22/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Convenção 169 da OIT sobre povos indígenas é traduzida para a língua do povo kaiapó

Publicado em 12 de setembro, 2023

Convenção 169 da OIT sobre povos indígenas é traduzida para a língua do povo kaiapó

Foto: Divulgação/STF

Em solenidade marcada pela tradição e pelo simbolismo dos deveres do Estado com a defesa dos povos indígenas, foi lançada, na noite dessa segunda-feira (11), no Supremo Tribunal Federal, a versão traduzida para a língua indígena Mebêngokrê (Kaiapó) da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A iniciativa é uma parceria entre o Ministério Público Federal (MPF), a Suprema Corte e a OIT. O subprocurador-geral da República Humberto Jacques de Medeiros – que representou o procurador-geral da República, Augusto Aras, na solenidade – destacou que a convenção 169 resume para os indígenas o direito de serem ouvidos, de falar com liberdade e de ter os pactos cumpridos, valores classificados por ele como condições para que a “humanidade chegue aonde os seus sonhos querem que ela chegue”.

Aprovada em 1989 com o objetivo de afastar práticas discriminatórias que afetam povos indígenas e tradicionais e assegurar a participação deles na tomada de decisões que impactam suas vidas, a Convenção 169 passou a integrar a legislação brasileira em 2004. O documento é considerado um estatuto protetivo para as comunidades, uma vez que se baseia no respeito à cultura e a forma de vida desses povos e reconhece os direitos sobre a terra e os recursos naturais.

No âmbito do Ministério Público Federal, a Convenção 169 tem sido utilizada como ferramenta de proteção dos interesses de povos indígenas a partir da defesa do direito à consulta livre, prévia e informada em qualquer processo legislativo ou administrativo do Estado brasileiro que possa impactar no estilo de vida ancestral das comunidades, incluindo a execução de grandes empreendimentos. A tradução da normativa da OIT para a língua falada pelos indígenas Mebêngokrê, na avaliação do subprocurador-geral, é um grande avanço para que os povos indígenas brasileiros possam exercer sua cidadania.

O subprocurador fez questão de lembrar que o compromisso do Ministério Público com todos os povos indígenas está assentado na Constituição e deve ser mantido sempre firme e forte. “A Convenção 169 é parte do mais importante de todos os pactos, que é a Constituição. Esta Casa é a casa que guarda esse pacto. Por isso, é muito importante esse pacto na língua dos Kaiapó nesta Casa”, frisou, reiterando o simbolismo do ato.

Acessibilidade

O lançamento do texto traduzido é um marco para o Brasil no cumprimento da Agenda das Nações Unidas, segundo a presidente do STF, ministra Rosa Weber. Isso porque o período de 2022 a 2032 foi estabelecido pela Assembleia Geral da ONU como a Década Internacional das Línguas Indígenas do Mundo. Para ela, a tradução do documento garante o acesso do povo kaiapó à informação, aos seus direitos e à Justiça. “O objetivo dessa publicação é difundir a informação de maneira acessível aos povos indígenas e comunidades tradicionais, garantindo ferramentas pra que eles se apropriem da cidadania que historicamente lhes foi sonegada e a retomem”, afirmou.

A fala de Weber também foi endossada pela ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara. Ela citou a existência de 274 línguas, atualmente faladas no Brasil, e refletiu sobre a demora para que textos como a Convenção 169 e a própria Constituição Federal se tornem acessíveis aos indígenas do país em suas línguas maternas. “A tradução desse tipo de documento para as línguas originárias estimula e facilita o acesso dos povos a instrumentos que são indispensáveis para a concretização dos seus direitos”, defendeu.

Também participaram do evento o diretor do Escritório da OIT para o Brasil, Vinicius Carvalho Pinheiro; o advogado-geral da União, Jorge Messias; o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), ministro Lelio Bentes; o ativista pelos direitos indígenas e liderança kaiapó, cacique Raoni; a presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joênia Wapichana, além de lideranças e representantes de diversas comunidades indígenas.

Kaiapó

Considerado um dos grupos mais importantes da Amazônia, o povo indígena Mebêngôkre vive em aldeias localizadas ao longo dos rios Iriri, Bacjá, Fresco e outros afluentes do Rio Xingu, em um território quase tão extenso quanto a Áustria. Apesar de serem conhecidos pelo termo kaiapó, essa nomenclatura não é utilizada pelos integrantes da comunidade, que se referem a si mesmos como “os homens do buraco/lugar d’água”, ou mebêngôkre. O idioma falado pelos mais de 6 mil integrantes – população estimada ainda no início dos anos 2000 – pertence à família Jê, do tronco linguístico Macro-Jê, que abrange 38 línguas e variantes faladas apenas no território brasileiro.

Veja mais notícias em Geral

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.