23/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

BR-319: uma estrada, muitas vidas – e nenhuma desculpa a mais

Publicado em 24 de julho, 2025

BR-319: uma estrada, muitas vidas – e nenhuma desculpa a mais

A BR-319 já não é só uma estrada esquecida entre o barro e a burocracia. É símbolo de resistência de um povo que se recusa a viver isolado. Em 2025, o Amazonas começa a romper o ciclo de abandono histórico da rodovia que liga Manaus a Porto Velho. Pela primeira vez em anos, os meses de chuvas intensas não pararam completamente o tráfego — graças a soluções de engenharia emergencial, ações de manutenção liberadas por uma nova legislação e à pressão política pela retomada das obras nos 400 km mais críticos.

Pela primeira vez em anos, os amazonenses enfrentam o fim do inverno amazônico com menos transtornos. Os 11 atoleiros históricos que paralisavam a estrada desapareceram, graças à instalação de infraestrutura temporária com tecnologia de drenagem e base estabilizada, o chamado rachão — uma mistura de pedras, seixos, brita e areia que substitui o barro escorregadio e intransitável.

Esse avanço técnico só foi possível porque, também pela primeira vez, o DNIT obteve licenças ambientais específicas para obras de micro e macrodrenagem ao longo da rodovia. Isso impediu que a BR voltasse a se transformar em armadilha de lama entre abril e junho.

Pontes

Mais de 60 pontes de madeira foram revitalizadas, recebendo novas vigas e pranchões. Com estruturas reforçadas, o tráfego pesado voltou a fluir com segurança — essencial para abastecer o comércio e a indústria do Amazonas.

“Vamos liberar essa estrada. A BR-319 vai sair do papel”, tem repetido o senador Eduardo Braga (MDB), autor da emenda que incluiu, na nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, a dispensa de licenças complexas para obras de manutenção em rodovias já existentes. Aprovada na Câmara e no Senado, a mudança remove parte da burocracia que travava até mesmo reparos básicos.

Além disso, duas pontes fundamentais estão em reconstrução: a do rio Curuçá, com inauguração prevista para setembro, e a do Autaz Mirim, que deve ser entregue até o fim de 2025. Os tabuleiros já foram concretados, e a obra avança para a fase final.

A nova ponte sobre o rio Curuçá terá 250 metros — e substituirá a estrutura que desabou em 2022, durante o governo Bolsonaro. Hoje, com 75% da mesoestrutura concluída, ela simboliza não apenas reconstrução física, mas também de confiança.

O gargalo dos 400 km

A BR-319 é a única ligação terrestre do Amazonas com o restante do país. Os 200 km iniciais, saindo de Manaus, e os 200 km finais, já em Rondônia, são pavimentados e trafegáveis. O problema está concentrado no trecho central — 400 km entre o rio Igapó-Açu e Humaitá, em área de floresta densa, solo sensível e constante pressão ambiental.

Mas é exatamente onde o desafio é maior que o Estado precisa estar presente. O isolamento não preserva: apenas marginaliza. Sem estrada, não há fiscalização, nem escoamento da produção. A Zona Franca perde competitividade, os custos logísticos aumentam, e a população sente no bolso.

“Preservar a floresta não significa abandonar o nosso povo”, afirmou Braga em audiência no Senado, ao defender que a BR-319 seja tratada como obra estratégica nacional.

Redução de preços e mais competitividade

O presidente da CDL Manaus, Ralph Assayag, que percorreu a rodovia em maio, foi direto: a estrada é essencial para baixar o custo de vida no Amazonas. “A redução de preço vai acontecer, principalmente, em alimentos perecíveis como iogurte, carne e frango. Isso porque vamos pagar menos no transporte via BR-319. E mais: a concorrência vai aumentar. As balsas que saem de Porto Velho e Belém terão que reduzir seus preços. Com isso, o valor final para o consumidor vai melhorar.”

BR-319: entre urgência e omissão

O que trava a BR-319 não é falta de estudo, mas o excesso deles — e a ausência de decisão. Relatórios se acumulam enquanto a conta do supermercado e do combustível estrangula famílias. Cada mês perdido é um inverno inteiro em que perecíveis apodrecem nas balsas, remédios atrasam, emergências médicas dependem de voos inacessíveis para quem vive do salário mínimo.

A engenharia já provou, com drenagem eficiente e pontes reforçadas, que é possível manter a estrada funcional mesmo durante o período das chuvas. O que falta agora é coragem política.

Como lembra o senador Braga, “a BR-319 não é apenas uma estrada; é a jugular logística de um estado inteiro”. A legislação mudou. As obras andam. O barro cede. O que ainda falta é vontade real para ligar os 400 km centrais ao asfalto já existente.

Excursões eleitoreiras aos atoleiros para captar votos precisam dar lugar a ações concretas. O Amazonas não pede favores — exige o direito constitucional de ir e vir. Com floresta em pé, sim. Mas com dignidade de pé também. A BR-319 não é promessa de campanha: é urgência civilizatória. E urgência, por definição, não pode esperar.

Veja mais notícias em Cidade

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.