13/SET 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Venda de antidepressivos cresce na pandemia e liga alerta para sofrimento mental

Publicado em 30 de julho, 2021

Venda de antidepressivos cresce na pandemia e liga alerta para sofrimento mental

A piora da saúde mental do brasileiro durante a pandemia de Covid-19 já é sentida no balcão das farmácias: nos cinco primeiros meses do ano, houve aumento de 13% da venda de antidepressivos e estabilizadores de humor.

Na prática, foram quase 4,782 milhões de unidades (cápsulas e comprimidos) vendidas a mais neste ano em relação a igual período de 2020, segundo levantamento inédito do Conselho Federal de Farmácia (CFF), a partir de dados da consultoria IQVIA.

O comércio dos medicamentos já tinha aumentado 17% em 2020 em comparação com 2019 –nos anos anteriores, a alta tinha sido de 12% (2019) e 9% (2018).

Um outro relatório da mesma consultoria com o Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos) aponta um aumento de receita de 18,73% nas vendas dos também chamados medicamentos para o sistema nervoso central no primeiro semestre deste ano em relação ao de 2020.

Venda

Embora várias pesquisas indiquem aumento de doenças mentais na pandemia, não há evidências robustas sobre isso. Estudos epidemiológicos apontam que, no início da crise sanitária, houve ligeira subida, mas depois os números se mantiveram estáveis até o fim de 2020.

Para o psiquiatra Rodrigo Martins Leite, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, é fato que as pessoas estão com níveis mais elevados de sofrimento mental. E, embora isso não se traduza automaticamente em doença psiquiátrica, elas querem uma alternativa para aliviar esses sintomas.

“Há muito diagnóstico falso-positivo. A pessoa chega com um certo número de queixas e o médico já interpreta como um transtorno e introduz um fármaco. A gente [médico] também sofre uma pressão social para medicar. O cliente já vem procurando o remédio, e não orientação sobre estilo de vida, meditação, psicoterapia.”

No entanto, ele lembra que esse é um retrato que espelha a realidade de parte da população, que tem acesso a um médico e condições de comprar medicamentos.

“Estudos americanos apontam que os brancos têm mais acesso a prescrições do que as populações latinas, negras. O mesmo acontece aqui: a classe média alta tendo acesso a essas prescrições e muitas pessoas do andar debaixo, mesmo precisando muito, sem acesso a elas.”

Prescrição

A venda de psicotrópicos no país é feita com apresentação de prescrição médica, retenção da primeira via da receita e lançamento no SNGPC (Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados).

Para o farmacêutico Wellington Barros, consultor do CFF e professor da Universidade Federal de Sergipe, a pandemia tem gerado muito sofrimento psíquico por fatores como o luto pela perda de familiares, o isolamento social e as sequelas pós-Covid, a chamada Covid longa.

Um estudo do Hospital das Clínicas que acompanha um grupo de pacientes que estiveram internados por Covid-19 mostra que, nos seis primeiros meses de acompanhamento, 58,7% relatavam pelo menos um sintoma emocional ou cognitivo, como perda de memória (42%), insônia (33%), ansiedade (31%) e depressão (22%).

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