18/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Armas e vacinas

Publicado em 11 de dezembro, 2020

Por Felix Valois

As notícias disputam espaço privilegiado na grande imprensa. Uma informa que, em um dia, mais de oitocentas pessoas morreram vitimadas pela doença da pandemia; outra, em tom apoteótico, revela que o governo federal zerou o imposto de importação sobre o comércio de revólveres, pistolas e suas respectivas munições. Ampliando a visão, é possível compreender que ambas as notícias se entrelacem. Afinal de contas, as duas falam de morte.

O vírus continua em sua caminhada ascendente na destruição de vidas, enquanto o ministro da Saúde não move uma palha para estabelecer um plano viável de distribuição e aplicação da vacina que, parece, vai estar disponível a curto prazo. É uma contribuição omissiva para a morte. Também contribui para facilitar o trabalho da Magra o especial interesse do presidente da República em armar o maior número possível de cidadãos, ao argumento de que está apenas incentivando um hipotético direito de defesa.

Quanto ao primeiro assunto, a displicência oficial é, no mínimo, vergonhosa. Não é só o país, é o mundo que clama pela chegada do remédio, de tal forma que os responsáveis pelos destinos dos povos têm o dever de proporcionar meios de atendimento a esse clamor popular. No que diz respeito à segunda questão, só tenho a dizer que facilitar, por qualquer meio, o acesso generalizado a armas de fogo vai contribuir apenas para o aumento da violência, redundando em mais homicídios e suicídios, agravando um quadro já de si caótico.

Vez por outra vem à baila a questão de liberar o porte de armas de fogo para os advogados. Os colegas que sustentam essa bandeira, fazem-no, em parte, com base no argumento de que juízes e promotores desfrutam de tal “privilégio”, sendo lógico, pois, que aos advogados seja ele também deferido. Nunca fui convencido por essa retórica. A respeito do assunto, já escrevi assim: “Para que um advogado há de querer andar armado? Na parte que me toca, não canso de repetir aos meus alunos que a única arma de que dispomos é a palavra. Escrita ou verbal, é com ela, e só com ela, que havemos de enfrentar as lides e combater as iniquidades. Quando o advogado, no Tribunal do Júri, usando o tempo de que dispõe, promove a defesa de seu cliente e lhe consegue a absolvição, foi só a arma letal da palavra que forjou a convicção da maioria dos cidadãos jurados”. E acrescentava: “Há perigos no exercício profissional? Há e muitos. Nada, porém, que permita imaginar seja necessário recorrer a armas de fogo como forma de solução de pendências.  “No seu ministério privado, – diz o nosso Estatuto – o advogado presta serviço público e exerce função social”. Vamos prestá-lo e exercê-la do alto de nossa dignidade e, já que somos indispensáveis à administração da justiça, não temamos os arreganhos dos façanhudos que, com beca ou sem ela, quiserem opor obstáculos ao desenvolvimento do nosso múnus”.

Não me sinto tentado a mudar de opinião. Quando nada porque o Brasil vive uma fase em que se o Presidente se manifesta num sentido é melhor e mais sensato optar pelo sentido contrário. Há noventa e nove vírgula nove por cento chance de ser o rumo certo. Com efeito, Jair Bolsonaro não encarna a figura de um líder que inspire respeito e transmita segurança aos que o seguem. Suas fixações freudianas lhe tiram qualquer resquício de respeitabilidade que o exercício do cargo lhe pudesse conferir.

Agora mesmo, nesta semana, fez piada televisiva sobre o uso de ozônio para combater a covid. Não foi nem sobre a eventual eficácia de tal tratamento, mas apenas porque, pelo menos pelo que eu pude entender, o ozônio seria aplicado por via retal. Não há de ser agradável, é certo, assim como não o é o tratamento preventivo da próstata. Mas eu nunca tive notícia de que algum homem se tenha despido de sua masculinidade por se ter submetido a um toque retal. Manifestando tanta ojeriza por essa prática científica, Jair Bolsonaro apenas revela um medo patológico de que ela venha a afastá-lo do caminho de macheza que ele tanto alardeia e preza.

Reconheço que a vacina vai ser melhor que o ozônio. Por isso, faço coro com a maioria dos meus compatriotas: vacinação já, sem mais papagaiadas ou palhaçadas do Ministério da Saúde.

P.S. – Rendo minhas mais profundas homenagens à memória e ao talento de Severiano Mário Porto, o arquiteto que deixou em Manaus a marca de sua genialidade.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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