
Inventor da cápsula contra Covid, Fram Canto (direita), em reunião com o prefeito Bi Garcia: “A gente não está só esperando pela Prefeitura não. Estamos fazendo nossa parte”
Os troféus dos campeões do Festival Folclórico de Parintins, nos últimos três anos, é obra e arte do designer Fram Canto, 41. Ele se tornou também estrela nacional do combate ao Covid-19, por ter construído uma cápsula para proteger os profissionais de saúde. “Eu havia dado férias para os meus funcionários. Depois pensei nos meus amigos, profissionais de saúde, e chamei todo mundo de volta. Fizemos o projeto ‘Todos contra o Coronavírus’ e chegamos à cápsula”, revela.
A cápsula surgiu de um pedido de um amigo médico, Alberto Ferreira de Figueiredo Filho, que queria um “capacete de Hood”. Fram achou o equipamento, usado para oxigenar crianças, muito claustrofóbico. “Fui buscar uma alternativa e inventamos a Cápsula de Hood”.
Parintins tem cápsulas nos dois hospitais, dez no Jofre Cohen e três no Padre Colombo, mas só precisou de duas, até agora. “Elas permitem que pacientes com Covid-19 fiquem no mesmo ambiente, sem contaminar os profissionais de saúde”, explica o inventor.
Bem-humorado, característica parintinense, Canto vai às lágrimas quando conta como os profissionais receberam as primeiras doações do “Todos contra o Coronavírus”. Não foi pouca coisa: calças e batas impermeáveis, protetores de calçados, máscaras, macacões, viseiras… Tudo fabricação da Malharia, Gráfica e Editora João XXXIII, que, há dez anos, ele adquiriu da Diocese de Parintins.
O melhor de tudo é que Fram Canto não está comercializando o produto. “Basta um ofício e um documento, atestando o uso filantrópico, e eu libero o projeto”, afirma. Médicos e industriais de São Paulo, Amapá e Minas Gerais já ligaram pedindo para embarcar na cápsula. Faro (PA), Nhamundá, Barreirinha, entre outros Municípios, estão até improvisando. “Aqui, onde estamos bem equipados, fazemos corte a laser. Mas já adaptamos o projeto, em lugares onde não tem, para corte em serraria”, acrescenta.

Foto oficial dos médicos recebendo a Cápsula de Hood de Fram Canto
O inventor só tem uma bronca. Autoridades nacionais de saúde começaram a pedir que ele apresentasse estudos científicos da cápsula. “Numa hora dessas vocês vêm pedir estudos científicos! Nós estamos é tentando salvar vidas”, reagiu. Mesmo assim, o Campus da Ufam, após contato do próprio reitor, Sylvio Puga, está cuidando da patente e desses estudos.
Em resumo, a cápsula, valiosa aliada no tratamento da pandemia, surgiu da amizade e carinho de Fram Canto com profissionais de saúde. E do talento dele como inventor. Veja, a seguir, entrevista que concedeu a este portal:
Fram Canto – É um trabalho conjunto e uma homenagem aos profissionais de saúde. Eles é que são os heróis. A avaliação inicial é muito boa. Ninguém está vendendo a máquina da salvação. O entendimento principal é de um escudo para os profissionais que trabalham com pessoas infectadas.
Fram – Era. A Malharia, Gráfica e Editora João XXXIII foi adquirida por mim há dez anos.
Fram – Nós estamos disponibilizando o projeto para hospitais, públicos e privados. Há vários que estão avaliando. Temos patente, requerida com acompanhamento da Ufam, de Manaus. O próprio reitor, Sylvio Puga, que foi meu mestre, ligou para colocar o Departamento de Tecnologia à disposição. E a UEA também está nos ajudando. A Ufam está fazendo os testes científicos porque os órgãos competentes estão pedindo comprovação científica. Fiquei meio surpreso. Falei pra eles: “Olha a hora que vocês vão querer comprovação científica! A gente está tentando salvar vidas”.
Fram – Vários Estados e cidades. São Paulo, Belo Horizonte, Faro, Juruti, Nhamundá, Barreirinha, Tefé, Anori… Macapá quer que a gente produza e estamos tentando com uma empresa de lá, para doar aos hospitais. Tem também empresas que querem produzir para doar. Vou liberar, desde que façam o pedido formal.
