Nós, seres humanos, gostamos do que nos faz bem, é claro. O nosso cérebro, para economizar energia, dizem, descarta o que não é do nosso agrado e não considera o que ignoramos. Na letargia da paixão, mesmo ouvir o que, teoricamente, interessa é um problema.
Por essa premissa, é compreensível a reação que se viu ontem em todas as mídias. Os nossos cérebros amazônicos foram tomados de profunda revolta com o que disse o Ministro Paulo Guedes em entrevista à Globo News.
Mas o que disse Paulo Guedes? Nada, absolutamente nada que não tenha dito ao longo de toda a campanha eleitoral, sempre referendado pelo então candidato Jair Bolsonaro. “Vamos baixar a escandalosa carga tributária, grave obstáculo ao crescimento do país”. “Vamos chegar a 20%”. O espelho era, o sempre citado, sucesso da economia americana, onde Trump adotou essa medida. Esse discurso foi aprovado pela sociedade brasileira nas urnas, inclusive pelo Amazonas. Para cumprir a promessa, a equipe econômica trabalha tendo como norte, os fundamentos do “liberalismo econômico” que pregou na campanha: estado mínimo, serviços essenciais, baixa carga tributária, livre comércio etc.
O modelo ZFM, como se sabe, sustenta-se da isenção total ou parcial de impostos. Quanto maiores os impostos, mais competitivo será o nosso PIM. Reduzir os tributos, como quer Paulo Guedes e o Brasil aprovou, é letal ao nosso modelo. Neste caso, o que é bom para o Brasil, não o é à Zona Franca. A recíproca é verdadeira.
Tudo estava muito claro desde sempre. Qual a surpresa? Não entendi. A hora de combatê-lo já passou. Tem pelo menos um ano de atraso. Agora é tarde. É certo que o programa vitorioso não sofrerá retrocessos. É o que o país deseja e aprovou. O sensato nesse momento é encarar a realidade e tentar construir saídas. Usufruir do modelo sempre foi o único objetivo. Afinal a ZFM estava imune. Foi parar na Constituição e para completar estava assegurada até 2073. Preocupar-se só mesmo com eventuais ataques. Adaptá-la à nova realidade mundial, era preocupação de poucos.
Essa postura, sempre foi reforçada pelos decantados “slogans”: “a ZFM foi o único modelo de desenvolvimento que deu certo”; “a ZFM é responsável por preservar 98% da floresta”. Não adiantaram os alertas. Os apelos pelas alternativas econômicas disponíveis, não vingaram. Nem mesmo a revolução tecnológica nos preocupou. O claro definhamento do modelo muito menos.
O nosso negócio é a ZF. Ela produz riqueza suficiente para satisfazer nossas necessidades. Dos criatórios de Roraima e Rondônia vem o peixe. O frango sai do Sul para atender até mesmo as longínquas regiões dos altos rios. Do mesmo modo, o arroz, o feijão e até cheiro verde. Afinal não podemos perder o nosso bem definido foco.
A neurociência explica: A ZFM nos “imunizou cognitivamente”. Não adianta. “Imunização Cognitiva” é a mesma doença que ataca as esquerdas. Nada que seja contra o que foi fixado no imaginário convence. Sequer é considerado. O exemplo está aí: “Lula é um inocente. É vítima de um golpe” e tantas outras conhecidas aberrações.
A esquerda quer soltar Lula, um comprovado culpado e nós queremos condenar Paulo Guedes, um inocente: “Vamos chamá-lo para o debate e provar a viabilidade do modelo (?)”. “Não conhece o potencial desenvolvimentista da ZFM”. “Vamos entrar no STF contra a intenção de Paulo Guedes de acabar com a ZFM. Com a ajuda de Lewandowski a vitória é certa(?)”. Como seria essa ação? A minha ignorância não me permite alcançar. Que direito foi violado? Seria para impedir o país de usufruir daquilo que mais quer e precisa: reduzir impostos?
Valho-me aqui, da sapiência do economista e empresário Jaime Benchimol. Em fevereiro, ao ser confrontado com o quadro atual, concluiu: “Ou mudamos a postura ou seremos condenados a fracassar entre cinco e dez anos”. Avalia que a ZFM encolhe 50% nesse espaço de tempo. Temos que encontrar alternativas que nos recusamos procurar ao longo de 50 anos.
Paulo Guedes acredita que só ao final desse governo a carga tributária cai para 30%. É impossível reduzi-la, como é o objetivo, de 36 para 20% imediatamente. O país quebraria. Antes são necessários incontáveis ajustes e muitas reformas para tornar o Brasil capaz de competir com o resto do mundo.
Nos resta algum tempo. Quem sabe se o “carrasco” Paulo Guedes seja o de que mais precisamos. A vacina contra a tal “imunização cognitiva”.
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