29/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Juiz indefere lockdown em Manaus, numa decisão de 17 páginas. Veja íntegra

Publicado em 06 de maio, 2020

Juiz indefere lockdown em Manaus

Juiz indefere lockdown em Manaus, apesar do pedido do MP. Na foto, rua do bairro Cidade Nova (foto), zona Norte de Manaus. Foto: Eliena Monteiro/PMS

O juiz de direito Ronnie Frank Torres Stone negou o pedido de lockdown, fechamento total, em Manaus, em decisão publicada nesta quarta-feira (6/5). O pedido foi feito, ontem (5/5), pelo Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM). A determinação judicial consta em processo com 67 páginas, 17 das quais são a decisão propriamente dita.

No entendimento do juiz, dados encaminhados por secretarias municipais da capital a ele demonstram que “não há nada que indique uma tendência crescente a justificar medidas mais drásticas de isolamento social adotadas, em especial na cidade de Manaus”.

Em suas argumentações, o magistrado afirma que as medidas de restrição já têm sido adotadas pelo Estado do Amazonas. Além disso, o juiz diz que faltam elementos para embasar o lockdown.

“Diante do exposto, ainda que se entendesse possível ao Poder Judiciário determinar as severas medidas de restrição à população manauara, como pretendido pelo Ministério Público, está claro que não existem nos autos, até o presente momento, elementos mínimos que justifiquem a medida judicial requerida, em caráter antecipatório, motivo pelo qual indefiro a tutela”, escreveu, na decisão.

Argumentações do juiz

Na decisão proferida nesta quarta, o juiz Ronnie Frank Torres Stone afirma que o MP não anexou documentos que sustentem o pedido.

“Limita-se o Autor a enfatizar que as restrições já impostas não estão sendo eficazes e que há a necessidade de medidas de força para que se efetivem, e que a circulação de pessoas têm aumentado a ponto de comprometer o sistema de saúde na Capital”, diz trecho da decisão.

O magistrado afirma que ele mesmo decidir solicitar dados oficiais da Prefeitura de Manaus, para composição de sua decisão. “Em razão da urgência e das circunstâncias, a tomar a iniciativa de solicitar, informalmente, acesso a dados do Município de Manaus que foram, prontamente, encaminhados, por e-mail, pelo Senhor Secretário da Semulsp e passam a integrar esta decisão”, escreveu.

Com base nos dados, o juiz destaca que o quadro evolutivo dos sepultamentos ocorridos em Manaus, nos meses de abril e maio, demonstram clara tendência decrescente.

“Esses dados, ao contrário do que sugere o Autor, demonstram que as medidas adotadas, ainda que não tão rigorosas como as desejadas na peça inicial, estão a indicar que o surto já se encontra, no mínimo, estabilizado, com tendência de redução, na Capital”, diz o juiz.

De acordo com Ronnie Frank Torres Stone, a peça apresentada não nega que o Estado do Amazonas tenha adotado medidas para restringir a circulação de pessoas, seja na capital, seja entre os municípios do Estado e, inclusive, a nível interestadual.

Conforme a decisão, o juiz entendeu que o MP pediu mais rigor na fiscalização, para que a população cumpra as determinações já publicadas pelo Governo do Estado.

“A rigor, o que se pretende é substituir o poder de polícia à disposição do Gestor Público pela força de uma decisão judicial, ou seja, transferir para o Poder Judiciário a responsabilidade pela execução das medidas previstas nos decretos do Senhor Governador, o que é inaceitável por conta da distribuição de atribuições dos poderes constituídos, dentro do sistema constitucional vigente”, afirmou o magistrado, na decisão.

Redistribuição do pedido do MP

Na terça, ao receber o pedido do MP, o juiz plantonista da Central de Plantão Cível, Antonio Itamar de Sousa Gonzaga, redistribuiu o processo, que foi para Ronnie Frank Torres Stone, juiz titular da 1ª Vara da Fazenda Pública Estadual, a quem coube tomar a decisão proferida hoje.

O pedido de lockdown foi feito por 11 promotores do MPE-AM. Eles solicitaram o isolamento completo e medidas mais duras contra a Covid-19.

Itamar justificou a remessa porque a ação foi protocolada eletronicamente e direcionada para a 1ª Vara. “Em outras palavras, antes de serem remetidos a esta Central de Plantão, os presentes autos já se encontravam distribuídos ao juiz natural”, diz o texto. Isso “inviabiliza a atuação do juízo plantonista”.

O juiz disse que, para o juízo plantonista atuar em processo já distribuído, teria que obter autorização junto ao desembargador plantonista.

Opinião do prefeito de Manaus

Logo após o pedido do MP-AM, ainda na noite de ontem, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, disse, nas redes sociais, ser contra o lockdown em Manaus. “Proponho, desde já, troca do lockdown, talvez impossível, em plena garantia da lei e da ordem, de ser efetivamente implementado. Sugiro adotarmos mais medidas rígidas que forcem a adesão das pessoas ao isolamento social”, escreveu. Entre as medidas, ele acha que empresas funcionando irregularmente devem ter o Alvará cassado.

Arthur entende que o lockdown, hoje privativo do governador Wilson Lima, deveria ser do prefeito da Cidade-Estado que é Manaus. E enfatiza: “Uma decisão grave dessas não é para ser tomada sem dezenas de aspectos serem exaustivamente examinados”.

Opinião do governador do Amazonas

O governador do Amazonas, Wilson Lima, disse nesta quarta-feira (6/5), em entrevista a uma emissora de TV local, que defende um modelo de isolamento social que mantenha serviços essenciais em funcionamento e o reforço em ações de fiscalização e conscientização da população.

Ele afirmou que, caso houvesse decisão da Justiça favorável ao ‘lockdown’ pedido pelo MPE-AM, seria necessário dividir responsabilidades com órgãos de todas as esferas para garantir o cumprimento do isolamento total.

“Ainda há pouco conversei com representantes do Ministério Público e o que eu defendo é uma modelagem nesse processo em que a gente aumente a rigidez do isolamento social, mas preserve alguns serviços que não podem parar, como por exemplo os supermercados, farmácias, indústrias, principalmente as indústrias que trabalham com a fabricação de insumos e outros equipamentos, que são fundamentais  para o combater a Covid. Esses não podem parar”, disse o governador.

LEIA A DECISÃO QUE INDEFERIU O LOCKDOWN EM MANAUS.

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