Fram – Pode ser por telefone ou e-mail. A gente disponibiliza o projeto detalhado e dá treinamento sobre como fazer. Há vários protótipos, em vários locais, para ver se vão produzir em massa ou não. Até agora a avaliação inicial é muito boa.
Fram – Parintins tem bastante leitos equipados com nosso invento. São 10 no hospital Jofre Cohen e três no Padre Colombo. Só estão usando dois, graças a Deus. O importante é que elas ajudam no isolamento dos pacientes. Podem ficar vários, através da cápsula, na mesma sala de terapia.
Fram – A nossa é de acrílico, bem acabada, mais robusta e mais fácil de esterilizar. Tem uma estrutura por baixo do colchão que ajuda muito no isolamento. São portinhas, que permitem abrir e fechar por trás, dando mais facilidade no manuseio do paciente.
Fram – Trabalho com invenção desde novo. Sou designer e formado em Administração pela Ufam. Desde pequeno desmontava e montava rádios. Tenho a cabeça grande (risos).
Fram – A nossa grande preocupação inicial foram os médicos. Tenho muitos amigos médicos aqui. Parintins não estava preparada, quando surgiu esse problema. Os médicos Alberto, Denis e Tanaka, fora os enfermeiros dos hospitais, são muito amigos. Fiquei sem dormir três dias, pensando em como ajudá-los. Meus funcionários estavam dispensados e iam entrar em férias coletivas. Aí eu pensei: “Não vou abandonar meus amigos. É a hora que eles mais estão precisando. Fiz reunião por telefone, trocamos ideias e começamos a agir para protegê-los. Chamei meus funcionários e expliquei a situação. “Vamos ajudar quem ajuda a gente e vai nos ajudar muito nessa guerra”. Foi aí que fizemos o projeto “Todos Contra o Coronavírus”. Abriu, e ainda está aberto, um canal para doações. Doaram amigos e empresas. Fizemos calças e batas impermeáveis, protetores para botas, máscaras, macacões, viseiras…
Fram – Não. Nessa troca de ideia, com médicos e enfermeiros, surgiu o Capacete de Hood, que é usado no pescoço de crianças. Aquilo é claustrofóbico e vaza muito ar. Desenhei uma coisa maior, que fosse mais confortável e abrangesse o tórax inteiro, para ajudar nos processos respiratórios. Minha preocupação era encaixar na cama. Os médicos ficaram emocionados pelo nosso empenho em ajudá-los. Até choro quando lembro disso. A gente vê a angústia da parte dos enfermeiros, médicos e pessoal de limpeza, dentro dos hospitais.
Fram – Quando a gente chegava com as máscaras, parecidas com a N95, na questão de qualidade? O fator psicológico, principalmente do pessoal da limpeza, que não tinham equipamentos próprios… Foi muito importante para eles. A máscara ficou muito legal. E o projeto “Todos contra o Coronavírus” não parou.
Fram – As cápsulas de Parintins são fruto da doação das pessoas. E a gente, realmente, não para por aí. Os médicos dizem “Fran está faltando máscara, capa etc.” E a gente vai fazendo. A Prefeitura faz a parte dela e nós a nossa. Não estamos esperando só pelo poder público não. Estamos fazendo a nossa parte.
Fram – O custo varia. Depende do preço do material. Acrílico e acetato estão em falta e subiu muito o preço, dobrou, praticamente. O preço vai variar de acordo com o tipo de produção. Nós temos corte a lazer, na João XXXIII, e outros equipamentos diferenciados para o interior do Estado. O nosso parque fabril é bem avançado. Em cidades pequenas, como alternativa, estão cortando os materiais até em movelaria.
Fram – Não. Nunca trabalhei direto com os bois. Minha arte é diferente. Trabalho na parte criativa de novos produtos e novas tecnologias. Apresento produtos gráficos diferenciados. Os troféus do Festival de Parintins, por exemplo, há três anos consecutivos, sou eu que faço. Ano passado fizemos também o troféu do Sairé de Santarém. São produtos ligados a novas tecnologias, design e produção.

O inventor é também o designer dos troféus dos campeões do Festival Folclórico de Parintins