08/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Levaram fogão, botija e geladeira, diz fonte do Caprichoso. Bumbá deve R$ 13 mi e prevê receber R$ 8 mi. Conheça o Raio-X

Publicado em 24 de dezembro, 2019

Levaram fogão, botija e geladeira, diz fonte do Caprichoso

Levaram fogão, botija e geladeira, diz fonte do Caprichoso, após Assembleia Geral reveladora do caos administrativo no bumbá. Presidente Jender Lobato (foto) reconhece que azul e branco entrará no Bumbódromo com R$ 2,5 milhões a menos de orçamento que o Garantido

A Assembleia Geral do Caprichoso, prevista em estatuto e com poder deliberativo, descobriu ontem (23/12) o caos administrativo. O presidente Jender Lobato e o Comitê de Crise revelaram que as dívidas do bumbá são de R$ 13,333 milhões. O ex-presidente Babá Tupinambá havia apresentado balanço negativo de R$ 10 milhões. “Apareceram muitos débitos depois da posse da nova diretoria. Só lista de débitos que ele (Babá) deixou no escritório, após a posse, mostra mais R$ 750 mil”, disse uma fonte, que preferiu não se identificar.

O balanço é drástico. “Temos 100% do patrimônio do boi penhorado”, dispara Jender. O presidente, que é advogado, não leva o notebook pessoal para o escritório do bumbá porque teme que entre na penhora.

A Assembleia Geral recebeu essas – e as informações a seguir -, como resultado do trabalho de um Comitê de Crise, criado pela diretoria. O grupo é formado pelos advogados Renalt Lessa e Vítor Lira Góes, Jener Azedo, diretor-financeiro, Diego Leitão, diretor administrativo, Karu Carvalho, vice-presidente, Juciele Cursino, presidente do Conselho Fiscal, Márcio, contador, e Neto Cardoso, advogado, membro do Conselho Fiscal.

O Comitê de Crise ainda apura a compra de um caminhão, usado, de uma empresária chamada Eliana. Parte do pagamento foi feito com depósitos da conta do Caprichoso. Como ficou uma parte pendente, a vendedora foi cobrar a dívida da diretoria atual e acabou revelando o negócio. O caminhão não está com o bumbá e há denúncias de que esteja em uso privado.

“Levaram o fogão, a botija de gás e a geladeira do escritório”, revela a fonte. Ventiladores do curral agora estariam sendo usados no Show Clube Ilha Verde. Jender desconversa: “É verdade que o boi se tornou grande e perdeu controle do patrimônio. Estamos levantando tudo, num trabalho a cargo do Alcinei Vieira”, disse.

 

Marca registrada por empresa privada

A situação é tão grave que, em tempos de mídias sociais, o Caprichoso não é proprietário das suas marcas. O torcedor Alessandro Hayden é o “dono” de Youtube, Twitter, FaceBook, website e Instagram do bumbá. Até a marca Boi Bumbá Caprichoso foi registrada por uma empresa privada.

“O boi não é mais uma brincadeira. Só é brincadeira no curral e na arena. Fora disso é muito sério. Vamos fazer um Festival da superação. Quero transparência na gestão porque aqui tudo era obscuro. Todo mundo ia para a assembleia muito melindrado e eu acabei com isso. Todos podem falar e ninguém corta microfone de ninguém. Um contabilista ou um pescador, sócios-fundadores do boi, precisa entender o que a gente falar”, disse Jender, após a assembleia.

 

Previsão de receita e obrigações

O Caprichoso chegou a receber, em 2015, cerca de R$ 14,8 milhões de receita anual. Foi um recorde. Em 2016, ano em que o ex-governador José Melo cortou a verba para o Festival de Parintins, recebeu mais de R$ 8 milhões. Em 2017 foram cerca de R$ 6 milhões. O ano de 2018 trouxe R$ 10 milhões brutos e sobraram R$ 8,9 milhões. Em 2020, o orçamento líquido, aprovado em Assembleia, é de R$ 8,4 milhões. “A expectativa é que a gente cresça R$ 1 milhão porque cresceu o Festival e aumentou o interesse dos patrocinadores. Quero pagar R$ 2 milhões de dívidas em 2020 e R$ 6 milhões em três anos”, diz Jender.

“Pagamento” não significa, necessariamente, desembolso. “Há R$ 3,5 milhões que devemos à Receita Federal e, negociando, espero reduzir para R$ 2,6 milhões”, diz o presidente.

Uma decisão fundamental para o Caprichoso: “Vamos mudar o Estatuto, a lei máxima do boi. Quero criar Obrigações Estatutárias. O presidente, por exemplo, será obrigado a pagar percentuais da dívida, para zerar débitos em oito anos”, afirma o atual dirigente.

 

Menos dinheiro que o Garantido

Os problemas se acumulam. Jender revela que folha de pagamento do setor artístico era de R$ 3,4 milhões. “Teremos que reduzi-la para R$ 2,8 milhões a R$ 3 milhões”, disse. “Vamos entrar no Bumbódromo, este ano, com R$ 2,5 milhões a menos, em relação ao contrário”, diz o presidente. Tudo por conta das dívidas acumuladas.

Jender conta que tomou posse no dia 31/08 deste ano e no dia 02/09 o galpão central, o principal do bumbá, seria leiloado. A dívida, com a empresária Ana Paula Perrone, era de R$ 480 mil. A diretoria renegociou o débito para R$ 390 mil. “A maior parte disso foi de multa trabalhista. O bumbá fez uma negociação e não pagou o combinado, gerando essa multa”, revela.

Os funcionários da Escolhinha de Artes não tiveram INSS e FGTS depositados. Nem receberam 13º salário ou férias. Todos trabalhadores do local, revelador de talentos para o Festival de Parintins, de 2017, 2018 e 2019, entraram na Justiça. “O débito com ex-funcionários chega a R$ 5,7 milhões”, reconhece Jender.

