03/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Médicos falam da nova cepa do coronavírus, direto da linha de frente da pandemia

Publicado em 18 de janeiro, 2021

Médicos falam da nova cepa

Médicos falam da nova cepa que atingiu o Amazonas e se dizem surpresos. E comemoram cada vitória. A médica Edinete Dorner, na cabeceira do cantor Leonardo Castelo, que escapou da pandemia após sofrer traqueostomia, levanta os polegares

O Amazonas vive uma crise de oxigênio que prende a atenção da maioria. Os profissionais de saúde, porém, estão às voltas com esse problema e um inimigo cada vez mais assustador: o novo coronavírus que sofreu mutação identificada pelos pesquisadores da Fiocruz Amazônia. Os médicos, lidando com a Covid-19 no dia a dia, não têm mais dúvidas dela.

O paciente está bem, saturando normal e, de repente, fica grave. O tempo da doença, que estava bem mapeado pelos médicos, mudou completamente. A faixa etária dos doentes, que estava acima dos 60 anos, agora atinge até crianças. É o depoimento de dois médicos que estão trabalhando na linha de frente do combate à pandemia. Eles são Edinete Dorner Vital de Brito, que dirige as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) do Grupo Samel. E Júlio César Furtado Queiróz, que está nas UTIs do hospital Delphina Aziz.

Júlio César só tem dúvida quanto à virulência. “Pode ser que a cepa seja mais contagiosa (transmita mais fácil), mas fica difícil de comprovar por causa das aglomerações que aconteceram. Era reunião de família, tudo bem, mas iam 15 pessoas e se contaminavam oito, dez… Aí a gente fica em dúvida se foi pela cepa nova ou por falta de atendimento às orientações de reclusão social”, enfatiza.

Edinete é enfática quanto às mudanças de parâmetros que haviam sido identificados pelos médicos e eram fundamentais no tratamento da Covid-19. O tempo das diversas fases é a mudança mais clara. “Com cinco dias apareciam os sintomas. De cinco a dez dias era o pico do processo inflamatório e podia subir um pouco, até o 15º dia. Depois tinha resolução. Agora não. Agora a gente perdeu essa base”, explica.

Outro detalhe, explica a médica, é que os pacientes estão chegando mais graves, com grau de comprometimento muito maior. “Tenho pacientes no 15º a 20º dia, ainda com a doença ativa. Já chegam dessaturando, respondendo pouco à VNI (Ventilação Não-Invasiva). Antes respondiam bem mais”, disse. “O paciente, antes, respondia mais tempo à VNI, ao oxigênio, e agora a resposta está muito mais lenta”, concorda Júlio César.

Médicos falam da nova cepa

Júlio César, do Delphina, surpreso com a nova cepa

Agravamento muito rápido

Os dois médicos trabalham em ambientes distintos. O Delphina Aziz é o hospital público de referência para a pandemia do Governo do Amazonas. A Samel é hospital privado. Ambos concordam, no entanto, que o coronavírus tem surpreendido pela rapidez com que as vítimas agravam.

“A evolução é assustadora”, diz Júlio . “É muito rápido. Bem mais que antes”, concorda Edinete.

Surpresa também quanto ao percentual de saturação do oxigênio, aquele que é medido pelo oxímetro, que deve ficar acima de 95%. “O Paciente está bem, saturando normal e de repente fica grave”, conta Júlio.

Outra evolução que está deixando os médicos surpresos é a de comprometimento do pulmão. “Paciente em um dia está com 20% do pulmão comprometido e, em 24 horas, faz uma nova tomografia, por conta da piora clínica, e está com 75% a 80%. É muito difícil a gente internar um paciente com 50% de comprometimento do pulmão. A maioria é de 70% para cima”, diz Edinete.

 

Agressividade

A Covid-19 que está sendo tratada nos hospitais do Amazonas está mais agressiva e o vírus se associa a bactérias. “Está agressiva e com processo bacteriano associado, que a gente está tendo que combater com antibiótico de amplo espectro. Antes, com antibióticos mais simples, a gente combatia. Agora tem que usar antibióticos bem mais potentes, para poder combater”, diz Edinete.

 

Faixa etária

“Antes, os maiores afetados eram pacientes de faixa etária maior, os idosos. Agora, a faixa etária diminuiu bastante e tem criança dando entrada em hospital em estado grave, conforme me relatam colegas. Isso não havia em abril, maio, junho. O aumento do número de internação é significativa e explica a necessidade de uso mais prolongado de oxigênio”, diz Júlio.

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