28/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

‘Terra, nosso corpo, nosso espírito’ é o tema do Caprichoso em 2020

Publicado em 10 de novembro, 2019

“Terra, nosso corpo, nosso espírito” é o tema do Boi Caprichoso para o ano de 2020, lançado na noite deste sábado (9), após uma festa apoteótica realizada no curral Zeca Xibelão, em Parintins (município distante 372 quilômetros de Manaus ).

O lançamento do tema iniciou por volta das 21h. Itens oficiais como Cunhã-Poranga, Porta Estandarte, Pajé, Marujada, Levantador de Toadas, dentre outros, estiveram presentes no evento, que deu o pontapé inicial para o festival de 2020 do boi azul e branco.

O ponto alto da festa foi a apresentação do videoclipe que mostra a miscigenação do povo em diversas raças, origens, culturas e costumes, representando o tema do Boi “Terra, nosso corpo, nosso espírito”.

Da escolha

Em agosto de 2019, mulheres de mais de 130 povos de diferentes etnias reuniram-se em Brasília, em torno da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas com o intuito de lutar contra as mais diversas formas de violação ao seu território, usurpado pela ação de gananciosos em busca de riqueza e poder.

Com elas, mulheres de diversos países engrossaram o coro, tornando o canto de resistência das “mulheres amazônidas” um manifesto mundial. “A terra está doente”, dizem elas, e junto à terra adoecem também a fauna, a flora, as tradições, os mitos, as cosmologias e os símbolos dos povos e comunidades tradicionais.

A luta dessas mulheres é, também, a luta dos homens indígenas, é a luta do Davi Kopenawa, do Raoni, do Ailton Krenak, do Daniel Munduruku, da Francisca, do Ajuricaba, do Maroaga e de tantos outros. É também a luta de quilombolas, ribeirinhos, pescadores, de homens e mulheres do campo, das águas e das cidades. É a luta do folclore, da arte cabocla, da cultura parintinense, da tacacazeira, das benzedeiras e do sacaca.

São fazeres e saberes que estão sendo ameaçados, vilipendiados, cerceados. Os povos estão vendo suas heranças serem interrompidas, aquilo que foi transmitido de pai para filho, de mãe para filha, tem se tornado cada vez mais um misto de cinza e pó. A luta pela terra, portanto, é a luta pelo lugar de fala e pertencimento dos povos e comunidades tradicionais da Amazônia.

“Pensar a Amazônia é pensar em planetariedade. É pensar que Amazônia não é um território, um espaço geográfico isolado. A uma ligação muito grande climática, geográfica, cultural da Amazônia com todo planeta terra. Então, a proposta do Caprichoso não é pensar a Amazônia como território isolado, mas um Terri do mundo, um tempo território importante. A uma ligação importante entre a ancestralidade, uma teia de conexões. Nós Amazônidas, não temos apenas essa matriz indígena, mas sim uma teia cultural. Pensar “terra, nosso corpo, nosso espírito”, é pensar numa luta de cura, de espaço de um povo doente e que pode ser curado. Não apenas de cura material, mais espiritual, da busca de novos conhecimentos que o planeta terra vem buscando”, diz Erick Nakanome.

​Mas o Boi Caprichoso não apenas adere ao manifesto como também amplia essa luta, abraçando os povos de todas as nações que, cada vez mais, são movidos compulsoriamente por fluxos migratórios e apartados de suas próprias tradições por força da ação predatória do homem e de sua vaidade, loucos em suas verdades e sedentos em suas aspirações. Que terras mais estão sendo negadas àqueles que a ela pertencem?

​Segundo o Caprichoso, o boi quer com o tema “Terra: nosso corpo, nosso espírito” promover um grande “embate” contra a destruição da terra, contra a extinção de seu bioma, contra as queimadas, contra o envenenamento dos rios, contra a pesca predatória, o roubo dos minerais, das águas, o assassinato de lideranças indígenas e o feminicídio nas aldeias.

Em “Terra: nosso corpo, nosso espírito”, o boi diz buscar promover um levante dos mitos e lendas da região, do folclore e da cultura popular, onde sua dramatização na arena se configure num plano de resistência, num “movimento de cura” da terra.

Uma dramaturgia rica onde, em três noites, serão apresentados estes movimentos de cura desta terra doente. “E essa cura somente é possível através da resistência e da celebração de suas culturas. O Caprichoso não se exime da realidade e, através da arte cabocla, azul, e encorajados pelo ímpeto e pela força de sua galera é que lançaremos um brado de resistência ao mundo”.

“É a luta por nossa identidade. Uma identidade Caprichoso. Afinal, é lutando por aquilo que é nosso que mostramos aquilo que nós somos”.

Veja o vídeo 

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Texto: David Batista
Carlos Alexandre

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