“O meu povo padece por falta de conhecimento”, disse Deus no livro de Oséias, capítulo 4, versículo 6. Decerto Ele estava falando da falta de conhecimento da palavra viva. No entanto, podemos adaptar a frase, extrair a raiz principio lógica e dizer que sem conhecimento (tecnológico) o povo também padece de fome, sede e toda sorte de infortúnios, inclusive sendo vítima de crimes.
Um dos graves problemas hoje enfrentado pela segurança pública no Brasil é a nova forma de cometimento de crimes por meio da internet. Muitas vezes, os delitos são cometidos sem que o criminoso sequer esteja presente fisicamente no Estado onde se consumou o delito, utilizando-se, somente, de um aparelho celular, um chip falso e um pacote de dados.
Tem sido comum as vítimas “fecharem negócio” com somas expressivas de dinheiro sem ao menos terem visto o infrator, mas apenas uma foto qualquer enviada pelo delinquente, baixada da internet. Normalmente, o criminoso convence a vítima a transferir, de maneira fracionada, parte do dinheiro em contas diversas, sendo sacado em uma conta vinculada a outro Estado.
Criminosos, percebendo essa vulnerabilidade, têm focado em pessoas de mais idade e que não possuem conhecimento tecnológico. Um exemplo que tem sido recorrente é o criminoso pegar na internet a foto de uma pessoa importante (normalmente do exterior) e começar a seduzir algumas senhoras, convencendo-as da oportunidade de lucro.
Inventam que possuem uma mercadoria que chegará ao Brasil e que, para isso, precisam de alguém com o perfil da vítima para administrar o negócio. Porém, durante as semanas de conversa (após ganhar a confiança da vítima) consegue convencê-la a fazer um depósito em uma conta e, assim, liberar um contêiner supostamente apreendido no porto, onde dentro estaria não só o dinheiro da vítima utilizado para pagamento da liberação da mercadoria, mas também todo o dinheiro referente ao negócio que seria administrado pela vítima.
Essas pessoas, esperançosas de que se trata de uma oportunidade de trabalho, acabam, não raras vezes, pedindo dinheiro emprestado para efetuarem a transferência dos valores. Dias depois descobrem que foram vítimas de um golpe. Mas o cerne da questão é que facilmente, com pouco conhecimento tecnológico, poderia se descobrir que se tratava de uma falcatrua, apenas com a foto enviada pelo infrator. E não precisa ser Bill Gates para descobrir isso, pois o procedimento de análise é rápido e fácil.
No Brasil, segundo o IBGE, 40% das pessoas não sabem sequer utilizar a internet. Assim, necessário se faz, antes mesmo da inclusão digital, que sejam implementadas políticas públicas de alfabetização digital. De nada adianta o acesso à internet se não há o mínimo de conhecimento das possibilidades fornecidas pelo mundo cibernético. Pelo contrário, conforme foi demonstrado, a exposição, sem conhecimento, do mundo virtual, deixa a pessoa em situação de extrema vulnerabilidade.
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* Guilherme Torres é Delegado de Polícia. Titular da Delegacia Especializada em Roubos, Furtos ...