13/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Única no mundo, torre alta da Amazônia produz ciência na fronteira do conhecimento sobre clima

Publicado em 17 de outubro, 2023

Única no mundo, torre alta da Amazônia produz ciência na fronteira do conhecimento sobre clima

O monitoramento dos processos entre a Amazônia e a atmosfera realizado no Observatório da Torre Alta da Amazônia (ATTO) tem permitido à comunidade científica brasileira e internacional avançar na fronteira do conhecimento sobre clima e a maior floresta tropical do mundo. A infraestrutura de pesquisa, construída em conjunto por Brasil e Alemanha, é única no mundo e está posicionada em local estratégico.

“Quanto mais alta a torre for, mais longe vai conseguir amostrar. De onde ela está, a Torre ATTO consegue amostrar uma região de até 500 a 600 quilômetros”, explica o coordenador científico do programa ATTO e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Carlos Alberto Quesada.

Os 325 metros de altura, equivalente a um prédio de 110 andares, foram erguidos por 146 toneladas de ferro e são sustentados por 26 quilômetros de cabos de aço. A estrutura impressiona tanto pela altura da torre principal, quanto pela instrumentação. Os sensores estão dispostos a cada 50 metros em braços externos. Do topo à base, são mais de cem. Eles medem a velocidade dos ventos, umidade, vapor d’água, radiação, partículas, gases de efeito estufa. Alguns dos equipamentos efetuam 60 medidas por segundo. A sensibilidade dos sensores é tamanha que até a circulação de pessoas pode interferir na captação dos dados.

Atmosfera

O ATTO é um programa científico do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), coordenado pelo Inpa em cooperação com o Instituto Max Planck de Biogeoquímica, da Alemanha, que monitora os processos da atmosfera e da conexão com a floresta, desde o solo até a alta atmosfera, e como a floresta influencia no clima. Os processos envolvem a formação da gota de chuva, das nuvens, precipitação, formação dos “rios voadores”, efeitos da poluição, atmosfera limpa e os gases que saem do chão da floresta, formando as nuvens. “Todos esses processos que o ATTO está registrando são fundamentais para entender o funcionamento da floresta tanto hoje quanto em um cenário de mudanças climáticas no futuro”, afirma Quesada.

Esses conhecimentos são considerados relevantes em um cenário de mudanças climáticas, pois a floresta é apontada como um dos tipping points globais pelo papel na regulação do clima. “É muito importante entender perfeitamente como essa floresta se comunica com a atmosfera acima dela, quantos gases são emitidos e absorvidos, como a formação de nuvem acontece e, consequentemente, os processos de precipitação”, explica o físico e coordenador do grupo de pesquisa em micrometeorologia da ATTO e professor do Instituto Federal do Pará, Cleo Quaresma. “Isso tudo é fundamental para ter uma precisão de como será o clima no futuro do planeta.”

A infraestrutura científica no meio da floresta também permitiu descrever melhor como ocorre a liberação de compostos voláteis orgânicos (VOCs), microscópicas partículas que são elevadas até a atmosfera e contribuem para a formação das nuvens. A partir desses dados, é possível compreender o ciclo hidrológico da precipitação na floresta e outras regiões do país.

Detecção

Os sensores de precisão da torre permitiram detectar que grande parte de partículas que alimentam a floresta amazônica, cujo solo é pobre em nutrientes, vem do outro lado do Oceano Atlântico, a mais de 6 mil km de distância, como a poeira do deserto do Saara.

A detecção das partículas foi possível por meio de um espectômetro de massa. O equipamento de última geração e totalmente automatizado está instalado nos laboratórios na base da torre. Contudo, os amostradores de gases, que literalmente capturam o ar, estão instalados na última barra de sustentação da torre, a 325 metros de altura, ou cerca de 450 metros de altitude acima do nível do mar. O conteúdo é conduzido por pequenos canos presos no interior da estrutura de ferro até serem efetivamente capturados em frascos de vidro.

O objetivo do experimento é medir os principais gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, presentes na região, diferenciando o que é emitido pela floresta e o que tem procedência externa. “O equipamento serve para coletar amostras semanais de ar para análise de gases de efeito estufa e isótopos no ar”, detalha o pesquisador líder do grupo de Teoria do Ecossistema Ecológico pelo Instituto Max Planck de Biogeoquímica, o colombiano Carlos Sierra. O grupo se dedica ao estudo do ciclo global do carbono e a interação com o sistema climático.

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