08/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Luxo, lancha e sem peixe: a nova equação da pesca de tucunaré

Publicado em 02 de novembro, 2025

Luxo, lancha e sem peixe

Pesca esportiva cresce e aparece, mas se vê às voltas com luxo, lancha e sem peixe

O motor ronca, o vento corta o rosto e o rio parece prometer aventuras. Na lancha de alumínio reluzente, o pescador ajusta a carretilha de R$ 8 mil, confere a isca de R$ 200 ou mais e lança o anzol. Só falta uma coisa: o peixe. Nos lagos próximos de Manaus — Mutuca, Tucunaré e Juma são exemplos — os gigantes de escamas azuis e listras douradas desapareceram. Onde antes se brigava o dia inteiro com tucunarés de mais de 80 centímetros, agora o silêncio toma conta.

O sumiço dos cardumes transformou a paisagem da pesca esportiva amazônica. A outrora gloriosa Barcelos, que ganhou fama mundial e era considerada a “Meca do tucunaré-açu”, perdeu terreno. Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira assumiram a dianteira, mas já começam a sofrer o mesmo esvaziamento. A busca segue ainda mais longe, até lagos isolados, além da fronteira com a Colômbia e a Venezuela. O peixe virou um troféu distante e o caminho para alcançá-lo um luxo caro.

As pousadas, antes cheias até janeiro, agora limitam seus pacotes ao fim de outubro. Depois de dois anos seguidos de vazantes recordes e de temporadas frustradas, o calendário da pesca esportiva parece encolher. Grupos de pescadores que, no passado, garantiam reservas com meses de antecedência, hoje desistem. A razão é simples: o rio, que nos dois últimos anos vazou demais, este ano parece confuso. Os igapós só agora começam a ficar em terra, nem todos os barrancos sem capim apareceram, as margens estão imprevisíveis e, no meio disso, o tucunaré sumido.

Luxo

A falta de peixe obrigou o setor a se reinventar. O novo modelo é o da pesca de luxo, uma aventura de US$ 5 mil por semana — cerca de R$ 25 mil — que promete conforto, boa comida, hospedagem cinco estrelas e lanchas velozes. O pescador vai de avião, por conta própria, a São Gabriel da Cachoeira e de lá segue no pacote por horas, de lancha rápida, até, exausto, o ansiado lago “fechado por acordo de pesca”. O cenário é paradisíaco, o silêncio absoluto. O problema é que até lá, muitas vezes, o anzol volta limpo.

Mesmo assim, o turismo não para. Há quem pague pelo privilégio da solidão. “Hoje, o troféu é o momento, não o peixe”, diz Manoel, guia veterano da região do Mamori. Ele ainda se lembra do tempo em que os pescadores predatórios voltavam com caixas cheias de tucunarés de sete quilos. “Vi cardumes de gigantes pulando na frente da canoa. Agora, o rio parece de luto”, conta, com um riso de quem já viu o auge e a escassez. Ou de quem sabe que a natureza está cobrando o preço.

Números

Por trás da carretilha há uma economia poderosa. A pesca esportiva movimenta cerca de R$ 17 bilhões por ano no Brasil, segundo levantamento da FishTV, e sustenta mais de 270 mil empregos diretos, entre guias, piloteiros, pousadas e operadoras de turismo. No mundo, o mercado global de equipamentos de pesca movimentou US$ 14,4 bilhões em 2024, e deve chegar a US$ 20 bilhões até 2033, de acordo com a consultoria IMARC Group. Nos Estados Unidos, a pesca recreativa em águas salgadas gera US$ 73 bilhões em vendas anuais e envolve mais de 8 milhões de pescadores. São números que mostram que o lazer à beira d’água virou uma indústria robusta e que o sumiço do tucunaré não é apenas uma perda ambiental, mas um risco econômico.

As causas se misturam. O clima, mais instável, bagunçou o calendário dos rios. O “tempo estranho”, com friagens em meses quentes, chuvas fora de época e longos períodos de céu nublado, desorienta as espécies. A pesca predatória continua a pressionar os lagos e o aumento do número de pescadores esportivos, nem sempre conscientes, acentua o desequilíbrio. O resultado é um ciclo de escassez: cada vez mais pescadores disputam menos peixes, em locais mais distantes, pagando mais caro.

O turismo de pesca, que já foi símbolo de fartura, passa por um momento de contradição. De um lado, há luxo, lancha e marketing de aventura. De outro, silêncio e frustração. As varas caras, as iscas importadas e as selfies de recorde competem com uma realidade de lagos vazios. A experiência, agora, vale mais do que o troféu.

Mas há quem ainda acredite na recuperação. Especialistas e empresários do setor defendem o manejo sustentável, com fiscalização ativa, limites de captura e áreas de descanso ecológico. O Amazonas, afinal, guarda a maior bacia hidrográfica do planeta e um potencial quase infinito, se for bem cuidado. O desafio é conciliar o sonho do peixe gigante com a necessidade de preservar o rio que o sustenta.

Enquanto isso, o pescador segue sua rotina. Acorda antes do sol, confere o equipamento, sobe na lancha e encara o horizonte. Lança a isca, espera, e quando o rio responde com um leve puxão, o coração dispara. Pode ser o tucunaré, um tronco, o “tocunaré”, ou pode ser apenas o vento. Mas é essa incerteza — o fio invisível entre a esperança e o silêncio — que ainda mantém viva a alma da pesca esportiva amazônica.

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