30/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Rabdomiólise: excesso de ivermectina, peixe, exagero de exercícios físicos ou até overdose

Publicado em 30 de agosto, 2021

Rabdomiólise

Rabdomiólise tem surto atual no Amazonas, que só ficará claro após estudos que devem ser encomendados, como é lógico, pela FVS-AM

A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) informou, nesta segunda (30/08), o total de 44 casos de rabdomiólise no Estado. Trata-se de uma síndrome rara, responsável pela destruição do músculo esquelético e vazamento do conteúdo muscular, que provoca a urina escura. Pode levar à morte. A primeira suspeita dos médicos é de consumo de peixe, mas estudos científicos mostram centenas de possibilidades, inclusive o consumo de drogas como cocaína e ecstasy. Ou, como advertido por especialistas em julho de 2020, uso excessivo de ivermectina, um dos medicamentos da moda na pandemia de Covid-19.

O Amazonas tem, ao todo, 44 casos de rabdomiólise, 11 deles notificados nesta segunda (30/08). São 34 em Itacoatiara, incluindo uma morte, quatro em Silves, dois em Manaus, dois em Parintins e um em Autazes. Os casos de Silves e Parintins foram notificados nesta segunda.

“Se o peixe for a causa desse surto por que temos tão poucos casos, se quase todos no Amazonas consomem peixe diariamente?”, indaga Rogério Souza de Jesus, doutor em Ciências dos Alimentos pela USP-SP e pesquisador do Inpa. “Além do mais, o peixe mais consumido no Estado é o tambaqui de cativeiro, alimentado com ração balanceada, segura, feita com a mesma qualidade da criação de frangos, suínos etc. A toxina que contamina peixes vem da natureza”, explica.

Rogério adverte que não é possível identificar se peixes estão ou não contaminados. “Só com um exame específico, que, no Brasil, só é feito no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. A toxina não causa danos ao peixe, mas mata humanos. É como a botulínica, que mata em 24 horas. A Doença de Raff é rara”, acrescenta.

 

Estudos

A Wikipedia, maior enciclopédia do planeta, disponível online, relata inúmeras possíveis causas da rabdomiólise. Entre elas estão o consumo de drogas. Entre 157 casos estudados, no entanto, as razões da doença foram trauma (38%), isquemia (14%), polimiosite (8%), overdose (7%) exercício (6%), convulsões (5%), queimaduras (5%), sepsis (3%), doenças hereditárias (3%) e viroses (1%).

Os médicos Oswaldo Tolesani Júnior, Christian Nejm Roderjan, Edgard do Carmo Neto, Micheli Mikaeli Ponte, Mariana Cristina Pelli Seabra e Marcos Freitas Knibel publicaram, em 20 de setembro de 2013, o acompanhamento de um caso de rabdomiólise. Eles são do hospital São Lucas Copacabana, do Rio de Janeiro (RJ). O paciente evoluiu bem e teve alta em oito dias. Clique aqui para ler, por se tratar de um dos raros casos com amplo registro médico-científico.

 

Ivermectina

O uso excessivo de ivermectina, como causa provável da “doença da urina preta”, é parte de advertência feita por especialistas da Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar). A eles se juntaram os da Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas (ABCF), composta por pesquisadores do País inteiro. O detalhe é que a manifestação ocorreu em julho do ano passado, quando não havia ocorrido nenhum caso novo da doença.

Os especialistas advertiram que os efeitos podiam ser ainda mais danosos, no caso de associação com cloroquina e hidroxicloroquina. Todos esses medicamentos tornaram-se parte das ondas que se seguiram à pandemia de coronavírus, como tratamento precoce contra a Covid-19.

A ivermectina, originalmente, é usada contra piolhos. Um teste in vitro, feito na Universidade Monash, na Austrália, mostrou eficiência contra o coronavírus. Mas há inúmeros relatos científicos de medicamentos que funcionaram no laboratório, mas não mostraram a mesma eficiência in vivo (em humanos). É o que advertiu, na ocasião, a Sociedade Brasileira de Infectologia.

Aguarda-se os estudos que devem ser encomendados pela FVS-AM, para saber as causas do atual surto de rabdomiólise no Estado. Só um trabalho desse vulto tirará as dúvidas.

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