25/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Como imunizantes contra coronavírus podem alavancar vacinas que combatem câncer

Publicado em 04 de janeiro, 2022

Como imunizantes contra coronavírus podem alavancar vacinas que combatem câncer

Em meados de novembro, representantes de duas das principais fabricantes de vacinas contra a covid-19, a BioNTech e a Moderna, se reuniram em um congresso nos Estados Unidos para discutir a “volta ao câncer” no desenvolvimento de vacinas de RNA.

O título do evento, “Vacinas de RNA: da covid de volta ao câncer”, explicita o desvio inesperado na trajetória dessas jovens empresas de biotecnologia, fundadas há cerca de uma década: elas foram criadas tendo como um dos principais objetivos o desenvolvimento de terapias de RNA contra o câncer, mas com a pandemia de coronavírus, acabaram usando a tecnologia para criar imunizantes contra a covid-19 em tempo recorde.

A vacina da BioNTech, em parceria com a Pfizer, foi a primeira a ser aprovada para uso emergencial contra a covid-19 nos Estados Unidos, em dezembro de 2020; poucos dias depois naquele mês, foi dado o aval para o imunizante da Moderna, que também usa a tecnologia de RNA. Das duas, apenas a vacina da Pfizer/BioNTech é aplicada no Brasil.

Mas essas vacinas não conquistaram apenas a marca de serem as primeiras aprovadas para covid-19 nos EUA. Na verdade, elas foram as primeiras de tecnologia RNA na história a serem permitidas para uso em humanos e comercialização — considerando não apenas a covid, mas todas as doenças.

“Construímos uma tecnologia que nos permitiu trazer uma vacina dentro de algumas semanas, e quando a pandemia estourou, percebemos que essa tecnologia também poderia usada para trazer uma potente vacina contra a covid, no menor tempo possível” relatou o diretor executivo da BioNTech, U?ur ?ahin, no congresso anual da Sociedade para Imunoterapia de Câncer dos EUA (SITC).

“O processo para fazer uma vacina de mRNA personalizada contra câncer, versus o processo de fazer uma vacina de mRNA contra o SARS-CoV-2, é exatamente o mesmo. Isso significa que a tecnologia desenvolvida para tratar de um único paciente é a mesma adaptada para vacinas contra a covid-19 para grandes populações.”

Depois da corrida inesperada provocada pela covid-19, especialistas na tecnologia de RNA avaliam que as conquistas científicas durante a pandemia poderão impulsionar também tratamentos contra o câncer através de vacinas.

Vacina contra o câncer — como assim?

Imunizantes como da BioNTech e da Moderna, baseados em RNA, são um tipo de vacina gênica. Esta categoria é mais moderna do que vacinas tradicionais com vírus inativado, que vêm sendo usadas há décadas para proteger contra contra hepatite A, poliomielite — e também teve uma contra a própria covid-19, como a CoronaVac.

Ao falar de genética, que é a área das vacinas gênicas, surgem letrinhas que são bastante conhecidas: o DNA e o RNA. O DNA é composto por uma fita dupla de códigos, formando uma hélice; e o RNA, por uma fita simples que levará à produção de proteínas a partir do código genético do DNA.

Uma boa analogia apresentada pelo repórter Tim Smedley em uma matéria recente da BBC Future é: se o DNA fosse um cartão de banco, o RNA seria como o leitor desse cartão.

Há vacinas de DNA em estudo, mas vamos falar aqui das de RNA, que estão unindo tecnologias que podem servir da covid-19 ao câncer.

Enquanto vacinas tradicionais entregam ao corpo um pedacinho inofensivo do vírus, incapaz de provocar doença ou deixar o patógeno se reproduzir, as de RNA consistem em um código genético criado em laboratório que levará à produção de proteínas simulando as do vírus, provocando então uma resposta do sistema de defesa. Por transmitir essas instruções, o nome completo dessa tecnologia é RNA mensageiro (mRNA).

As vacinas de RNA contra a covid-19 orientam as células humanas a produzirem cópias da proteína spike encontrada na superfície do coronavírus. Essa produção é incapaz de provocar uma infecção de verdade.

Como disse o próprio diretor da BioNTech, U?ur ?ahin, no congresso da SITC, as etapas de produção de uma vacina de RNA contra a covid-19 são bem parecidas com aquelas contra o câncer.

A BioNTech e Moderna usaram tecnologias que vinham desenvolvendo contra o câncer para produzir vacinas de RNA contra a covid-19
A BioNTech e a Moderna têm trabalhado com a proposta das vacinas personalizadas contra o câncer.

Nelas, em vez de cientistas coletarem o material genético de um vírus, eles extraem amostras do sangue, tecidos ou mesmo do tumor de um paciente; identificam mutações e outras informações genéticas; e em seguida produzem proteínas simulando a composição de células malignas. O objetivo, novamente, é levar a uma resposta imune do corpo.

Mas diferente das vacinas contra a covid-19, destinadas a milhões de pessoas ao redor do mundo como estratégia de prevenção, os tratamentos personalizados propostos contra o câncer serviriam para pessoas já diagnosticadas com a doença — e seriam no geral customizados individualmente, com a análise do DNA de cada paciente e identificação de mutações e outras características das células cancerosas.

Sediada na Alemanha, a BioNTech tem atualmente dois produtos na fase 2 de ensaios clínicos (testes com humanos, que costumam ter três fases) que consistem em vacinas para câncer: iNeST e FixVac.

A iNeST tem uma proposta altamente individualizada e linhas em estudo na fase 2 contra um tipo de câncer de pele melanoma e o câncer colorretal, em parceria com a empresa Genentech. Já a vacina FixVac serviria para grupos de pacientes com tipos parecidos de câncer e tem na fase 2 suas linhas para tratamento de melanoma avançado e cânceres de cabeça e pescoço induzidos pelo vírus HPV (papilomavírus humano).

A Moderna não tem as letras “rna” no seu nome por acaso — a empresa fundada nos EUA tem esta tecnologia como foco, e tratamentos experimentais contra o câncer são um dos investimentos da empresa. Atualmente, ela tem a Vacina Personalizada contra Câncer (PCV, ou mRNA-4157) na fase 2 de ensaios clínicos, e a vacina KRAS na fase 1. Ambas têm participação da farmacêutica Merck.

A PCV propõe-se a tratar vários tipos de câncer, mas a fase 2 dos ensaios clínicos está trabalhando especificamente com pacientes com melanoma. Já a vacina KRAS mira cânceres que têm mutações frequentes no gene KRAS, sobretudo os de pâncreas, pulmão e colorretal.

Também no congresso da SITC, o diretor clínico da Moderna, Robert Meehan, afirmou que os testes com a vacina personalizada mRNA-4157 acabaram ajudando para que a empresa pudesse rapidamente desenvolver sua vacina contra a covid-19 (mRNA-1273).

“A mRNA-4157 ajudou a preparar o terreno — com prazo de 6 a 8 semanas desde a coleta de amostras do tumor ou do sangue até a entrega das vacinas para pacientes com câncer — para a entrega do primeiro lote de mRNA-1273 ocorrer em 25 dias, do sequenciamento ao término da produção”, comemorou Meehan.

“A mRNA-1273 foi (resultado de) um acúmulo de 10 anos de pesquisas básicas e clínicas na Moderna.”

A empresa americana está testando também vacinas de RNA contra os vírus da gripe, HIV e zika, além de doenças autoimunes e outras condições de saúde. A BioNTech também está na fase de estudos pré-clínicos (ainda sem humanos) com vacinas de RNA contra o HIV, tuberculose e malária, entre outros.

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