09/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

‘Bileno’, que fez cirurgia para mudar o rosto, tem julgamento por homicídio pendente na Justiça

Publicado em 19 de outubro, 2020

'Bileno', que fez cirurgia para mudar o rosto, tem julgamento por homicídio pendente na Justiça

‘Bileno’, que fez cirurgia para mudar o rosto, tem julgamento por homicídio pendente na Justiça. Foto: Divulgação

Condenado a 10 anos por tráfico de drogas, preso com entorpecentes e com uma ficha de pistoleiro de facção criminosa, o traficante Lenon Oliveira do Carmo, 39, “Bileno” estava com julgamento marcado na pauta do Tribunal do Júri pelo homicídio de Juciley Nunes de Paula, ocorrido em 2014. O julgamento ocorreria dia 26 de maio, mas em razão da pandemia, acabou sendo suspenso e ainda não há uma nova data para que enfrente o júri popular.

Foragido de Manaus nos últimos 2 anos, “Bileno” foi preso em Fortaleza (CE), quando procurava casa para comprar em um bairro praiano de classe média alta na Região Metropolitana da capital cearense. Apontado como autor de vários homicídios cruéis em Manaus, seus processos somariam pena de mais de 60 anos. Ele foi recapturado em uma operação coordenada pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) neste sábado (17).

‘Bileno’

Em outubro de 2018, a Justiça Estadual havia considerado que o réu poderia ficar em liberdade, não havendo modificação na época que justificasse prisão preventiva. Ao ganhar liberdade, fez um voo mais alto e fugiu do Amazonas. Além disso, fez procedimentos de cirurgia plástica para mudar o visual. No Ceará, com vida de luxo e regalias, passou a se chamar Aylon Soares Cardoso.

Ao ser preso agora, ele visitava o que seria a nova residência, uma casa de alto padrão a poucos metros da praia de Icaraí, na região litorânea das belas praias do Ceará. Em março de 2014, “Bileno” foi detido em flagrante com 4 quilos de drogas, no bairro Santa Etelvina. Com ele, na época, foi pego Alexandre Bezerra Duarte, o “Juca”, que também será julgado pela morte de Juciley.

A operação da SSP-AM teve apoio do Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), da Polícia Civil, e da Polícia Civil do Ceará. As investigações que culminaram na recaptura do condenado vinham se desenvolvendo há cerca de três meses.

Alta periculosidade

Considerado de alta periculosidade, Lenon tem envolvimento em diversos assassinatos, em Manaus, relacionados ao crime de tráfico de drogas. Ele participou das mortes registradas no Complexo Penitenciário Antônio Jobim (Compaj), em janeiro de 2017, quando 56 detentos foram brutalmente assassinados.

“Bileno” era pistoleiro da Família do Norte (FDN) e, há cerca de dois anos, mudou de grupo e passou a ocupar um posto de comando em uma organização criminosa oriunda do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho (CV). De acordo com as investigações, ele era uma espécie de executivo do presidiário Gelson Carnaúba, o “Mano G”, chefe desta facção criminosa.

Preso pela última vez em fevereiro de 2018, Lenon tinha sido transferido do sistema prisional do estado, em julho daquele ano, junto com outros oito detentos líderes de facção, após a capital amazonense bater recorde de homicídios referentes às brigas de facções do tráfico. Ele ficou quatro meses no presídio de Mossoró, no Rio Grande Norte. Ao retornar para o Amazonas, obteve da Justiça o direito a prisão domiciliar.

Crime ambiental e invasão

Além do tráfico e homicídios, alguns com toques de crueldade e esquartejamento, Lenon ainda é investigado por crimes ambientais em invasões da capital. De acordo com a Polícia Civil, o condenado domina o tráfico doméstico em bairros como Colônia Antônio Aleixo, Distrito II e Puraquequara, e atuava no intercâmbio das drogas através das orlas fluviais dos bairros.

“Bileno” também comandava invasões de terras na capital amazonense e tinha sob sua liderança uma milícia armada altamente violenta responsável pela propagação do tráfico de drogas. Em uma invasão no Francisca Mendes, ele montou um clube de lazer para traficantes e desviou o curso do rio para montar um balneário natural. A suspeita da polícia é que o local serviria como uma espécie de bunker dos criminosos, onde seriam montadas estratégias para articulação de fugas de traficantes do regime fechado.

Massacre

A ordem para execução do massacre do Compaj em 2017 segundo denúncia do Ministério Público (MPAM) partiu do capo de “tutti capi” Zé Roberto, hoje preso em Campo Grande, com apoio de Mano G e João Branco, que estão detidos no Paraná. Na época da chacina, a trinca comandava a FDN. Entre os emissários que levaram a ordem estava a esposa de José Roberto, Luciane Albuquerque de Lima, para fazem chegar a carta a todos. A rebelião foi acertada para iniciar às 16h, aproveitando as comemorações da virada do ano.

Zé Roberto consolidou a FDN entre 2010 e 2012, para dominar o tráfico na região, mesmo estando preso no período em Porto Velho (RO). De lá, passou a unir “gerentes” no consórcio do tráfico e grandes somas em dinheiro para adquirir droga diretamente dos produtores vizinhos, como Colômbia e Peru.

A família se firmou como a maior e mais influente facção no sistema carcerário local. João Branco atuou no narcotráfico no Mauazinho, com diversos antecedentes criminais, e reconhecido no mundo do crime pela extrema violência e crueldade, inclusive como ativo integrante do Tribunal do Crime. Ele foi condenado pela morte do delegado da Polícia Civil Oscar Cardoso.

Contra PCC

Foi justamente no primeiro dia de 2017 que ocorreu a rebelião e o maior massacre do Estado, um dos maiores do Brasil. A rebelião começou exatamente às 15h59, quando alguns detentos que estavam custodiados no Pavilhão 3, onde estavam os comandantes da FDN, renderam os agentes de socialização.

Em vídeos registrados pelas câmeras de segurança do completo, é possível ver a intensa movimentação dos presos no Compaj, logo após o horário de visitas de familiares. Após renderem agentes, os internos trocaram tiros com a guarnição da Polícia Militar que estava na Portaria 3 do presídio para ter acesso a todos os presos de uma área chamada “Seguro”.

No local ficavam os detentos considerados vulneráveis e 26 detentos da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Desse local foram mortos 23 presos do PCC. Foi um extermínio de uma facção contra a outra rival.

Denunciados

Ao todo, 210 detentos foram indiciados por participação nas mortes das 56 vítimas do Compaj. Durante a rebelião, cujos vídeos mostram o início, a massa carcerária avançou no corredor para tomada do “Seguro”. Foram quebradas várias partes dos telhados do presídio para retirada de integrantes da FDN que estavam custodiados na área chamada de “Seguro”.

Os detentos escreveram a sigla FDN nas paredes com sangue das vítimas para representar a vitória da facção. Membros do PCC atearam fogo em colchões nas entradas das celas para tentar impedir que os integrantes da FDN conseguissem entrar nos espaços.

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