
Foto: Arlesson Sicsú/Arquivo-Semcom
O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) divulgou, nesta terça-feira (31), a primeira previsão de 2020 para a cheia do rio Negro em Manaus. Para respeitar a recomendação de isolamento social do Ministério da Saúde, pela primeira vez, o estudo foi apresentado via transmissão pelo Youtube. A instituição prevê que, neste ano, a cheia do rio Negro estará dentro da normalidade na capital do Amazonas.
Segundo a estimativa, neste ano, o rio Negro deve atingir sua cota máxima dentro do intervalo entre 27,95m e 28,65 m – com média de 28,30 metros. Essa previsão descarta a possibilidade de cota de emergência em Manaus, que ocorre somente quando o nível do rio Negro chega aos 29 metros e invade a rua dos Barés, no Centro da cidade.
“A tendência é que a cota máxima fique entre a mediana e o limite superior da faixa de permanência de 15% a 85%, significa que provavelmente o nível do rio Negro não vai sair da normalidade e não haverá evento extremo em Manaus neste ano”, aponta a pesquisadora em Geociências da CPRM, Luna Gripp Alves.
Luna é responsável pelo Sistema de Alerta Hidrográfico da Amazônia Ocidental. Ela acrescentou que esta é a primeira estimativa. Mais dois eventos de divulgação do alerta vão ocorrer nos dias 30/04 e 29/05, com a atualização das previsões, que podem sofrer alterações caso corram chuvas além do que está sendo projetado neste momento.
A previsão leva em conta o nível atual do rio Negro e o prognóstico de chuvas para os próximos meses elaborado pelo Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam). De acordo com os dados obtidos pelo órgão, são esperadas, para os meses de abril, maio e junho, chuvas dentro da normalidade, sem previsão de ocorrer fenômenos como El Nino e La Nina.
A análise requer também o monitoramento do comportamento dos rios ao longo da bacia. Para isso, é determinada a faixa de permanência, que representa a normalidade do comportamento do rio, elaborada desprezando, na série histórica de 110 anos, 15% das cotas mais elevadas e os 15% das cotas mais baixas.
Com este referencial é feito o monitoramento das cotas nas cabeceiras do rio, o que é fundamental para prever a cheia que demora cerca de 45 dias para atingir Manaus. De acordo com a série histórica, 75% das cheias ocorreram em junho ou julho.

Pesquisadora em Geociências da CPRM, Luna Gripp Alves, deu informações sobre a previsão de cheia para o rio Negro, em Manaus. Foto: Reprodução/YouTube
Neste ano, nos meses de dezembro e janeiro, foram observadas cotas acima do esperado nas cabeceiras dos rios, o que levou a certa preocupação, mas em seguida, em fevereiro e março, o padrão se inverteu.
“Somaram-se chuvas acima do esperado e chuvas abaixo do esperado, o que resultou em cotas médias”, apontou a pesquisadora.
Nesta terça-feira (31), o Porto de Manaus registra a cota de 25,22 m. É o mesmo padrão na cabeceira do rio Negro, nas estações de São Gabriel da Cachoeira e em Barcelos, onde o rio também está nesta faixa de normalidade. Da mesma forma na cabeceira do Solimões em Tabatinga, assim como em Fonte Boa e Manacapuru.
A cheia em Manaus é um fenômeno natural. Conforme explicou a engenheira Luna Gripp, o rio possui uma dinâmica. Naturalmente, ele vai subir em uma determinada época do ano e depois vai descer, ou seja, o rio sempre vai apresentar período de cheia e de vazante.
No entanto, nos últimos anos, o rio tem apresentado cheias mais frequentes. A cota de alerta tem frequência de 73% em uma base de dados de mais de 110 anos e a cota de emergência para inundação chega a uma frequência de 14% e um período de retorno de aproximadamente sete anos.
