21/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Planos de Waldery, da filantropia ao Ciesa e à escola de líderes

Publicado em 06 de janeiro, 2025

Planos de Waldery

Planos de Waldery (foto), que acabou de comprar o Ciesa, como ele participou de criações de Amazonino Mendes e toda a filantropia de que participa

O empresário Waldery Areosa é reconhecido na educação desde que, entre 1970/1980, fundou e tornou famoso o Curso Einstein, preparatório para vestibular. Depois, o Colégio Objetivo e o Centro Universitário do Norte (Uninorte) consolidaram essa marca. Agora, vendido o Uninorte, ele parte para a revitalização do Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (Ciesa). Mas há outras facetas que poucos conhecem.

Waldery tem um lado filantropo. Quando Dom Mário Pasqualotto, um dos arcebispos auxiliares de Manaus, fundou a Fazenda Esperança, havia muita evasão de internos. Numa visita ao local, o empresário viu que eles se dedicavam apenas ao trabalho no campo, como capinação e cuidados de horta. Foi então que ofereceu aulas de reforço para a prova do Supletivo, que o Colégio Objetivo oferecia. E bolsa de estudo integral, para os aprovados, no Uninorte. Vários concluíram o Ensino Superior, estão empregados e constituíram família, refazendo a vida.

As freiras da instituição filantrópica especializada no atendimento de surdos Filippo Smaldone, em Manaus, também receberam ajuda significativa de Waldery. Todo o mobiliário, como carteiras, mesas e quadro branco, substituindo o quadro de giz, foi doado por ele que, até hoje, mantém ajuda regular à instituição.

A filantropia se estendeu à Fazenda Esperança Feminina, desde a fundação. Ao Grupo de Apoio à Criança com Câncer (Gacc) que, recentemente, foi beneficiado por evento para professores, no Teatro Século, onde o ingresso era um pix destinado à instituição. E a Casa da Criança, que recebeu três toneladas de alimentos doados pelos pais do Colégio Século, empreendimento de Waldery.

O empresário, hoje com 73 anos, também participou de outros momentos importantes da vida do Amazonas. Foi uma espécie de conselheiro, muito ouvido, do falecido ex-governador e ex-prefeito Amazonino Mendes. Entre outras ideias, sugeriu o Bolsa Universidade, acabou com o Turno da Fome e padronizou o ensino público estadual no Amazonas, com material didático igual para escolas da capital e do interior.

Agora, em 2025, Waldery entregou um prédio, com 70 salas de aula e estacionamento para 400 carros, sem custo, ao Liceu Cláudio Santoro. E promete equipar as escolas ribeirinhas de Manaus. Ele falou, com exclusividade, ao Portal do Marcos Santos. Veja, a seguir, a íntegra da entrevista:

Portal do Marcos Santos – O senhor resolveu abrir o coração e fazer filantropia? O que aconteceu?

Waldery Areosa Ferreira – Sempre fiz. O problema é que essas coisas a gente faz porque gosta, porque é dever de cidadão e não para aparecer na mídia ou fazer média com quem quer que seja. É que agora, com a comunicação do jeito que está, as coisas vão aparecendo mais.

“Filantropia a gente faz porque gosta, porque é dever de cidadão e não para aparecer na mídia ou fazer média com quem quer que seja.”

 

pms.am – O portal levantou o trabalho filantrópico com sua assessoria e vimos uma lista respeitável de instituições: Fazenda Esperança, Fazenda Esperança Feminina, Gacc, Casa da Criança, Filippo Smaldone…

Waldery – Tem coisa melhor do que saber que, em instituições tão importantes para a sociedade, a gente conseguiu contribuir? Gosto da sensação e sei que outros empresários fazem o mesmo. É só tirar um pouquinho de tempo e do lucro que dá.

“Gosto da sensação e sei que outros empresários fazem o mesmo. É só tirar um pouquinho de tempo e do lucro que dá.”

 

pms.am – No curso da nossa apuração, o seu pessoal disse que agora está sendo entregue um prédio para o Liceu Cláudio Santoro, do Governo do Estado. É sem custo? Sem pagamento de aluguel?

