
Tenório Teles homenageia Zezinho (foto) com belo poema, ao amanhecer com araras que parecem ter vindo anunciar a partida do amigo
Zezinho Corrêa, 69, que partiu às 7h30 da manhã deste sábado (06/02), vítima de Covid-19, transmitia luz e cor. O historiador, escritor e poeta Tenório Teles, membro da Academia Amazonense de Letras, escreveu “O tic-tic-tac das araras”em homenagem ao amigo. “Elas (araras) nunca tinham aparecido antes/ logo depois soube que partiste”, escreveu Tenório. Araras são pássaros fiéis, que voam aos pares e protagonizam momentos apaixonados. E quando voa sozinha é sinal de parceiro abatido, em alguma armadilha humana da vida.
O poeta viu no colorido das araras e no canto delas a figura do cantor. “… pensei que as araras estavam/ cantando e colorindo a manhã/ para te celebrar – como antigamente/ se celebravam os artistas, os poetas e os heróis./ Também pensei que aquelas araras podiam estar levando teu Ser/ [esse grão de eternidade/ com que nascemos]/ para o paraíso dos bons dos que encantam a vida e a ajudam a ser melhor”.
Tenório, que também chegou a ser internado com Covid-19, lamentou o clima na Manaus da pandemia: “Nossa cidade vive enlutada/ com tantas partidas,/ com a dor de pais, mães, filhos/ – tantas amizades e amores quebrados…/: Manaus se tornou uma cidade sitiada pela dor, os cemitérios não param de crescer…”.
O escritor-poeta se despede do intérprete, ator e dançarino pelas araras: “Zé,/ que as araras te acompanhem/ e chegues bem ao lugar onde/ os bons descansam da lida do mundo – e o grão do teu ser/ floresça belo e luminoso/ e de lá sigas cantando/ e encantando nossas vidas”.
A íntegra do poema:
Tenório Telles
Querido Zezinho,
Hoje de manhã acordei com a cantoria
de um casal de araras:
Ao abrir a janela – encenavam
seu canto desajeitado e belo.
Estavam num açaizeiro
comendo os frutos: tic-tic-tac…
Notei que o dia aos poucos
ia se colorindo de azul, vermelho e amarelo.
Achei tudo surpreendente:
Elas nunca tinham aparecido antes.
Logo depois soube que partiste.
Como acredito no invisível
e no mistério das coisas,
pensei que as araras estavam
cantando e colorindo a manhã
para te celebrar – como antigamente
se celebravam os artistas, os poetas e os heróis.
Também pensei que aquelas araras podiam estar levando teu Ser
[esse grão de eternidade
com que nascemos]
para o paraíso dos bons dos que encantam a vida e a ajudam a ser melhor.
Com teu canto, Zé, levaste pra tantos lugares
pra terras distantes
o nosso chão e a nossa gente.
E agora – Zé – as araras se foram: Só vieram te saudar…
Com o choro preso na garganta, não consigo entender por que essas coisas acontecem.
Nossa cidade vive enlutada
com tantas partidas,
com a dor de pais, mães, filhos
– tantas amizades e amores quebrados…
: Manaus se tornou uma cidade sitiada pela dor, os cemitérios não param de crescer…
E agora – Zé – essa nuvem de suplício te levou também de nós:
mais que a dor da perda,
daqui pra frente – a dor maior
será viver sem o teu canto,
sem a tua alegria
e sem a bondade dos teus gestos.
Zé,
que as araras te acompanhem
e chegues bem ao lugar onde
os bons descansam da lida do mundo – e o grão do teu ser
floresça belo e luminoso
e de lá sigas cantando
e encantando nossas vidas.