19/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Armadilhas da língua

Publicado em 14 de novembro, 2025

Por Felix Valois

O meu leitor é raro, mas observador. Já há, por exemplo, de se ter dado conta de que “alguma, coisa” é precisamente o contrário de “coisa alguma”. A língua, multifacetada, enseja esse fenômeno pela simples mudança de colocação dos termos da oração. Por essas e outras é preciso um cuidado extremo ao manejar o idioma, falando ou escrevendo. O indivíduo que, indagado sobre as horas, responde que “é meio dia e meio”, não consegue perceber que o dia é “meio”, mas a hora é “meia”. Do contrário, teríamos um dia inteiro, já que o infeliz soma as duas metades do próprio.

Nessa incursão, é preciso reconhecer que há palavras antipáticas, cujo uso se deve evitar tanto quanto possível. Lembro-me de que o professor José Lindoso tinha uma especial implicância com o verbo “lobrigar”. Chega a ser intuitivo o motivo da restrição. Impossível não associar o termo a “lombriga”, o que, reconheçamos, não é agradável nem conveniente.

Ninguém menos que Machado de Assis já se viu às voltas com dificuldade desse tipo. Conta ele, em um prefácio, que, por ter usado o verbo “reprochar”, foi alvo da intransigência de um crítico literário. Dizia este que se tratava de galicismo grosseiro, a macular a pureza da língua. O Bruxo não recolheu a pena. Além de demonstrar, embasado nos mais conceituados vernaculistas, que não havia, no caso, nenhum barbarismo, foi além. Disse que o sinônimo mais próximo era impublicável: “exprobrar”. Tinha razão, carradas de razões, o criador de Capitu. Ninguém, no pleno gozo de suas faculdades mentais, chama à colação uma monstruosidade desse quilate.

O dia-a-dia coloquial do idioma traz à baila um ângulo diferente para a visualização do assunto. Não me refiro aos palavrões. São eles inevitáveis em qualquer quadrante. Acontece que, em determinados campos específicos, a linguagem popular cria termos que, mesmo banidos da língua culta, são usados com mais frequência do que seria de desejar. Em se tratando das necessidades fisiológicas, o vulgo forjou um verbo que tresanda deboche e agressão. Refiro-me ao intolerável “cagar”. Que coisa pavorosa! Recuso-me a pronunciar essa aberração e peço desculpas por tê-la grafado. O assunto já não é de ser abordado; deve, então, pelo menos, ser amenizado. Os derivados seguem o mesmo caminho. Não pode merecer respeito o animal que avisa: “vou dar uma cagada”. Deveria ir e não voltar, misturando-se para sempre com o produto da sua ignorância. Estaria em boa companhia.

Mas há pior. Talvez imaginando que uma metáfora poderá absolvê-lo da gigantesca vulgaridade, o mesmo indivíduo, ou um pareceiro seu da mesma laia, sai-se com esta preciosidade literária: “vou ali arriar um barro”. De barro, na verdade, há de ser o cérebro de um beócio dessa estirpe.

A anatomia humana também fornece campo fértil para os que incursionam pela seara da libertinagem linguística. Vejamos: a bunda, em si mesma, não apresenta maiores dificuldades para ser retratada. É, aliás, um adereço importante no que diz respeito à estética do sexo feminino. (Poupem-me as feministas; não cometo nenhuma ofensa). Mas a coisa se complica quando se cuida de um atributo inseparável da “rotundidade posterior”. Talvez como repulsa à pernosticidade do termo “ânus”, a choldra deliberou diminuir-lhe o tamanho e passou a usar, singelamente, o monossílabo “cu”. Apesar de curto a mais não poder, dizem que é o substantivo a possuir mais sinônimos. Todos eles, é claro, observando a mesma inspiração. A voo de pássaro, vem-me à lembrança alguns: “buciflaite”, “boga”, “rosca”, “toba”, “lanho” e “boca-de-macaco”. “Roskof” também é as vezes mencionado.

O professor Valois (quanta saudade do meu velho filólogo) contava que um escritor do século passado (Emílio de Menezes, salvo engano) foi ofendido por um diplomata japonês chamado Ieshida Ku. A vingança foi mortífera, com a publicação desta quadrinha: “Ku no Japão é ministro/Como andam as coisas a esmo!/Cou em francês é pescoço/E cu em português é cu mesmo”.

Termino, registrado o que ouvi de um futuro candidato: “Vou fazer uma campanha do ca**lho e como vai “menas” gente concorrer, “possa ser” que eu “seje” eleito deputado”. Pela linguagem refinada, parece possuir os atributos para o desempenho de um excelente mandato.

Mas fica a advertência: todo cuidado é pouco.

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Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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