Waldery – O Liceu presta um grande serviço. Já formou músicos que seguem carreira internacional. Soube das condições da principal unidade deles, que é o Sambódromo. Você já imaginou como ficam os banheiros, depois de um show, por mais que haja toda boa vontade dos promotores e da administração? E arquibancada de anfiteatro não é tão impermeabilizada, gerando goteiras. Tenho esse prédio, que não estava alugado, e resolvi ceder para a Secretaria Estadual de Cultura (SEC). São 70 salas e 400 vagas de estacionamento. Eles têm, mais ou menos, 50 salas no Sambódromo. Vai dar para crescer e dar conforto à essa garotada.

“São 70 salas e 400 vagas de estacionamento. Eles têm, mais ou menos, 50 salas no Sambódromo. Vai dar para crescer e dar conforto à essa garotada.”

pms.am – E quanto às escolas ribeirinhas? O senhor vai equipá-las?

Waldery – Sim. Ao longo do ano letivo vamos doar carteiras, mesas e quadro branco, com pincéis, num trabalho complementar ao que a Prefeitura de Manaus já realiza. Doaremos cadernos e outros materiais didáticos. É uma gente carente e que tem essa dificuldade. Os pais do Colégio Século são muito participativos e vão nos ajudar nessa tarefa.

 

pms.am – O senhor pode contar qual sua participação na criação do Bolsa Universidade?

Waldery – Sim. O Amazonino era prefeito e tinha um contencioso jurídico com algumas Instituições de Ensino Superior (IES) de Manaus. Conversamos e eu mostrei a ele que, na cidade, apenas o Uninorte, que ainda era da nossa empresa, e o Marta Falcão eram instituições “com fins lucrativos”. As demais eram “sem fins lucrativos”, que têm como natureza a isenção de impostos. Os fiscais da Prefeitura iam lá, multavam, inscreviam a multa na dívida ativa e isso virava uma briga jurídica que ia parar nos tribunais superiores. Disse ao Amazonino, então prefeito, que o resultado seria de derrota para a Prefeitura. Por outro lado, os processos atormentavam as IES de Manaus, que precisavam ficar se defendendo. Com o Bolsa Universidade, essas instituições ofereciam vagas ociosas, que eram muitas, em troca desse passivo de impostos municipais.

“Com o Bolsa Universidade, essas instituições ofereciam vagas ociosas, que eram muitas, em troca desse passivo de impostos municipais.”

 

pms.am – Qual era o valor do imposto devido?

Waldery – Não lembro mais.

 

pms.am – Na época falou-se em algo acima de R$ 50 milhões.

Waldery – Era muito mais que isso, com certeza, embora não lembre a quantia exata. O importante é que deu certo e, no fim, o Uninorte foi quem mais ofereceu vagas porque eu queria muito que o projeto funcionasse, como funcionou. Na época, o gestor da pasta que implantou o Bolsa Universidade era o atual deputado federal Sidney Leite.

“O Uninorte foi quem mais ofereceu vagas porque eu queria muito que o projeto funcionasse, como funcionou.”

 

pms.am – Conte como foi aquele processo de venda de material didático para a Secretaria Estadual de Educação (Seduc), também com Amazonino como gestor, desta vez como governador?

Waldery – Nós conseguimos colocar o mesmo material didático em todas as escolas estaduais do Amazonas. O aluno podia se transferir do interior para a capital, que não tinha problema: bastava trazer debaixo do braço as apostilas que recebeu na sua cidade. Eram todas iguais no Estado inteiro.

 

pms.am – Isso também rendeu um bom dinheiro, não?

Waldery – Sabe quanto custava a apostila? R$ 4, quatro reais. É só ver quanto custa hoje ou quanto passou a custar quando o Amazonino saiu e o Estado deixou a parceria conosco. Era um material completo, de alta qualidade. Uma vez, o governador chegou comigo e disse que havia reclamação do pessoal técnico da Seduc de que algumas questões estavam erradas ou não tinham solução. Ofereci R$ 1 mil para cada problema desse tipo que nos fosse apresentado. Sabe quantos apareceram? Nenhum. Livreiros são profissionais em ganhar dinheiro com material didático. Nós somos amazonenses. É diferente.

“Sabe quanto custava a apostila? R$ 4, quatro reais. É só ver quanto custa hoje ou quanto passou a custar quando o Amazonino saiu e o Estado deixou a parceria conosco.”

 

pms.am – Como foi a solução para o Turno da Fome, nas escolas estaduais?

