
Sociólogo analisa primeiro debate entre participantes da disputa pela Prefeitura de Manaus. Foto: Nathalia Carvalho/ Band/ Divulgação
O doutor em Sociologia Gilson Gil, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e especialista em eleições, analisou o primeiro debate. Foi na Band, quinta (01/10), reunindo oito dos candidatos a prefeito de Manaus, na sucessão de Arthur Virgílio. “As regras, inspiradas no jogo de xadrez e nos debates americanos, em que se aperta um botão e o tempo passa para o adversário, não funcionaram. Atrapalharam o debate e prejudicaram a troca de ideias. Para os próximos, creio ser interessante revisar este ponto”, disse o professor.
“Todos os candidatos tentaram fortalecer uma imagem e pouco, ou quase nada, mostraram de ideias para esta eleição”, analisa.
Gilson Gil fez uma análise sucinta da participação de cada um, nesse primeiro encontro, lamentando a ausência do líder das pesquisas, Amazonino Mendes. O ex-tetragovernador e ex-tri-prefeito, há tempos, não participa de debates. A desculpa da vez é que está se preservando da pandemia.
Acompanhar um debate, com oito participantes, é uma tarefa maçante. O professor fez esse trabalho por dever de ofício, como pesquisador e analista político, tendo visão privilegiada e abrangente. Veja, abaixo, a análise individual dos participantes do debate da Band, por Gilson Gil:
Insistiu na divisão ricos x pobres, tentando se caracterizar como “pobre”. Algo, contudo, não batia com essa imagem. Perdeu a chance de se apresentar ao eleitor, já que é um desconhecido e precisa se tornar mais conhecido.
Achei o que mais se adaptou às regras, sendo ágil nas falas e botões. Porém, insistia em dizer que era um “novo”, até que foi questionado por “representar o Omar, o Serafim e os Lins” e mudou esse posicionamento. Não creio que esse seja o melhor caminho para ele. Ser o “novo” funcionou em 2018, mas talvez não seja o ideal neste momento.
Repetiu muito que “governou quatro meses e mudou o Amazonas”. Já é reconhecido e não precisa tanto disso, dessa volta ao passado. Poderia ter mostrado mais suas propostas para hoje, 2020, sem investir tanto em 2017.
Vacilante e repetindo que adquiriu experiência no Exército. Tem de mostrar mais, pois pareceu muito pouco para ser prefeito.
Um liberal raivoso, um Hayek furioso, prometendo demitir funcionários e enxugar a máquina. Talvez em 2018 esse discurso desse certo. Agora, com pandemia e desemprego, talvez isso soe ameaçador e intempestivo. Precisa mostrar que conhece a gestão pública e apresentar propostas concretas sobre o cotidiano da cidade.
Partiu para cima do candidato do PT, falando em corrupção e roubalheira. Investe no discurso da segurança e em seu passado como policial. É dinâmico, agressivo, mas faltou mostrar o que propõe para a cidade como um todo, indo além desse tema.
Foi alvo de vários ataques, especialmente sobre a BR 319. Se desviou deles, retomando seu passado e seu troféu de “melhor prefeito do Brasil”. Disse que vai resolver o transporte e a saúde, como já “resolvera antes”. Vai precisar lutar mais para superar a rejeição.
Pareceu acuado, sem saber se defendia Lula e o PT ou se esquivava dos ataques. Nada parecido com o deputado combativo que atacava os governos e criticava o status quo. No final, disse ser o “Zé da Kombi”, o “Zé 13”, evitando se identificar com o PT. Talvez pudesse investir no antibolsonarismo, mas pareceu não ir por esse lado.
Poucas críticas `a atual gestão. O nome do prefeito artur Neto não apareceu. Ninguém tocou no fato de Alfredo ser seu candidato. Só uma vez falaram que a prefeitura teria falhado no combate à Pandemia. Uma omissão estranha, pois a eleição é municipal e sua gestão deveria estar sendo avaliada abertamente.
Faltou o líder das pesquisas. Gostaria de ter visto o líder com essas regras. Como ele atuaria em um sistema mais ágil de perguntas e respostas. Ficamos sem saber o que pensa, concretamente, sobre a cidade, seus defeitos e virtudes.
“Enfim, são impressões subjetivas e rápidas. O que mais me marcou é que precisamos esperar por outros debates e entrevistas. Faltaram justamente as propostas e ideias sobre Manaus, afinal, estamos em uma eleição”, disse Gilson Gil.
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