
Médicos falam da nova cepa que atingiu o Amazonas e se dizem surpresos. E comemoram cada vitória. A médica Edinete Dorner, na cabeceira do cantor Leonardo Castelo, que escapou da pandemia após sofrer traqueostomia, levanta os polegares
O Amazonas vive uma crise de oxigênio que prende a atenção da maioria. Os profissionais de saúde, porém, estão às voltas com esse problema e um inimigo cada vez mais assustador: o novo coronavírus que sofreu mutação identificada pelos pesquisadores da Fiocruz Amazônia. Os médicos, lidando com a Covid-19 no dia a dia, não têm mais dúvidas dela.
O paciente está bem, saturando normal e, de repente, fica grave. O tempo da doença, que estava bem mapeado pelos médicos, mudou completamente. A faixa etária dos doentes, que estava acima dos 60 anos, agora atinge até crianças. É o depoimento de dois médicos que estão trabalhando na linha de frente do combate à pandemia. Eles são Edinete Dorner Vital de Brito, que dirige as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) do Grupo Samel. E Júlio César Furtado Queiróz, que está nas UTIs do hospital Delphina Aziz.
Júlio César só tem dúvida quanto à virulência. “Pode ser que a cepa seja mais contagiosa (transmita mais fácil), mas fica difícil de comprovar por causa das aglomerações que aconteceram. Era reunião de família, tudo bem, mas iam 15 pessoas e se contaminavam oito, dez… Aí a gente fica em dúvida se foi pela cepa nova ou por falta de atendimento às orientações de reclusão social”, enfatiza.
Edinete é enfática quanto às mudanças de parâmetros que haviam sido identificados pelos médicos e eram fundamentais no tratamento da Covid-19. O tempo das diversas fases é a mudança mais clara. “Com cinco dias apareciam os sintomas. De cinco a dez dias era o pico do processo inflamatório e podia subir um pouco, até o 15º dia. Depois tinha resolução. Agora não. Agora a gente perdeu essa base”, explica.
Outro detalhe, explica a médica, é que os pacientes estão chegando mais graves, com grau de comprometimento muito maior. “Tenho pacientes no 15º a 20º dia, ainda com a doença ativa. Já chegam dessaturando, respondendo pouco à VNI (Ventilação Não-Invasiva). Antes respondiam bem mais”, disse. “O paciente, antes, respondia mais tempo à VNI, ao oxigênio, e agora a resposta está muito mais lenta”, concorda Júlio César.

Júlio César, do Delphina, surpreso com a nova cepa
Os dois médicos trabalham em ambientes distintos. O Delphina Aziz é o hospital público de referência para a pandemia do Governo do Amazonas. A Samel é hospital privado. Ambos concordam, no entanto, que o coronavírus tem surpreendido pela rapidez com que as vítimas agravam.
“A evolução é assustadora”, diz Júlio . “É muito rápido. Bem mais que antes”, concorda Edinete.
Surpresa também quanto ao percentual de saturação do oxigênio, aquele que é medido pelo oxímetro, que deve ficar acima de 95%. “O Paciente está bem, saturando normal e de repente fica grave”, conta Júlio.
Outra evolução que está deixando os médicos surpresos é a de comprometimento do pulmão. “Paciente em um dia está com 20% do pulmão comprometido e, em 24 horas, faz uma nova tomografia, por conta da piora clínica, e está com 75% a 80%. É muito difícil a gente internar um paciente com 50% de comprometimento do pulmão. A maioria é de 70% para cima”, diz Edinete.
A Covid-19 que está sendo tratada nos hospitais do Amazonas está mais agressiva e o vírus se associa a bactérias. “Está agressiva e com processo bacteriano associado, que a gente está tendo que combater com antibiótico de amplo espectro. Antes, com antibióticos mais simples, a gente combatia. Agora tem que usar antibióticos bem mais potentes, para poder combater”, diz Edinete.
“Antes, os maiores afetados eram pacientes de faixa etária maior, os idosos. Agora, a faixa etária diminuiu bastante e tem criança dando entrada em hospital em estado grave, conforme me relatam colegas. Isso não havia em abril, maio, junho. O aumento do número de internação é significativa e explica a necessidade de uso mais prolongado de oxigênio”, diz Júlio.
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