Waldery – O Amazonino, governador, estava agoniado com a impopularidade gerada pelo turno intermediário nas escolas estaduais. Estavam chamando de “o turno da fome”. Havia três turnos: das 7h às 10h, das 10h às 14h e das 14h às 17h. Quem estudava no turno do meio saía de casa sem almoçar e passava a hora do almoço na escola. A reclamação era grande e não havia como construir tantas escolas para o número de alunos matriculados. Sugeri a compra de vagas em escolas privadas. Eram vagas ociosas e que poderiam ser oferecidas ao Governo por um preço bem menor que os praticados no mercado. O Amazonino topou e acabamos com o Turno da Fome.

“Sugeri a compra de vagas em escolas privadas. Eram vagas ociosas e que poderiam ser oferecidas ao Governo por um preço bem menor que os praticados no mercado. O Amazonino topou e acabamos com o Turno da Fome.”

 

pms.am – O senhor participou do grupo que ajudou a criar a UEA?

Waldery – Foi uma participação indireta, mas, sim, participei da criação da UEA. Explico: o Amazonino, governador, queria uma solução para a Utam, que custava caro e formava poucos alunos. Eu propus que o Estado me cedesse a instituição em comodato, em troca de 2 mil bolsas integrais/ano para o Governo do Estado. A questão é que a Utam era Universidade, Universidade de Tecnologia do Amazonas. Como Universidade, a instituição podia criar o curso que quisesse. Eu faria 50 cursos, rapidamente, e daria as vagas prometidas ao Estado. Houve muita discussão em torno disso e, ao final, o grupo político do Amazonino decidiu que a UEA seria criada, com a Utam incluída, no fundo porque não acreditavam que as vagas seriam realmente oferecidas. Ainda propus que fosse estabelecida multa pesada, em caso de não ser cumprida a nossa parte. Eles bateram o pé e a Utam foi incorporada. Aí o Amazonino me comunicou a decisão e seguiu com o projeto. Digamos que dei um empurrãozinho no que viria a ser “a startup da UEA”.

“Digamos que dei um empurrãozinho no que viria a ser “a startup da UEA”.”

 

pms.am – Uma coisa está intrigando a sociedade: por que Waldery Areosa está voltando ao Ensino Superior, depois de fazer uma venda histórica do Uninorte?

Waldery – Há várias razões. Vendi o Uninorte, mas agora vejo que houve certo declínio no mercado. Senti então que ainda tenho um papel a desempenhar no Ensino Superior do Amazonas e na Educação em geral. Quero contribuir na qualidade, inovação e até motivação da concorrência. O Ciesa, nosso novo Centro Universitário, tem poltronas estofadas e não tem mais quadro, negro ou branco, porque utiliza tela digital, onde o professor escreve e apaga com os dedos. Nossos professores são todos titulados como mestres, doutores e pós-doutores. Mestre recebe R$ 90 por hora/aula e doutor R$ 100. Este ano, 2025, serão apresentados novos cursos e a sociedade verá a diferença.

“Quero contribuir na qualidade, inovação e até motivação da concorrência.”

 

pms.am – Como vai o Colégio Século?

Waldery – Muito bem obrigado. Nos tornamos uma escola para alunos que querem posto de comando, buscando carreira empresarial. O Século é escola de líderes. São filhos de grandes empresários e profissionais liberais amazonenses, que sairão preparados para criar negócios e buscarão financiadores. No caso, a própria família poderá financiar essa garotada e o nosso trabalho é deixar a cabeça fresca, fervilhando de ideias, porque é o que espera o futuro da atual geração. A escola cultiva o relacionamento, que é a base de qualquer negócio. A ideia de estudar apenas almejando “passar em concurso público” está ficando ultrapassada e a concorrência é cada vez maior. Uma hora, o Brasil terá que rever essa história de prefeituras e governos estaduais dedicarem 53% do dinheiro arrecadado do povo para pagar funcionalismo. Isso está só aumentando a dependência do poder público e limitando o poder de investimento em infraestrutura, a vida empresarial, industrial, a livre iniciativa, o crescimento do País. É justo que quem lutou para passar no concurso de juiz, defensor público, promotor, fiscal etc., todos muito concorridos, receba o devido pagamento por isso. Assim como todos os que exercem funções públicas. Mas o País terá que equalizar isso, usando as ferramentas de informática e Inteligência Artificial (IA), para que a administração deixe de ser um fim e seja o que nasceu para ser, isto é, um meio de gerir o dinheiro público.

“Nos tornamos uma escola para alunos que querem posto de comando, buscando carreira empresarial. O Século é escola de líderes.”

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