14/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Crente de pau-oco e a intolerância religiosa

Publicado em 19 de fevereiro, 2024

Por João Lago

Quando o autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante – ISIS iniciou a destruição de sítios históricos no Iraque em 2015, principalmente aqueles localizados na cidade síria de Palmira, na qual um templo de mais de quatro séculos foi reduzido a escombros, o ocidente assistiu incrédulo o desprezo que religiosos fanatizados têm pela cultura. O culto a divindade Baal é uma devoção morta, pois não há na atualidade grupos religiosos dedicados em seu louvor e, portanto, o interesse na preservação dos monumentos é unicamente histórico. Para melhor compreensão, seria como se o ISIS invadisse o Egito e destruísse as três grandes pirâmides do planalto de Gizé, cujos aspectos religiosos ficaram ocultos por séculos, somente sendo conhecidos quando Champollion em 1822 decifrou os hieroglifos da pedra de Roseta.

A intolerância religiosa pode ser extrema, como aquela perpetrada pelo ISIS, ou de modo sutil e sistemática com o intento de suprimir da cultura o que não é aceito pelos grupos fundamentalistas. Não é uma guerra declarada como a praticada pelo ISIS, mas não se engane pois o propósito também é destruir as representações religiosas que não sejam as suas, pois as consideraram ofensivas e inferiores. No entanto, não é somente as religiões de matriz africana que se tornam alvo dessa intolerância, mas até a própria Igreja Católica já teve imagens sacras sendo chutadas, quebradas e padres defendendo a veneração católica aos santos não como idolatria, mas como modelos de virtude e fé que são retratadas como exemplo aos fiéis nas igrejas.

A cantora de axé Cláudia Leite Pedreira, mais conhecida como Cláudia Leitte (com dois tês por sua conta e risco) nasceu e cresceu no carnaval da Bahia desde 2001, com suas coreografias sensuais, roupas sumárias e cantando músicas lúdicas como as que dizem: “Eu fico, fico porque te quero, vem logo que eu te espero” ou “quando o sol sair me beije, me beije mais, me beije logo”. Porém, agora “convertida” desde 2012 a “crente”, conforme declarou no Faustão da Band em abril de 2023, nesse carnaval gerou polêmica e indignação ao trocar da letra da canção Caranguejo “saudando a rainha Iemanjá” para “Só louvo meu rei Yeshua”. A música em questão tem vinte anos e logicamente a mudança chamou atenção do folião mais antenado, assim como a repercussão nas redes sociais transformou esse fato um dos mais comentados no carnaval de 2024.

Hipocrisia é uma palavra que nenhum fundamentalista religioso gosta de ver colada em sua pessoa, pois denota fingir ser o que prega e as suas ações não confirmam o que sai de sua boca. O que parece estar descolado da conversão de Leitte é justamente continuar usufruindo dos ganhos financeiros do carnaval e em vez de abandonar a vida pregressa “desviada” busca higienizar o discurso. Logicamente, o fundamentalismo religioso não tem limites e se não denunciado como “violência velada” segue a instigar agressões que irão muito além da simples troca da letra de uma canção. Nos casos mais extremos perseguem, matam e destroem templos.

Finalizando, replico uma postagem de autor desconhecido que diz: “não existe São João gospel, não existe carnaval gospel. O que existe é crente adaptando festa mundana para matar a saudade do mundo”.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
João Lago

* João Lago é professor universitário, mestre em Administração (Estratégica / Marketing), tem 10 ...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.