16/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Trabalho escravo atinge recorde de denúncias no Brasil em 2023

Publicado em 05 de janeiro, 2024

Trabalho escravo atinge recorde de denúncias no Brasil em 2023

Desde 1969, quando tinha 22 anos, a trabalhadora doméstica prestava serviços sem qualquer tipo de remuneração ou outros direitos elementares, como férias. Em setembro de 2023, a mulher, agora com 76 anos e depois de mais de 50 deles em situação análoga à de escravidão, foi resgatada da casa onde trabalhava, em Copacabana, após denúncia anônima ao Ministério Público do Trabalho, no Rio de Janeiro (MPT-RJ).
De acordo com dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, em 2023, o Brasil registrou cerca de 3,4 mil denúncias de trabalho escravo e análogo à escravidão — o maior número já apontado desde que o Disque 100 foi criado, em 2011.

O valor foi cerca de 61% maior que o captado em 2022. Ainda segundo o ministério, a cada cinco denúncias de violações de direitos humanos informadas ao serviço, uma era de trabalho análogo à escravidão.

Crime

Previsto no código penal brasileiro, no artigo 149, o trabalho análogo à escravidão é aquele caracterizado pela submissão a trabalhos forçados, com jornadas exaustivas e condições degradantes, como, por exemplo, a restrição de locomoção por dívidas com o empregador. “É aquele trabalho em que a pessoa é submetida a condições de trabalho em que ela não tem nenhum direito, seja ele previdenciário, trabalhista, cível… nem mesmo os humanos”, explica o advogado mestre em direitos humanos Gabriel de Castro.
Para ele, o aumento nos registros desse tipo de violação está relacionado à impunidade e à precarização do trabalho e do trabalhador. “Nós temos problemas graves em respeito a isso. As condenações a crimes que envolvem trabalho escravo não são simples”, diz o Gabriel.
“Precisamos lembrar que o Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir a escravatura. Isso, infelizmente, faz parte do aspecto cultural e social do país. Muitas pessoas são submetidas a condições de trabalho em que seus direitos são violados. Não temos uma cultura de valorizar o trabalho das pessoas. Um exemplo disso é o fato de que o trabalho doméstico só foi reconhecido de maneira formal em 2015. São reflexos históricos e culturais do nosso país em que é necessária uma resposta política, enquanto política de Estado”, opina o advogado.

Aumento no número de resgates

Já de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego o número de pessoas resgatadas em situação análoga à escravidão também cresceu em 2023, chegando a ser o maior registrados nos últimos 14 anos – 3.151 trabalhadores foram resgatados entre 1º de janeiro e 21 de dezembro de 2023.

Em agosto de 2023 a Operação Resgate III tirou 532 trabalhadores do trabalho escravo contemporâneo. Entre as atividades econômicas com maior número de vítimas na área rural estão o cultivo de café, cultivo de alho e cultivo de batata e cebola. Já na área urbana, destacam-se os resgates ocorridos em restaurantes, oficinas de costura, construção civil e trabalho doméstico.

Os estados com mais pessoas resgatadas foram Minas Gerais (204), Goiás (126), São Paulo (54), Piauí (42) e Maranhão (42).

Ao todo, mais de 70 equipes de fiscalização participaram de 222 inspeções em 22 estados e no Distrito Federal. Essa foi a maior ação conjunta de combate ao trabalho escravo e tráfico de pessoas no Brasil e é resultado do esforço de seis instituições: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério Público Federal (MPF), Defensoria Pública da União (DPU), Polícia Federal (PF) e Polícia Rodoviária Federal (PRF).

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