29/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O charme, a sutileza e a perfeição do trabalho das mulheres do galpão

Publicado em 28 de junho, 2019

O charme, a sutileza e a perfeição do trabalho das mulheres do galpão

O charme, a sutileza e a perfeição do trabalho das mulheres do galpão. Aqui, Katiane Ribeiro Azevedo 38, mãe de uma menina, que aos 14 anos foi uma das que quebrou o tabu de que somente homens poderiam trabalhar nos galpões. Fotos: Peta Cid

Texto e fotos: Peta Cid

Ousadas e convictas de que a arte também se faz por mãos femininas, mulheres parintinenses metem a mão na massa, na tinta, na cola, sujam as unhas, criam calos, mas comemoram o espaço conquistado nos QGs dos bois Caprichoso e Garantido.

O toque feminino definitivamente é cada vez mais requisitado para dar às alegorias charme e leveza, especialmente quando se trata das estruturas de composição e apresentações dos itens individuais.

O charme

Há pelo menos duas décadas, sempre na etapa final dos trabalhos nos galpões, mais mulheres dividem com os homens os serviços de ajudantes de artista, auxiliares de galpão, aderecistas, coordenadoras de materiais, além do serviço de costura, a especialidade delas.

Apesar do número reduzido, as artistas são presença obrigatória emprestando elegância e bom gosto na tarefa de decorar alegorias, colar adereços e até fazer pastelagem, se necessário, para concluir os acabamentos.

A maquiagem discreta nos olhos e a sobrancelha bem feita harmonizam com o sorriso da Katiane Ribeiro Azevedo 38, mãe de uma menina, que aos 14 anos foi uma das que quebrou o tabu de que somente homens poderiam trabalhar nos galpões. Elas dão o toque de charme ao boi.

Quebrando tabu

“Comecei no Garantido, fiquei 15 anos por lá e a gente acaba quebrando um tabu, mas é valorizada no trabalho, ganha respeito. Aqui no Caprichoso já são 5 anos e a experiência é inovadora, me faz forte, ajudo em tudo, na administração da equipe, nos adereços, na pastelagem, topo tudo. Estou aqui para o que der e vier e se precisar empurro alegoria pra colocar o boi na arena”, relata.

A visão de respeito mútuo é confirmada pelo Ailton Fonseca, 16 anos trabalhando nos galpões, além do charme feminino. “A Katiane é a única mulher trabalhando na esquipe do artista Juscelino Ribeiro e todos confiam muito nela. São 13 homens e ela é quem resolve tudo, faz de tudo um pouco e não deixa faltar material para o nosso trabalho”, afirma.

Ângela Mourão vibra com a oportunidade de colocar em prática os ensinamentos

Experiência

Contratada pela primeira vez para a equipe do artista Glaucivan Oliveira, a acadêmica de Artes Visuais da Universidade Federal do Amazonas, Ângela Mourão Ramos, 29, vibra com a oportunidade de colocar em prática os ensinamentos. É uma experiência fantástica na área que eu gosto, estou me formando em Artes Visuais pela Ufam e fico maravilhada com o processo artístico que é feito aqui”, resume.

A falta de oportunidade de emprego motiva a maioria a encarar a nova função, sem contar a vontade de ajudar o boi a conquistar o título. “Além de ajudar na renda, estamos conquistando um espaço antes só dedicado aos homens. Na verdade é uma troca de experiência”, diz Roberta Moraes Vasconcelos, 30, que está feliz com a possibilidade de ajudar o Boi Caprichoso a conquistar o tricampeonato.

“Já são dois meses aqui, estou adorando, dá um pouco de trabalho, mas a sensação é inexplicável. A gente decora, pinta, pastela, faz de tudo um pouco, mas o importante é ver o nosso trabalho brilhar com a alegoria linda na arena”, ressalta.

Roberta Vasconcelos está feliz com a possibilidade de ajudar o Boi Caprichoso a conquistar o tricampeonato

Novata

Em outro ponto do galpão, a Eliene da Silva Farias, 24, é também uma novata que afirma estar gostando do trabalho, apesar do forte calor.

