
FVS ataca duramente pesquisador da Fiocruz que anunciou mortes e UTIs lotadas. Foto: Chico Batata
A Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) emitiu nota, na noite desta quarta-feira (09/10), em que esclarece fatos sobre a evolução de óbitos por Covid-19 no Amazonas e contesta alegações do pesquisador Jesem Douglas Orellana, epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz na Amazônia (Fiocruz), divulgadas na imprensa.
A nota comprova com dados de séries históricas que não há uma aceleração mortes por Covid-19 ou por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), como alega o pesquisador.
A FVS-AM também repudia a postura desrespeitosa do pesquisador em relação à seriedade da fundação e afirma que as declarações de Jesem não refletem a isenção dos seus pares pesquisadores da Fiocruz. “Causa espécie as colocações sarcásticas, inadequadas e desnecessárias do pesquisador, que não refletem a isenção dos seus pares pesquisadores da Fiocruz. A postura do profissional demonstra uma completa falta de respeito com as mais de 3.855 vidas perdidas no estado do Amazonas para a Covid-19, e com os profissionais de saúde que permanecem se dedicando exaustivamente de domingo-a-domingo, a salvar as vidas, como as dos mais de 105.369 já recuperados”.
“Dito isso, a FVS-AM não se furta à verdade, jamais publicou dados falsos e reconhece a gravidade enfrentada pela saúde pública do País e do Amazonas. Em nenhum momento a situação epidemiológica da pandemia foi minimizada e muito menos neglicenciada por esta instituição”.
Veja a nota na íntegra da FVS aqui.
Em várias entrevistas e publicações, Jesem afirma que Manaus vive uma segunda onda de contágio da Covid-19. Segundo o infectologista, os dados divulgados pela Fundação de Vigilância em Saúde estão defasados. “São dados que estão aquém da realidade ou dados não explorados. Se você olhar o número de casos novos pelo método PCR de julho vai ver que é um valor estatisticamente muito menor do valor em agosto. Passamos de 900 casos em julho para quase o dobro em agosto. Isso mostra, pelos dados da própria FVS, que a circulação viral do coronavírus volta ser ampla e suficiente para caracterizar a segunda onda de doentes e mortes”, enfatizou.
Ainda de acordo com Orellana existe diferença entre dados oficiais no número de mortes e as informações reais. “Os dados e mortalidade por Síndrome Respiratória Aguda Grave confirmada por Covid-19 ou agente infeccioso não identificado, mas amparado por laudo clínico e análises laboratoriais, mostram 553 óbitos. Por incrível que pareça os dados da FVS mostram apenas 255 óbitos por Covid-19 nas últimas 24 horas. Esse dado da FVS jamais foi atualizado”, disse.
Jesem avalia como preocupante a superlotação de praias no Brasil durante o feriado do Dia da Independência. “Nós temos uma sensação de que a epidemia está controlada e talvez boa parte dos brasileiros possa imaginar que o coronavírus estava de férias ou de folga por ser um feriado brasileiro”, ironizou o pesquisador numa live.
Para ele, personalidades políticas, do mundo empresarial e esportivo contribuem diariamente para essa falsa situação de controle da pandemia. “E o resultado é isso que nós estamos vendo: alto quantitativo de pessoas infectadas, doentes e sobretudo mortas. Hoje aproximadamente 130 mil mortes confirmadas e pelo menos 50 mil a 60 mil por síndrome respiratória grave que podem estar associadas a Covid-19”, afirmou.
O cientista avaliou que ainda não é o momento de flexibilizar as medidas protetivas, sobretudo devido o perigo da ocorrência de uma segunda onda de mortalidade da Covid-19 como está acontecendo em Manaus. Na capital, uma equipe de pesquisadores apresentou ao Ministério Público Estadual (MPAM) um estudo que apontava o início da segunda onda de mortalidade caso não fosse adotado lockdown de no mínimo duas semanas.
“O primeiro e mais contundente alerta foi dos pesquisadores que projetaram um aumento no número de mortes na segunda onda já a partir de agosto, isso foi completamente ignorado e não poderia ser diferente. Porque se nós paramos para pensar, na realidade, o melhor momento para implantar o lockdown em Manaus deveria ser antes de maio, portanto, em abril”, lembrou.
Segundo ele, desde o dia 1º de junho, quando o governo estadual iniciou o ciclo gradual de abertura da economia, foram registradas 700 mortes por Covid-19. “Você sabe quantas mortes foram tornadas públicas pela FVS nesse mesmo período? Menos de 110”, criticou.
Ele acusou a FVS-AM de tentar de “forma vil” deturpar as estatísticas da Fiocruz que faz análise com base nos óbitos por ocorrência, mas que a FVS diz que são dados de notificação de mortes por SRAG. “Então, eles ficam fazendo esse joguinho para tentar ludibriar para tentar confundir a opinião pública e, temos que admitir, eles obtiveram bastante sucesso com essa estratégia”, disse.
Com base nessa argumentação, Orellana diz que é falsa a justificativa da FVS-AM para o aumento do número de mortes no estado como aparece na divulgação do consórcio de imprensa. De acordo com a fundação são ajustes em junho, feitos pela Prefeitura de Manaus, das notificações por mortes de síndrome respiratórias ocorridas em abril e maio.
“O caldeirão da morte por Covid-19 em Manaus aumentou de tal forma que não há mais como você colocar panos quentes para tentar esconder isso. Porque ele está realmente extravasando. Claro que não vai ser um padrão de mortalidade semelhante ao que ocorreu em abril e maio, mas é um padrão que já nos cobrou pelo menos 700 vidas. Eu pergunto: Essas 700 vidas? Quem vai pagar por elas? Quem será responsabilizado por isso? Essas mortes eram todas evitadas em teoria”, argumentou.
O pesquisador da Fiocruz destacou que o caso de Manaus está servindo como exemplo negativo para Inglaterra onde os cientistas usam o caso da abertura das escolas na capital amazonense para defenderem o fechamento dos seus estabelecimentos.
“A abertura das escolas coincide com o quarto e último ciclo de reabertura da economia do estado do Amazonas e, em particular, de Manaus. O aumento da mortalidade especifica por Covid-19 em Manaus acontece justamente de quatro a seis semanas depois do quarto ciclo de abertura e, particularmente, do retorno às aulas da rede privada, lembrando que foram mais de 140 mil pessoas que voltaram em plena atividade entre alunos e serviços essenciais e não essenciais”, afirmou.
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