09/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Fiocruz lança primeiro edital no Brasil focado em saúde integral nas favelas

Publicado em 21 de dezembro, 2023

Fiocruz lança primeiro edital no Brasil focado em saúde integral nas favelas

Em clima de celebração e de reconhecimento dos trabalhos, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizou, nesta quarta-feira (20/12), o evento Favela produz saúde, na quadra da Mangueira, para apresentar resultados e lançar um novo edital do Plano Integrado de Saúde nas Favelas RJ, que prevê R$5,5 milhões para organizações sociais que atuem na promoção integral à saúde em favelas do estado. A chamada pública, para 2024, é o primeiro edital do Brasil com este foco. Em um dia de muitos debates, apresentações culturais e confraternização, estiveram reunidas lideranças dos projetos apoiados neste ano, representantes das instituições parceiras e da sociedade civil.

Uma articulação entre a Fiocruz, Alerj, UFRJ, PUC-RJ, Uerj, SBPC e Abrasco, o Plano beneficiou, até novembro deste ano, 325 mil pessoas em 90 projetos apoiados em 18 municípios, 136 favelas e territórios de periferias. Foram realizadas, neste ano, 135 visitas aos projetos em favelas, compactuando com uma estratégia participativa e de construção de diálogo e houve a distribuição de 400 toneladas de alimentos.

O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, ressaltou que o evento consagra a luta de um ano de projeto e traz ensinamentos à Fundação. “A Fiocruz se sente muito honrada em fazer parte desse projeto, não como protagonista, mas como parceira. A nossa experiência em trabalhar com favelas é sempre enriquecedora e de aprendizado. A pandemia reforçou essa crença de que política pública se faz em conjunto com aquele que é o objeto dela”, afirmou.

Plano

Para o coordenador-executivo do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do RJ, Richarlls Martins, o dia foi de celebração e uma oportunidade para pensar as contribuições dos trabalhos para a construção de uma política pública integral da favela. “Entendo que essas experiências são um laboratório que pode subsidiar a construção de uma agenda estratégica em âmbito nacional”, afirmou Martins. “Nossa contribuição institucional é de pensar o quanto a Fiocruz, nesse diálogo com a favela, se beneficia; de reconstruir uma perspectiva de produção de conhecimento que vê a favela como um objeto e não como um sujeito da construção da política pública”.

Ao longo do evento, lideranças dos projetos deram seus depoimentos, contando a diferença que o aporte financeiro fez para o desenvolvimento de suas atuações. O Plano foi estruturado em 2021 no contexto da emergência de Covid-19, por isso o foco inicial era na segurança alimentar das populações de favelas, que passavam fome. “Passamos por um período bem complicado de pandemia, e ainda temos resquícios dela dentro da comunidade. Por isso, se faz necessário mitigar seus efeitos e o apoio da Fiocruz foi fundamental para que pudéssemos promover dignidade e segurança integral na área da saúde nessas famílias”, disse a coordenadora da área de Gênero e Raça no Instituto Karanba, Letícia da Hora.

Atualmente, o Plano tem aumentando sua atuação, indo para mais municípios do estado, por exemplo. Com o lançamento do edital e de um novo aporte de R$25 milhões da Alerj, o objetivo é atingir cada vez mais periferias.

Assessor da presidência para assuntos institucionais, Valber Frutuoso reforçou a vanguarda do projeto, sua atuação e magnitude. “As potências das periferias devem ser valorizadas, então não estamos fazendo nada mais que a nossa obrigação em disponibilizar as capacidades da Fiocruz, caminhando juntos neste projeto para expandir suas atividades não só para o estado como para o país”, disse ele.

Inscrições começam em janeiro

A chamada pública lançada nesta quarta-feira se volta, especialmente, a projetos que se propõem a formar redes solidárias no estado do Rio. “A gente quer conectar a rede, juntar organizações e universidades para pensar essa agenda”, disse Martins. Serão projetos de duração de nove a doze meses com início do apoio até o primeiro semestre de 2024. As inscrições começam no dia 2 de janeiro e vão até o dia 2 de fevereiro.

Além deste aporte adicional da Fiocruz, alocado no edital, a Alerj aprovou, em 14 de dezembro, a liberação de R$ 25 milhões por emenda ao orçamento do Estado para a ampliação das ações do Plano para 2024. O subsecretário de vigilância e atenção primária à saúde do estado do Rio de Janeiro, Mario Sergio Ribeiro, esteve no evento representando a secretária, Claudia Melo, e reafirmou o seu compromisso em apoiar o projeto, acrescentando que em janeiro começam os trâmites administrativos para definir como será o encaminhamento da verba.

Para a deputada estadual Renata Souza (Psol), autora da lei que viabilizou o aporte para o Plano, o projeto representa um ensinamento para o Estado do Rio de Janeiro de como fazer saúde na favela e na periferia e, por isso, a importância da liberação da verba pela Alerj: “A gente vê a perpetuação do projeto com o protagonismo da favela, com a articulação entre instituições tão importantes, as universidades e a Fiocruz. Espero que esse se torne um programa nacional, esse Plano Integrado realmente ensinou uma nova metodologia de parceria com a favela, de protagonismo com a favela, mas mais que tudo, de entender a favela na sua dignidade humana”.

À tarde, a deputada entregou o diploma de Direitos Humanos às 90 organizações apoiadas pelo projeto e a homenagem Maria Carolina de Jesus de Direitos Humanos ao Plano Integrado de Saúde nas Favelas, à Fiocruz, aos Ministérios da Saúde e dos Direitos Humanos. Foram realizadas também apresentações culturais, como do grupo de teatro Nós do Morro – beneficiado pelo Plano – da Mangueira do Amanhã e da cantora Marina Iris.

Resultados

Entre os resultados deste ano, Richarlls Martins destacou a ampliação do projeto, de 54 projetos para 90 e de 8 cidades para 18 no estado. Além disso, ele destaca resultados conceituais e políticos, como ampliação da agenda, fortalecimento da rede e de sua articulação, além da entrada da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e do Instituto Federal Fluminense (IFF) no Plano.

Neste ano, especialmente, o plano – incluindo o tema da saúde mental, por exemplo – conseguiu ampliar sua atuação, voltando-se para uma saúde integral da população das favelas, a partir da experiência dos 90 projetos. Para 2024, as estratégias de trabalho estarão voltadas para atenção básica, plano de comunicação e pesquisa.

A coordenadora do coletivo Mulheres do Salgueiro, Janete Nazareth Guilherme, por sua vez, descreveu a ocasião como um “dia de construção de um futuro de esperança depois de uma época nebulosa como a pandemia” e destacou a importância da união da favela com universidades e instituições como a Fiocruz.

O assessor especial para Territórios do Ministério da Saúde, Valcler Rangel, que esteve na coordenação do projeto até fevereiro deste ano, pela Fiocruz, destacou a importância do Plano acontecer a partir de uma “construção coletiva”: “A gente deve construir política nacional de saúde das favelas, vamos fazer isso juntos, com as universidades, organizações, todo o país. Dá para acelerarmos esse processo de igualdade, Para isso, solidariedade, saúde e sustentabilidade são fundamentais. E vocês mostraram que é possível”, disse.

Relembrando sua atuação em favelas e periferias, a assessora especial de Participação Social e Diversidade do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Anna Karla Pereira, também prestigiou o evento: “Vamos construir pontes e estratégias porque quem elegeu esse governo foi o povo e é para ele que as portas devem estar abertas”, concluiu.

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