Um patrimônio do Garantido é a aderecista Maria Andrade Costa, 64, carinhosamente chamada de Maria Guerreira ou a Maria Fogueteira, personagem que alegra os galpões do Garantido.

“Já perdi da conta de quanto tempo estou aqui, sou do tempo do Lindolfo Monteverde. Por aqui já vivi muita coisa, muito cheiro forte de cola, muito calo nas mãos, sangue derramado pelo chão, ladrão que rouba meus ferrinhos que eu junto, tudo isso eu enfrento”, brinca.

O charme: Maria Guerreira é um verdadeiro patrimônio do Garantido

Povão

Maria diz que mesmo com as mãos calejadas está satisfeita com os anos de trabalho, mas quer ver o boi do povão campeão. “Esse ano vai ganhar se Deus quiser”, avisa. Com o trabalho finalizando, ela diz que vai sobrar um tempinho para uma manicure e um batom bonito, antes de começar o serviço em outra festa, a dos boizinhos.

Outra história de doação ao Festival Folclórico é Cirene Prestes Barros, 58, que começou no boi Caprichoso com 14 anos, no QG da casa da costureira Ednelza Cid.

Cirene começou no boi Caprichoso com 14 anos, no QG da casa da costureira Ednelza Cid, mas migrou para o encarnado

Artesã

A artesã brincou no boi, se dedicou no curral do seo Luizinho Pereira da travessa Cordovil, foi para os galpões de alegorias e nos últimos seis anos se destaca no Garantido, na equipe dos artistas Wandir Santos e Jair Mendes .

“Fui uma das pioneiras, eu no Caprichoso, a Maria e a Carmem no Garantido. As mulheres eram discriminadas, mas hoje somos valorizadas. Eu ganhei tanto espaço que já trabalho há dez anos para uma escola de samba em São Paulo”, afirma.

Cirene não é uma artesã qualquer. Por seus cabelos longos e traços indígenas, ela representou por vários anos personagens como a rainha da selva, rainha das tribos e foi a primeira porta-estandarte do Caprichoso a ser fantasiada de índia. Cirene tecia a suas próprias fantasias e aprendeu de tudo um pouco.

Keise trabalha com pastelagem, revestimento e decoração há 11 anos no galpão

Galpão

Keise Godinho tem 11 anos no galpão do Garantido e afirma que o trabalho é cansativo, mas gratificante, principalmente quando as estruturas que vão para o Bumbódromo são destacadas pelo bom acabamento.

“Eu trabalho com pastelagem, revestimento e decoração. A diretoria do boi é exigente e eu também não admito falhas. É o jeito sutil da mulher trabalhar, sempre buscando a perfeição. E eu faço de tudo, comigo não tempo ruim”, diz abrindo um sorriso.

Ocupando espaço na área do palco da Cidade Garantido em razão da grandiosidade dos módulos, a costureira do vermelho, Elizabeth Farias, 40, fica feliz com o trabalho que executa, mas acredita que ainda é preciso valorizar mais a mulher. Ela sugere que uma mulher tem a mesma capacidade do homem para coordenar uma alegoria.

Criatividade

“A mesma criatividade que o homem tem, nós temos. Hoje são dois homens no comando de cada equipe, então poderia ser um homem e uma mulher”, diz convicta a costureira que trabalha ao lado da irmã, a aderecista France Mery Farias, 39.

O resultado do trabalho harmonioso nos galpões é a valorização da mulher. Juntos, homens e mulheres tem uma só cor e brigam por uma causa única que é a vitória do boi, seja Caprichoso, ou Garantido. Os preconceitos e a “fama ruim” por estarem no meio de muitos homens ficaram no passado. Hoje, a realidade é outra e o respeito foi conquistado.

Elizabeth e a irmã France: “a mesma criatividade que o homem tem, nós temos”

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