14/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

ENTREVISTA EXCLUSIVA Bonifácio, o negro-caboclo, quase índio, que caçou onça e acumulou 22 filhos. Veja o vídeo

Publicado em 22 de janeiro, 2022

ENTREVISTA EXCLUSIVA Bonifácio

ENTREVISTA EXCLUSIVA Bonifácio (foto), maranhense que chegou à Amazônia no começo dos anos 1970, é pai de 22 filhos e viveu histórias incríveis

Uma caminhada de dezoito dias marcou a chegada do maranhense José Bonifácio Sales Corrêa, 80, à Amazônia. “Peguei a maranhão-Pará (MA-125)”, explica, com um detalhamento incrível dos caminhos, rios e vias, por onde passou. Trata-se de um personagem curioso, típico, que trafega entre o índio e o caboclo, o negro e o cafuzo. Tem 22 filhos, espalhados pelo mundo, cinco com a atual esposa, dona Valdila. Ele concedeu esta entrevista EXCLUSIVA ao Portal do Marcos Santos, às margens do preservado rio Jauaperi-RR.

Bonifácio vive há mais de 40 anos na rodovia BR-431, que ajudou a construir, depois de ter trabalhado anos na BR-174 (Manaus-Boa Vista). É um ramal de terra, muito bem terraplenado, que sai da BR-174, à altura da Vila Jundiá, também conhecida como “Vila Abonari”, e termina nas margens do rio Jauaperi-RR – uma das obras governamentais inexplicáveis, mas que serve muito aos poucos colonos que a habitam.

O colono foi levado de Santarém-PA, com outros peões, de helicóptero, diretamente na obra da BR-174. “Ficamos aí correndo na frente de índio e índio correndo atrás de nós” (risos), conta.

 

Onças

“Um couro de onça era mais caro que uma grama de ouro”, diz Bonifácio, sobre o período, na década de 1970, em que participou desse negócio. Ele matava gato maracajá e onça-pintada. Onças, é comum, são avistadas no rio Jauaperi.

Na entrevista que você verá, a seguir, Bonifácio não conta os detalhes do comércio, mas, fora da entrevista e falando com outros colonos, a reportagem descobriu que era arriscado e ilegal. “Eles (Bonifácio e outros) levavam os couros para comércio pelo meio da mata. Saiam de Roraima e atravessavam floresta e rios, a pé, saindo no rio Jatapu, em Itapiranga (AM)”, revela.

Bonifácio conta que eram cerca de 30 homens, caçando onças. “A gente se encontrava uma vez, a cada 15 dias, para conferir quantos tinham sido presos ou mortos”, diz.

Na caça à onça, ele ficou muitas vezes frente a frente com o animal. Os caçadores montavam “chiqueiros”, armadilhas com porcos, galinhas ou outros animais. A onça entrava e o alçapão fechava, prendendo-a. “De vez em quanto uma arrebentava o chiqueiro e vinha pra cima da gente. Uma das vezes, a arma falhou e não consegui atirar. Ela partiu em cima, saí correndo e consegui chegar a um rio. Mergulhei e fiquei mergulhado. Ela entrou na água, mas foi para o lado contrário ao que eu fui e eu me salvei”, explica.

O curioso é que um dos momentos mais perigosos foi quando estava caçando, nos primeiros tempos de moradia no local atual. “Estava olhando para as árvores, seguindo um pássaro. Quando baixei o olhar vi a onça, a poucos passos, preparando pra pular em cima de mim. Baixei a espingarda e atirei, sem nem pensar. Meus filhos, que ainda moravam comigo, não acreditaram quando eu disse que fossem ao igarapé que lá havia uma onça que eu tinha matado”, revela.

São muitas histórias. Tempo em que, apesar de a legislação ambiental existir, a fiscalização não era tão rígida. Hoje, Bonifácio vive de pesca e caça de subsistência. E reclama da falta de incentivo do Governo de Roraima para a agricultura, com restrições impostas na barreira entre aquele Estado e o Amazonas, a caminho de Manaus, o grande mercado consumidor da região.

O local onde Bonifácio mora fica a 350 quilômetros de Manaus-AM e mais de 500 quilômetros de Boa Vista-RR. Ele concedeu a entrevista, que você vê na íntegra, a seguir, às margens do rio Jauaperi-RR:

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