
Infectologista grava vídeo sobre Covid-19 e diz que já há protocolo para uso de cloroquina contra vírus. Foto: Reprodução
Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o médico infectologista da Fundação de Medicina Tropical (FMT) e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marcus Lacerda, falou sobre a pandemia do novo coronavírus e comentou que Manaus está desenvolvendo um protocolo clínico sobre o uso da cloroquina para o tratamento da infecção.
Conforme o infectologista, o protocolo está em apreciação em Brasília no Comitê de Ética, com apoio do Ministério da Saúde e da Fiocruz. O especialista alerta, no entanto, que a população evite a corrida às farmácias para estocar o medicamento. Ele tem efeitos colaterais e precisaria de um protocolo específico, o que está sendo produzido. “A estocagem não faz bem a quem de fato precisa do remédio, hoje, como quem tem malária, lúpus, reumatóide. Não podemos deixar esses pacientes sem a medicação”, diz Lacerda.
O Ministério da Saúde pode autorizar, até terça-feira (24), a prescrição da cloroquina e da hidroxicloroquina para casos graves de Covid-19. Uma eventual liberação dos remédios terá caráter experimental e valerá apenas para pacientes internados em estado grave. Os dois componentes têm efeitos colaterais fortes e não podem ser estocados para serem usados em caso de eventual gripe.
Nos últimos dias, foi divulgado um estudo realizado na França em que a cloroquina – usada para tratar a malária – e a hidroxicloroquina – prescrita para casos de artrite reumatoide e lúpus – diminuíram a contagem viral. No sábado (20), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, informou que o governo norte-americano estuda a utilização dos medicamentos no tratamento do novo coronavírus.
Segundo o infectologista da FMT, há trabalho mostrando que a cloroquina reduziria o tempo da contagem viral, tendo efeito na transmissão entre pessoas. “Mas não há estudo, no momento, mostrando que a medicação teria ação sobre casos graves a fim de melhorar a mortalidade”, explicou.
O médico disse que resolveu gravar o vídeo para conversar sobre aspectos fundamentais, após assistir conteúdo que acaba causando pânico ou outros que relativizam a doença. “Não será a primeira vez nem será a última que vamos passar por uma epidemia de vírus respiratório, de transmissão muito fácil, que se espalha pelo mundo de forma rápida. O coronavírus tem uma letalidade menor do que outros vírus, mas ainda assim as pessoas estão morrendo em função da infecção”.
Ele lembra quando a epidemia foi controlada na China e chegou na Itália, encontrando, digamos, uma condição de um país ainda em preparação para o surto e com uma grande população de idosos.
“Como todo sistema de saúde de todo planeta, não existem leitos além da necessidade. Conheço as pessoas que estão cuidando da prevenção no Ministério da Saúde, no Governo do Amazonas e na Prefeitura de Manaus e estamos muito bem articulados. Não estamos perdendo tempo nem escondendo informação de ninguém. As pessoas estão fazendo o que é possível fazer”, falou o infectologista.
Lacerda disse que grande parte da população vai mesmo adquirir o novo coronavírus e desenvolver um resfriado, algumas vezes, ou uma gripe acompanhada de febre, mal estar e dor no corpo. “Mas as pessoas precisam entender que não estamos preparados para que todos procurem as unidade de saúde. Devem procurar o sistema especialmente os mais idosos e os que tiverem dificuldade de respirar”.
Ele reforça que nos casos leves, de resfriado ou gripe sem a presença dos sintomas para Covid-19, não se vá ao posto. “Porque ao ir, se você não tem o vírus, vai pegar. E se você já tiver, vai espalhar para outras pessoas dentro do serviço. A recomendação é ficar 14 dias em casa, se hidratar e tomar um antitérmico, em caso de febre, paracetamol ou dipirona. Essas informações não vão mudar”.
Lacerda afirma que os médicos precisam estar preparados para receber os casos graves, que serão os idosos, que são os que tem morrido de Covid-19 em outros países: “Crianças e jovens saudáveis vão se resfriar, mas não necessariamente desenvolver formas graves, que dependam de atendimento. Não temos leitos a mais e isso tem sido um problema no mundo inteiro”.
O infectologista alerta que o Ministério da Saúde tem feito todos os esforços para achatar a curva, restringindo a movimentação e circulação de pessoas. “É ficar em casa, para que a gente possa fazer com que nem todo mundo pegue ao mesmo tempo a doença. Porque se todos pegarem ao mesmo tempo, a gente, de fato, terá um caos na saúde pública”.
O médico concluí o vídeo de alerta pedindo apoio da população, para que confie nos infectologistas que estão trabalhando no Brasil para o controle, prevenção e atendimento à pandemia. “Vamos passar por isso, durante uns 2 meses, três, ou até quatro meses. E os danos serão minimizados se todos entenderem a mensagem”.
Marcus Lacerda é doutor em Medicina Tropical pela Universidade de Brasília (UnB) em parceria com a Universidade de Nova York, com especialização em infectologia, e especialista em Saúde Pública do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia).
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