Por João Lago
Quando o autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante – ISIS iniciou a destruição de sítios históricos no Iraque em 2015, principalmente aqueles localizados na cidade síria de Palmira, na qual um templo de mais de quatro séculos foi reduzido a escombros, o ocidente assistiu incrédulo o desprezo que religiosos fanatizados têm pela cultura. O culto a divindade Baal é uma devoção morta, pois não há na atualidade grupos religiosos dedicados em seu louvor e, portanto, o interesse na preservação dos monumentos é unicamente histórico. Para melhor compreensão, seria como se o ISIS invadisse o Egito e destruísse as três grandes pirâmides do planalto de Gizé, cujos aspectos religiosos ficaram ocultos por séculos, somente sendo conhecidos quando Champollion em 1822 decifrou os hieroglifos da pedra de Roseta.
A intolerância religiosa pode ser extrema, como aquela perpetrada pelo ISIS, ou de modo sutil e sistemática com o intento de suprimir da cultura o que não é aceito pelos grupos fundamentalistas. Não é uma guerra declarada como a praticada pelo ISIS, mas não se engane pois o propósito também é destruir as representações religiosas que não sejam as suas, pois as consideraram ofensivas e inferiores. No entanto, não é somente as religiões de matriz africana que se tornam alvo dessa intolerância, mas até a própria Igreja Católica já teve imagens sacras sendo chutadas, quebradas e padres defendendo a veneração católica aos santos não como idolatria, mas como modelos de virtude e fé que são retratadas como exemplo aos fiéis nas igrejas.
A cantora de axé Cláudia Leite Pedreira, mais conhecida como Cláudia Leitte (com dois tês por sua conta e risco) nasceu e cresceu no carnaval da Bahia desde 2001, com suas coreografias sensuais, roupas sumárias e cantando músicas lúdicas como as que dizem: “Eu fico, fico porque te quero, vem logo que eu te espero” ou “quando o sol sair me beije, me beije mais, me beije logo”. Porém, agora “convertida” desde 2012 a “crente”, conforme declarou no Faustão da Band em abril de 2023, nesse carnaval gerou polêmica e indignação ao trocar da letra da canção Caranguejo “saudando a rainha Iemanjá” para “Só louvo meu rei Yeshua”. A música em questão tem vinte anos e logicamente a mudança chamou atenção do folião mais antenado, assim como a repercussão nas redes sociais transformou esse fato um dos mais comentados no carnaval de 2024.
Hipocrisia é uma palavra que nenhum fundamentalista religioso gosta de ver colada em sua pessoa, pois denota fingir ser o que prega e as suas ações não confirmam o que sai de sua boca. O que parece estar descolado da conversão de Leitte é justamente continuar usufruindo dos ganhos financeiros do carnaval e em vez de abandonar a vida pregressa “desviada” busca higienizar o discurso. Logicamente, o fundamentalismo religioso não tem limites e se não denunciado como “violência velada” segue a instigar agressões que irão muito além da simples troca da letra de uma canção. Nos casos mais extremos perseguem, matam e destroem templos.
Finalizando, replico uma postagem de autor desconhecido que diz: “não existe São João gospel, não existe carnaval gospel. O que existe é crente adaptando festa mundana para matar a saudade do mundo”.
* João Lago é professor universitário, mestre em Administração (Estratégica / Marketing), tem 10 ...