27/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Importador pioneiro de vinhos no Amazonas completa 44 anos e conta a história

Publicado em 04 de julho, 2020

Panificadora N.S. de Fátima, em Manaus

Os proprietários da Panificadora N.S. de Fátima, que completou 44 anos no dia 2/7. Fotos: Divulgação

“O vinho passou da linha do Equador acabou” e “em Manaus não se bebe vinho porque é muito quente”. Essas máximas faziam com que poucos importadores, a maioria imigrantes saudosos dos países de origem, trouxessem quantidade inexpressiva de rótulos para Manaus. A Panificadora N.S. de Fátima, que na quarta (02/07) completou 44 anos, decidiu investir no mercado e colocou a capital amazonense na rota dos grandes vinhos. Criou hábitos, quebrou tabus e abriu o mercado.

A N.S. de Fátima está dando 10% de desconto em todos os produtos, até o Dia dos Pais. “É uma forma de brindar nossos clientes, abrindo nosso portfólio de produtos”, explica Joaquim Nogueira, 53, filho do empreendedor pioneiro, Arthur Dias Nogueira, 86, que abriu a N.S. de Fátima, em 1976.

Joaquim conta a história. O pai chegou em 1951. Em 1992, na viagem de lua-de-mel com a esposa, Tereza Eleonora, visitou dois produtores da Bairrada, em Portugal, e abriu o mercado português. “Hoje ampliamos o portfólio e temos variedades que atendem a todos os bolsos e gostos. Isso começou porque nós sempre tivemos o vinho na nossa mesa, nas refeições, nos eventos, e a gente tinha dificuldade em adquirir aqui”, diz.

A panificadora passeia pelos países produtores. Além de Portugal, hoje trabalha com produtores chilenos, argentinos, italianos, espanhois e franceses. “A gente oferece aos nossos clientes e amigos uma gama bastante ampla, com vinhos que vão de R$ 44 a mais de R$ 1 mil”, enfatiza.

 

Champanhe Cristal

Nos melhores momentos, Joaquim lembra que vendeu o Champanhe Cristal, um ícone no mundo do vinho, do produtor Louis Roderer. “Era um tempo em que o câmbio e a condição financeira eram mais favoráveis. Agora só importamos por encomenda”, recorda. O Brasil recebia cerca de 600 garrafas, no total, e a loja tinha 10% da quantidade enviada para o País.

O preço da Cristal? Hoje, no Mercado Livre, aparece R$ 7,9 mil, cada garrafa.

 

Turismo

Joaquim Nogueira enfatiza que os clientes são viajantes. Europa, Portugal em especial, mais Estados Unidos, Argentina, Chile e outros países produtores são visitados pelos enófilos. “Eles têm contato com rótulos que não vêm para o Brasil, safras limitadas… Isso faz com que o enófilo volte para Manaus ansioso por consumir produtos de qualidade”.

A comemoração dos 44 anos da panificadora com funcionários e amigos.

 

Impostos

Enquanto na maioria dos países europeus e nos Estados Unidos o vinho é considerado alimento e as taxas de impostos são mínimas, o Amazonas sofre com a “substituição tributária”. “O imposto é todo pago na entrada do vinho, numa alíquota muito alta”.

Joaquim faz uma conta simples: “Quando o preço FOB (Free On Board, custos – transporte etc. – por conta de quem compra) é 2 euros, eu multiplico por 6 ou 7 e faço o câmbio”. E as empresas amazonenses ainda enfrentam a concorrência desleal, o descaminho e o contrabando. “O Pará não tem Substituição Tributária e entra muito vinho pelo rio. A própria Sefaz sabe disso. Eu já fui lá denunciar”, enfatiza.

É assim que os maiores consumidores residenciais compram pela Internet e o Amazonas vai perdendo o mercado de vinho que conquistou. “Nos Estados do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, há uma tendência de voltar à cobrança normal, sem Substituição Tributária”, afirma.

 

Gama de produtos

A N.S. de Fátima criou um mix de produtos relacionados ao vinho, na chamada enogastronomia. Bacalhau, massas, queijos, azeite, pão, tudo está na prateleira. “A gente foi incorporando essa cultura enogastronômica, típica da Europa e outros continentes”, diz.

 

Especialista em vinhos

Joaquim Nogueira opinou sobre um leilão da Receita Federal no Amazonas, vendendo um lote de vinho apreendido na entrada. “Foi um pedido do Grupo A Crítica, para eu olhar os lotes e opinar. Eu fui ver os rótulos e descobri que alguns não valiam a pena. Eram vinhos vendidos em casas de leilão, muito antigos, vindo da Europa, pelos Estados Unidos e Caribe. Passaram por muita mudança de clima. Eu detectei que era muito arriscado comprar, por mais que fossem maravilhosos. Eram vinhos caros e que perambulavam há 30 anos”, conta.

O empresário recomendou os vinhos da América do Sul, mais jovens e com menos tempo viajando. “Não cheguei a provar nada. Foi uma opinião simples”, disse. A partir daí, a própria Receita usou o aval para divulgar o leilão.

 

Origem

Joaquim Nogueira afirma que uma “grande dica” para o consumidor de vinho é saber como a empresa vendedora transportou o produto até Manaus. “Nas primeiras importações, a gente trazia o vinho em conteiner não refrigerado. Hoje, só transportamos vinho em conteiners frigorificados a 16 graus. O armazenamento vai até 18 graus, no máximo. Em casa, o consumidor tem que armazenar embaixo da cama ou em algum lugar onde não varie muito a temperatura”, ensina.

 

Ou;ça, abaixo, o áudio da íntegra da entrevista:

Joaquim Nogueira, filho do empreendedor pioneiro, Arthur Dias Nogueira.

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