudanças climáticas”, afirmou. “Nosso povo está pagando o preço pela incapacidade de outros de fazerem as coisas acontecerem.”
Apesar das críticas, o governo australiano insiste que o acordo garantirá centralidade à região. “Asseguramos que o Pacífico estará em destaque”, disse o tesoureiro Jim Chalmers à Sky News.
A Turquia justificou sua candidatura ressaltando seu papel como economia emergente e seu compromisso em promover a “solidariedade entre países ricos e pobres”. O país prometeu uma COP de alcance global, em contraste com a proposta australiana de uma “COP do Pacífico”.
Ambos os governos já vinham investindo na disputa: a Austrália afirma ter destinado A$ 7 milhões (US$ 4,5 milhões) aos preparativos, enquanto Ancara defendia um modelo de coorganização — rejeitado por Albanese por incompatibilidade com as regras da ONU.
Para analistas, o desfecho reduz o custo de sediar a conferência sem tirar da Austrália o protagonismo político. David Dutton, pesquisador do Instituto Lowy e ex-secretário-adjunto de diplomacia climática, avaliou o arranjo como “um bom resultado”.
“Isso alivia parte do ônus da organização da COP, ao mesmo tempo que cria oportunidades para a Austrália e o Pacífico aproveitarem o evento”, afirmou.
Com o impasse resolvido, Turquia e Austrália têm agora um ano para preparar a COP31 — um desafio logístico e diplomático que definirá o rumo das discussões climáticas em 2026.