12/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Tenório Teles homenageia Zezinho Corrêa e o vê partindo com as araras

Publicado em 06 de fevereiro, 2021

Tenório Teles homenageia Zezinho

Tenório Teles homenageia Zezinho (foto) com belo poema, ao amanhecer com araras que parecem ter vindo anunciar a partida do amigo

Zezinho Corrêa, 69, que partiu às 7h30 da manhã deste sábado (06/02), vítima de Covid-19, transmitia luz e cor. O historiador, escritor e poeta Tenório Teles, membro da Academia Amazonense de Letras, escreveu “O tic-tic-tac das araras”em homenagem ao amigo. “Elas (araras) nunca tinham aparecido antes/ logo depois soube que partiste”, escreveu Tenório. Araras são pássaros fiéis, que voam aos pares e protagonizam momentos apaixonados. E quando voa sozinha é sinal de parceiro abatido, em alguma armadilha humana da vida.

O poeta viu no colorido das araras e no canto delas a figura do cantor. “… pensei que as araras estavam/ cantando e colorindo a manhã/ para te celebrar – como antigamente/ se celebravam os artistas, os poetas e os heróis./ Também pensei que aquelas araras podiam estar levando teu Ser/ [esse grão de eternidade/ com que nascemos]/ para o paraíso dos bons dos que encantam a vida e a ajudam a ser melhor”.

Tenório, que também chegou a ser internado com Covid-19, lamentou o clima na Manaus da pandemia: “Nossa cidade vive enlutada/ com tantas partidas,/ com a dor de pais, mães, filhos/ – tantas amizades e amores quebrados…/: Manaus se tornou uma cidade sitiada pela dor, os cemitérios não param de crescer…”.

O escritor-poeta se despede do intérprete, ator e dançarino pelas araras: “Zé,/ que as araras te acompanhem/ e chegues bem ao lugar onde/ os bons descansam da lida do mundo – e o grão do teu ser/ floresça belo e luminoso/ e de lá sigas cantando/ e encantando nossas vidas”.

 

A íntegra do poema:

O tic-tic-tac das araras

Tenório Telles

 

Querido Zezinho,

Hoje de manhã acordei com a cantoria

de um casal de araras:

Ao abrir a janela – encenavam

seu canto desajeitado e belo.

Estavam num açaizeiro

comendo os frutos: tic-tic-tac…

Notei que o dia aos poucos

ia se colorindo de azul, vermelho e amarelo.

Achei tudo surpreendente:

Elas nunca tinham aparecido antes.

Logo depois soube que partiste.

Como acredito no invisível

e no mistério das coisas,

pensei que as araras estavam

cantando e colorindo a manhã

para te celebrar – como antigamente

se celebravam os artistas, os poetas e os heróis.

Também pensei que aquelas araras podiam estar levando teu Ser

[esse grão de eternidade

com que nascemos]

para o paraíso dos bons dos que encantam a vida e a ajudam a ser melhor.

Com teu canto, Zé, levaste pra tantos lugares

pra terras distantes

o nosso chão e a nossa gente.

E agora – Zé – as araras se foram: Só vieram te saudar…

 

 

Com o choro preso na garganta, não consigo entender por que essas coisas acontecem.

Nossa cidade vive enlutada

com tantas partidas,

com a dor de pais, mães, filhos

– tantas amizades e amores quebrados…

: Manaus se tornou uma cidade sitiada pela dor, os cemitérios não param de crescer…

E agora – Zé – essa nuvem de suplício te levou também de nós:

mais que a dor da perda,

daqui pra frente – a dor maior

será viver sem o teu canto,

sem a tua alegria

e sem a bondade dos teus gestos.

Zé,

que as araras te acompanhem

e chegues bem ao lugar onde

os bons descansam da lida do mundo – e o grão do teu ser

floresça belo e luminoso

e de lá sigas cantando

e encantando nossas vidas.

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