10/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Protagonismo e luta de mulheres indígenas no Amazonas se destacam

Publicado em 09 de março, 2023

Protagonismo e luta de mulheres indígenas no Amazonas se destacam

Nascida e criada em uma aldeia mura, no município de Borba, Adriana veio para Manaus cursar faculdade de Administração.
Foto: Matheus Mota/FEI

No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, além de celebrar as conquistas femininas, as mulheres indígenas ressaltam a sua força no resgate de suas identidades. Voltada às políticas públicas indígenas, a Fundação Estadual do índio (FEI) conta com 20 colaboradoras de diversas etnias, além de representar todas as mulheres indígenas do Amazonas.

“Suas lutas são as mais diversas, por maiores e melhores terras, cidadania, emprego, respeito e igualdade”, pontua o diretor-presidente da FEI, Sinésio Trovão.

Colaboradora da instituição, nascida e criada na aldeia Kwatá, no município de Borba – distante 150 quilômetros de Manaus -, Adriana Cardoso Melo, da etnia munduruku, veio para Manaus, em 2019, para cursar Administração. A sua presença na faculdade foi motivo de surpresa aos colegas de sala.

“Ao chegar na faculdade, eu tive uma surpresa dos colegas de turma com a presença de uma mulher indígena no ensino superior, caminhando para um futuro de conhecimento na sociedade. Acredito neste reforço social ao ocupar esses espaços”, relata a assistente administrativa.

Morando com a irmã em Manaus, ela não consegue manter os costumes de falar seu idioma nativo, porém, na aldeia, ela fala habitualmente, principalmente, porque a sua mãe é professora da língua munduruku.

Adriana compartilha o sentimento de orgulho quando presencia o aumento de mulheres ocupando cargos como cacique ou tuxaua. Para ela, reforça o símbolo de resistência feminina.

Iracema Matutina Matsés, também conhecida como Iara, de 26 anos, da etnia maioruna matsés, da aldeia Terrinha Rio Vale do Javari, no alto Solimões, mesmo saindo de sua aldeia para vir a Manaus, Iara entende que não se pode perder a sua cultura de origem, ela ainda fala a sua língua.

“Geralmente, todos os dias eu falo (a língua matsés) com todos os meus familiares, a gente ensina para os mais novos, na minha aldeia, por ser muita isolada, não se perdeu muito dos costumes, por isso faço questão de passar adiante na cidade grande”, comenta a auxiliar de serviços gerais.

Ela expõe a visão indígena e ao ver a conquista da posição de cacicado na aldeia, é como se fosse um irmão mesmo sendo um homem ou mulher. Segundo ela, ser mulher indígena é ser guerreira.

Maria de Jesus dos Santos Corrêa, mais conhecida pelo seu nome de criação, Bia Kokama, 47, cacique da Associação Indígena Beneficente Cocama do Amazonas, natural de São Paulo de Olivença, não é primeira cacique mulher da etnia cocama, sua mãe Inaura iniciou este novo paradigma.

Seu avô teve um filho, mas que nasceu com uma deficiência mental e, por isso, ele passou o cacicado para a sua mãe: “Foram chamados todos os patriarcas da família e eles que deram o aval para o meu avô passar o cacicado para a minha mãe, por ser a filha mais velha”, relata a cacique.

Bia se tornou chefe de aldeia em 2010, na época, a sua comunidade acabou sendo despejada da antiga localização no Monte Horebe, zona Norte, porém, ela transferiu todos os seus parentes para sua atual residência no conjunto Cidadão 12, bairro Nova Cidade. Para ela, o trabalho de um cacique é muito difícil.

“O cacique tem que cuidar da sua família e da dos outros, ser um pouco mãe, ele precisa ser um pouco de agente de saúde, um pouco de delegado, porque o cacique precisa intervir em todas as coisas que ocorrem na comunidade para garantir o bem-estar de todos”, afirma. Ela acredita que ser mulher indígena é florescer.

Um outro exemplo de cacique é Ana Maria Ramos Ferreira, da etnia mura, 48, líder da aldeia Jaçanã, localizada no município de Itacoatiara – a 270 quilômetros da capital. Ela acredita que outras mulheres indígenas deveriam ter a oportunidade de serem caciques: “Eu fico muito feliz, é muito gratificante estar à frente, é cansativo, mas a gente está lá, em nome do nosso povo, a gente vai em busca da nossa melhoria, eu queria que outras mulheres tivessem essa oportunidade, essa coragem”, comenta.

Ana lamenta não poder passar a língua mura para sua aldeia, pois o único que sabia falar era o seu marido que, infelizmente, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e perdeu o domínio da fala.

No entanto, ela preza em ainda fazer as comidas de sua aldeia e repassar o ensino aos seus filhos. “O que eu tento fazer é resgatar a nossa cultura, hoje, você não faz mais panela de barro, não faz mais peneira, o pouco das minhas origens que eu tenho é fazer farinha, fazer beiju, plantar roça, cultivar verduras, sei fazer vários tipos de queijos”, salienta. Em sua visão, ser mulher indígena é ser forte.

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