Débitos com Amazonas Energia, Saae (água), Receita Federal e trabalhistas foram majorados. Uns por falta de pagamento e outros porque o bumbá foi julgado à revelia. “A prestação de contas falava em R$ 179 mil devidos à Amazonas Energia. A gente descobriu que eram R$ 376 mil”, diz a fonte. A energia do curral Zeca Xibelão chegou a ser cortada, numa humilhação que nunca havia ocorrido.

 

Dinheiro adiantado

Há mais. Babá Tupinambá teria recebido R$ 350 mil referentes aos ingressos e R$ 280 mil da TV, adiantados, dias antes de sair. A loja do Caprichoso tem “proprietário” que usa prédio físico e vende produtos do boi sem pagar aluguel. O ex-presidente recebeu R$ 10 milhões de dívidas e entregou os R$ 13,3 milhões revelados ontem.

O bar do Bumbódromo, uma mina de ouro, é vendido a ridículos R$ 30 mil e este ano, com concorrência, o bumbá cobrará R$ 50 mil. O buffet, outra mina, só que de diamante, paga R$ 60 mil e o bumbá cobrará R$ 90 mil. Três bares do curral rendiam R$ 10 mil de aluguel e só um deles, negociado agora, paga R$ 25 mil.

 

Perspectivas

Uma empresa de cama, mesa e banho e outras três se mostram dispostas a comercializar camisas com a marca do boi. Um departamento de marketing profissional, formado por Dernando Reis e Bosco Rezende, está trabalhando. Já fechou, por exemplo, parceria com a Info Store para permuta de computadores e som.

 

Veja, abaixo, o quadro demonstrativo das dívidas do Caprichoso

Levaram fogão, botija e geladeira, diz fonte do Caprichoso

 

Resposta de Babá Tupinambá: ‘Caprichoso parecia leproso’

Babá Tupinambá emitiu, em grupos de WhatsApp, resposta à enxurrada de críticas. Disse que recebeu o Caprichoso com R$ 10 milhões de dívidas. “Entreguei com R$ 7 milhões e (o valor) voltou a aumentar devido às dívidas trabalhistas”, afirma.

O ex-presidente afirma que ser presidente do bumbá, quando assumiu, era “suicídio total” porque o Caprichoso “parecia um ser leproso”. E reconhece que sua forma de administrar é “louca”.

Veja a íntegra do texto que ele distribuiu. Colocamos parágrafos, para melhorar a compreensão. Mas o português é inteiramente por conta dele:

“Bom dia Parintins, torcedores e sócios do boi caprichoso!

Só pra entenderem a prestação de contas que do boi, eu recebi o boi em 2016 com mais de R$ 10 milhões de dívida, que não foram feitas na nossa gestão, e agora querem jogar como esse débito foi feito todo na nossa administração. Não adianta eu falar alguma coisa, que quem é contra vai falar o que quiser, mais vou tentar explicar.

Entreguei o boi com 7 milhões de débito, diminuindo a dívida em 3 milhões e voltou a aumentar devido o nao pagamento da dívida trabalhista. Mas como eu falei não adianta eu me explicar que os contra nunca vao querer entender.

Quando me candidatei a presidência do boi caprichoso em 2016 eu já sabia dos desafios que m esperavam. Fiz minha campanha sem apoio político e indicação de ninguem, apenas com a ajuda e dedicação de pessoas que na época acreditavam nos nossos ideais.

Tudo pq naquele ano ser presidente de boi era suicídio total.

Quantas vezes ouvi dos próprios ex-presidentes que diziam: não te mete nessa briga, esse festival está falido, e de fato estava, todos sabiam que o patrocinador master tinha se retirado na época contraindo para os bois uma dívida de 2 milhões com o não repasse do convênio.

Com isso apenas eu e João Vinicius nos candidatamos ao cargo já que o boi nessa época parecia um ser “leproso” ninguém queria se encostar.

Ganhei a eleição e em meu discurso de Vitória falei: “Eu como presidente prometo me empenhar, m dedicar sol a sol e principalmente resgatar o respeito perdido do nosso Boi CAPRICHOSO.

Com isso vieram obras, dvds, valorização dos sócios, reformulação no modelo de apresentação na arena, promoções e ações durante “O ano inteiro” ou seja sem parar… e consequentemente o que nunca havíamos prometido: o título com propriedade no primeiro ano de mandato o q pra muitos era impossível.

Com isso resgatamos a auto estima e prestígio não só do boi caprichoso mas como do festival folclórico, com as nossas ações. Não percebia que cada ação nossa causava uma reação aos presidentes do contrário que preferiam presidir em calmaria ao contrário de mim.

Apesar de termos perdidos diversos patrocinadores como Petrobras, Eletrobras em 2017 e Correios nesse ano trouxemos novos turistas e investidores ao nosso festival devido a minha maneira “louca de eu administrar.

Esse ano pela primeira vez os nossos ingressos foram esgotados antes dos ingressos do contrário, resultado: recorde de público no festival!!

Então quero dizer para as pessoas que hoje estão me crucificando por minhas ações saibam q tudo isso fiz por amor ao boi e ao festival, tivemos nossos erros tivemos sim e se diga de passagem foram muitos, pq quando vc é presidente vc presidi com o coração ou a razão e eu em muitas vezes fui pela coração e a paixão.

Finalizo dizendo: nunca precisei justificar as minhas não ações por causa dos problemas que o nosso boi muito tem, fiz totalmente o contrário: falei quase nada e trabalhei incansávelmente. Hoje espero que quem esteja no meu lugar faça o melhor, mas não só em discurso e sim prática.”

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