“O período de retorno significa que, em média, esse evento ocorreria uma vez a cada sete anos, mas quando a gente observa a base de dados, somente nos últimos 10 anos, esse valor de 29 metros foi igualado ou superado sete vezes, enquanto se esperaria que seria apenas uma vez”, explicou a cientista.
O mesmo está sendo observado em relação a eventos mínimos. “Também estão mais frequentes e representam problema seríssimo porque as principais vias do Estado são fluviais e a seca impacta no desabastecimento de alimentos e energia nas comunidades do interior”, comento Luna Gripp.
O rio que banha Manaus é o rio Negro, mas o CPRM lembrou que não é possível analisar o impacto das águas na capital do Amazonas sem acompanhar o comportamento do rio Solimões. Ambos formam o rio Amazonas, que é o maior rio do mundo.
“Quando o rio Solimões está subindo, sendo ele um rio de grande volume e vazão, impede a passagem do rio Negro e faz com que este suba em Manaus, mesmo que não esteja com tendência de subida verificada a montante. O mesmo ocorre quando o Solimões está baixo: o rio Negro acaba drenando também. Esse comportamento dependente torna sempre necessário monitorar o rio Solimões para fazer a previsão em Manaus”, explicou Luna.
A Superintendência Regional da CPRM em Manaus emite semanalmente o Boletim de Monitoramento Hidrometeorológico da Amazônia Ocidental, que avalia o comportamento dos rios nos principais pontos das bacias dos rios Negro, Solimões, Madeira e Amazonas, observando a cota atual em relação a dados da série histórica.
Ao mesmo tempo, apresenta o boletim meteorológico elaborado pelo Sipam com o registro do que ocorreu nos últimos 30 dias e a previsão meteorológica para as próximas duas semanas.
Além do Sipam, a Defesa Civil do Estado do Amazonas e a Defesa Civil de Manaus atuam em parceria com a CPRM com o intuito de minimizar o impacto de eventos de cheia e seca estrema para a população.

Gráfico apresenta comportamento da cheia do rio Negro dentro da normalidade. Foto: Reprodução/YouTube
Neste ano, a previsão utiliza novas cotas de referência para o alerta hidrológico de oito municípios da Amazônia Ocidental elaboradas por meio de nova metodologia em campo com a utilização de GPS. Os dados foram apresentados pelo Serviço Geológico do Brasil e a Defesa Civil do Amazonas no dia 10 deste mês.
Em Manaus, quando o rio atinge 27 metros, entra em cota de atenção. A cota de alerta é definida quando o rio atinge 27,50 metros no bairro São Jorge. Já a cota de inundação é quando o rio atinge 29 metros na Rua dos Barés.
Os Sistemas de Alerta Hidrológico implantados e operados pela CPRM têm o apoio da Agência Nacional de Água (ANA), por meio de aporte de recurso para operação das estações que compõem os Sistemas, as quais fazem parte da Rede Hidrometeorológica Nacional.
Das estações da RHN, mais de 200 estações de monitoramento são operadas pela unidade de Manaus em rios amazônicos.
O CPMR destacou que a internauta Thais de Carvalho elogiou a iniciativa da instituição de transmitir ao vivo e pelas redes sociais a divulgação do primeiro alerta de cheias de Manaus. “Parabéns à Luna e equipe CPRM pelo excelente trabalho e transparência”, disse.
Sílvia Gonçalves afirmou que a iniciativa contribui para garantir a segurança e a saúde das pessoas. Já Marcos Salviano, Lucas Alcântara, Helena Xavier e Carlos Simosem destacaram a didática da apresentação.
Janaína disse que, ao divulgar essas informações, o Serviço Geológico do Brasil colabora com a Defesa Civil e com a sociedade. Charlis Barroso da Rocha parabenizou a CPRM pela transmissão. “Parabéns a todos da equipe, a senhora Luna pela excelente apresentação. A Defesa Civil do Estado do Amazonas segue com a pareceria junto ao CPRM”, agradeceu.
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