03/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Em Roma, padre amazonense fala sobre a quarentena e o medo do coronavírus. Leia a entrevista

Publicado em 11 de março, 2020

Em Roma, padre amazonense fala sobre a quarentena e o medo do coronavírus. Leia a entrevista

Em Roma, padre amazonense fala sobre a quarentena e o medo do coronavírus. Leia a entrevista. Fotos: Arquivo pessoal padre Adelson Araújo

Ruas vazias, pontos turísticos sem filas, controle de acesso, avisos para ficar em casa e quarentena decretada em todo um país. O que poderia ser cenas e trechos de um roteiro de M. Night Shyamalan, diretor de “Fim dos Tempos”, na realidade acontece exatamente na Itália, com o avanço do coronavírus desde o último fim de semana.

Em Roma

Após mais de 10 mil pessoas infectadas com o Covid-19 e além de 600 mortes, a península europeia estabeleceu uma zona de proteção ou zona vermelha, transformando a Itália no primeiro país do mundo a impor restrições a toda sua população para tentar frear a difusão da doença. Deslocamentos de moradores e turistas precisarão ser autorizados por agentes de segurança até o dia 3 de abril. E até segunda ordem.

O padre amazonense Adelson Araújo dos Santos, que mora em Roma desde 2018, onde dá aulas na Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG), falou com o Portal Marcos Santos sobre o clima após o anúncio da quarentena e a mudança de rotina provocada pelo novo coronavírus.

Governo

“Em Roma, a cidade foi se preparando com antecedência à medida que o vírus começou a se espalhar mais pelo Norte da Itália, e nós estamos mais ao Centro. Houve tempo suficiente para que as autoridades daqui, que também é onde se concentra o poder político nacional, tomassem medidas necessárias. De qualquer modo, precisamos esperar. A decisão do governo de considerar todo o país uma zona de proteção altera o ritmo de vida dos cidadãos de Roma, como já estava acontecendo no Norte do país”, fala o padre, que reside na PUG.

Ele confirma as autorizações necessárias para se deslocar para qualquer cidade italiana. E explica que todo o tempo os meios de comunicação estão informando para que não se saia de casa, apenas em casos de necessidade. “E especialmente aos jovens, porque o vírus não é uma ameaça somente para pessoas idosas, como se pensava no início. De fato, a maioria dos falecimentos aconteceu com pessoas idosas, mas há entre as vítimas pessoas de todas as idades”.

Confira trechos da entrevista com o padre que mora em Roma, neste momento de estado de exceção, onde os núcleos familiares, por exemplo, estão sendo refúgio e até tábua de salvação.

Sabemos que a Itália é um dos primeiros países a decretar controle de acesso a regiões, para evitar descolamentos de pessoas entre as regiões, e reduzir a disseminar o vírus. Como está funcionando isso?

Esse controle foi necessário porque já se sabe que uma característica do coronavírus é a capacidade de se transmitir com muita rapidez. À medida que todo mundo fica em casa, não tem como transmitir. Se as pessoas continuam se encontrando, é mais fácil sua propagação. A suspensão das aulas em todas as escolas e universidades, até mesmo das missas, é uma decisão tomada neste sentido. No caso das missas, foi decisão da Conferência Episcopal Italiana, para evitar o contágio e que o vírus se alastre ainda mais. As medidas dão a entender que ainda não há um controle da situação. A cada dia aumentam os casos de infectados e infelizmente o número de mortos.

Qual a maior preocupação no momento, das autoridades, em relação às diferentes regiões da Itália?

Há preocupação de que isso chegue ao Sul do país, onde as condições hospitalares e sanitárias são mais precárias e, portanto, a população estaria mais exposta a não ter as condições necessárias para combater o vírus. Por isso a preocupação maior, no momento, é que a população fique em casa, evite viajar, evite circular pelas cidades para que esse vírus pare de se transmitir. E para que se possa, posteriormente, voltar a uma rotina normal.

E sua rotina, o que mudou com a quarentena? O trabalho que fazia na universidade, como está funcionando?

Minha rotina foi alterada, sendo professor universitário e morando dentro de uma universidade, estamos com a casa vazia, porque os alunos não podem vir. Suspendemos as aulas presenciais e aumentamos as aulas virtuais, usando internet e os meios acessíveis. Todo o material didático é disponibilizado no site. Estamos gravando conteúdo, vídeos, fazendo videoaulas ao vivo, para que o calendário acadêmico possa continuar. Inicialmente as aulas iriam voltar dia 15 de março, mas o governo italiano já determinou que só retornará no dia 2 de abril. Mas logo em seguida começa a Semana Santa e aqui interrompemos as aulas. Antes do dia 20 de abril não devemos retomar. Apesar da falta das aulas presenciais, não falta trabalho interno, tem correção de teses, preparação e a produção acadêmica continua. Mas não deixa de ser um desafio para toda a Itália. As famílias tem que estar juntas, com seus filhos, crianças e jovens em casa. E isso é difícil. Por alguns dias ainda se consegue, mas a longo prazo é sempre um desafio. O italiano tem um espírito muito positivo, de conservar o bom humor, ao mesmo tempo vendo toda a seriedade disso.

Com a rapidez do aumento de casos e mortes, e o clima de zona vermelha, isso causou algum tipo de pânico em algum momento?

Houve uma precipitação de algumas pessoas que correram nos supermercados para abastecer suas casas, cozinhas. Parecia um clima prévio a início de uma guerra. Mas não estão faltando produtos. Há apenas um controle de também não aglomerar pessoas nesses locais. É feito um controle de acesso para que não entrem muitas pessoas ao mesmo tempo. Estamos nos adaptando e encarando como um dever cívico. E como cristãos colocando tudo isso nas mãos de Deus. O papa, o bispo de Roma, colocou nas mãos de Nossa Senhora, e convocou para o dia 11 (hoje) um dia de jejum e oração, cada um na sua casa. O pedido é para que Deus possa interceder e reverter, além de sermos solidários aos que estão sofrendo mais, perdendo pessoas queridas ou que estão enfermas por causa desse vírus.

O senhor acredita que a quarentena, considerada uma medida radical e extrema, para todo o país, vai funcionar para os italianos, como, digamos, um exercício de ‘guerra’?

A quarentena imposta pelo governo foi uma medida correta e necessária. No momento a preocupação maior é com o número de leitos insuficientes se o vírus continuar num ritmo alarmante de transmissão que está. É um tipo de doença que no início se assemelha a uma simples gripe, mas logo em seguida a pessoa pode ter necessidade de respirar com auxílio de aparelhos que só se encontram em hospitais. Isso pode criar um colapso na rede hospitalar. Em país nenhum no mundo existiriam leitos suficientes se, de repente, toda a população começa a adoecer. É impressionante quanto médicos, enfermeiros e funcionários da saúde tem se desdobrado 24h e acabam que ficam mais expostos. Em Roma tem 40 médicos de quarentena e alguns hospitalizados por infecção do vírus. Houve casos de mortes entre médicos. Outra preocupação social forte é a população carcerária, que vive concentrada, em ambiente exposto, sem maior proteção para a  saúde. Vamos confiar em Deus e fazer nossa parte, um compromisso de cada um. Se todos colaborarem, mais cedo a crise vai ser controlada. Não é para criar pânico, mas não é para brincar. Não se trata de uma gripe qualquer.

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