
Quem não pegou Covid-19 não é imune, mas apenas pode ter recebido uma carga viral menor ou ter imunidade maior naquele momento, diz Rossi Pinheiro (foto)
A médica e pesquisadora Rossi Pinheiro afirma que imunidade e carga viral explicam como alguns pegam e outros não a Covid-19. “Tem casos relatados, inclusive em Manaus, que o marido teve, em março e abril, e a esposa não pegou. Aí acha que não vai pegar. Na minha casa todos os empregados tiveram, genro teve e marido teve. Estou imune? Não. Não posso relaxar”, explica.
Rossi é participante de grupos de estudos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), onde é professora do curso de Medicina. E acompanha, todos os dias, os cerca de 100 novos estudos internacionais, diários, sobre o coronavírus e a Covid-19.
A pesquisadora lembra que é “tudo muito novo”. “É uma doença que tem de seis a sete meses. Os exames, para detecção, eram de outros coronavírus. De cada dez exames em pessoas contaminadas, só três dava positivo. Agora é que estão surgindo os testes específicos”. A Ufam está testando o Elisa, um teste de radioimunoensaio, mais sensível ao vírus.
Veja, a seguir, a entrevista, exclusiva, da médica e pesquisadora Rossi Pinheiro:
Rossi Pinheiro – Participo de linha de pesquisa na transmissão perinatal, em pacientes gestantes, nas maternidades públicas. E o quadro em crianças, controlando as que são internadas, nas UTIs pediátricas. A transmissão vertical, da gestante para o feto, ainda não está confirmada. No mundo inteiro ainda não tem nenhum caso confirmado. E estamos acompanhando, na medida do possível, todos os estudos sobre a pandemia no mundo. São cerca de 100, todos os dias.
Rossi – Todas as revistas internacionais, de alto impacto, estão disponibilizando os estudos gratuitamente, sem necessidade de assinatura. O acesso é para todos, além dos pesquisadores.
Rossi – A Ufam está testando o Elisa, um radioimunoensaio, com maior sensibilidade. Nos exames de teste rápido (ponta de dedo), a cada dez pacientes infectados somente três vão ser positivo porque tem baixa sensibilidade. A gente já sabe que, entre adultos, quase 90% vai ter, sem ter clínica nenhuma. Os exames eram para outros coronavírus. Agora que estão sendo testados os mais específicos.
Rossi – Tem muita gente que veio do interior e que já teve a doença. Aí dá positivo. Os hospitais, ao mesmo tempo, estão vazios. A taxa de transmissão hoje é bem mais baixa. O vírus vai se modulando. Chegará o momento em que vamos conviver com ele.
Rossi – Temos um trabalho, publicado na França, onde pegaram uma criança com muitos sintomas, aquele catarro forte etc. Ficou junto com 180 crianças e nenhuma pegou Covid-19. Nenhuma teve clínica ou exame alterado, positivo. A conclusão é que onde tem uma criança doente tem um adulto doente porque é pouco provável que criança transmita a doença.
Rossi – Tem vários casos relatados, inclusive em Manaus, que o marido teve, em março e abril, e a esposa não pegou. Aí acha que não vai pegar. Na minha casa todos os empregados tiveram, genro teve e marido teve. Estou imune? Não. Não posso relaxar. Não é 100% certo que eu não vá ter. Atendo 10 a 15 pacientes por dia e, de repente, um pode me passar. Depende da carga viral. A manifestação é própria. É individual. Não fiz quarentena, nunca deixei de ir ao hospital e atender. Atendo prematuros, mas os pais vêm junto. Tem o fator da imunidade própria e da carga viral. Hoje a gente sabe que PCR positivo, após dez dias, você está liberado da quarentena. O isolamento não tem mais muito sentido.
Rossi – Não existe mais como você dizer onde a pessoa pega a doença. Porque as pessoas não têm manifestação clínica. Aquela coisa de perder o paladar e o olfato não acontece em todo mundo que pega o coronavírus.
Rossi – A gente fica suscetível. Não tenho anticorpos e tenho contato todos os dias. Nos cursos presenciais, a gente controla o número de pessoas e todos assinam termo de consentimento, dizendo que, em 14 dias, não tiveram contato com doentes. Os cuidados precisam continuar. A gente tem que continuar usando máscara, lavando as mãos etc., independente de ter tido ou não.
Rossi – Tudo é tão novo, com seis a sete meses de doença… Temos uns cinco ou seis casos de reinfecção registrados. Sabemos que pegaram mais leve e nenhum morreu ou precisou de UTI. Na segunda infecção foi bem mais leve. Trata-se de uma infecção respiratória. É gripe. Não existe isso de alguém pegar gripe e não pegar de novo. Se pensarmos em pacientes que tiveram a doença, em março e abril, e forem fazer a pesquisa RT PCR agora, porque as empresas aéreas estão solicitando exame para viajar, pode dar positivo e apenas ser portador, sem ter infecção. Mas transmite para outras pessoas. Ela continua doente? Jamais. Mas continua sendo portadora. O que fazer? Usar máscara. Quem teve vai ter de novo, em dois meses, com o mesmo vírus? É pouco provável. Mas, repito, é tudo muito novo.
Rossi – A American Airlines não deixa embarcar com PCR positivo e a TAP deixa embarcar, dependendo do local para onde você vai.
Veja mais notícias em Geral