20/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O contágio social como mola propulsora para o crescimento vertiginoso das facções criminosas nos presídios

Publicado em 26 de novembro, 2018

“O contágio social domina várias áreas da nossa vida, frequentemente sem que tenhamos consciência disso.” Foi o que concluíram estudiosos do comportamento humano, o sociólogo Nicholas Christakis, da Universidade de Havard, em Boston, e o especialista em ciências políticas James H. Fowler, da Universidade da Califórnia em Sam Diego.

Em artigo intitulado “cegueira nacional e o prélio ideológico” asseveramos que o homem é um ser social e que a vida em sociedade é, portanto, uma condição humana, um instinto de sobrevivência.

Afirmamos, ainda, naquela oportunidade, que o Primeiro Comando da Capital – P.C.C, criado no ano de 1993, no Estado de São Paulo, após o episódio conhecido como “Massacre do Carandiru”, instituindo leis próprias e códigos de conduta, reforçava a ideia de que o homem necessitava, repise-se, por extinto de sobrevivência, se unir em grupo social, basta verificar os primeiros itens do estatuto da facção, onde informa que a luta é por lealdade, respeito, solidariedade, liberdade, justiça, paz e união contras as injustiças e opressão de dentro dos presídios.

Como se nota, há uma microssociedade dentro do sistema prisional, com ideais consolidados e atraentes para aqueles que se sentem excluídos e oprimidos pelo Estado. Por esse motivo que se percebe um crescimento vertiginoso de jovens no crime.

Os jovens da periferia, por exemplo, vislumbram a possibilidade de ascensão social, de uma vida de riqueza e poder, além de se sentirem pertencentes à uma família que irá oferecer a proteção e as condições de sobrevivência que não tiveram na macrossociedade, em razão da ausência de implementação de políticas públicas.

Porém, não é só: pesquisadores estão convencidos de que em redes sociais (as microssociedades dos presídios, no caso) os sentimentos se espalham segundo uma regularidade matemática. O que uma pessoa pensa ou sente esta ligado diretamente àquelas pessoas que ela mantém mais contato. Aqui, nesse ponto, reside a raiz do problema.

Sabemos que os presídios, no Brasil, são dominados por facções que, como já afirmado acima, possuem regras e ideais próprios. Assim, o contágio social daquele grupo certamente envolverá qualquer preso que for levado ao cárcere, ainda que não pertença à facção. Daí a necessidade de, urgentemente, se cumprir a lei de execução penal pela divisão dos presos por tipo de crime e jamais por facção.

A conclusão, portanto, é óbvia: colocar um preso que não pertence ao crime organizado em um presídio dividido e dominado por facções é o mesmo que enviá-lo ao comando da facção para ser recrutado, seja por extinto de sobrevivência, seja por contágio social.

Os pesquisadores concluíram, também, que as redes sociais influenciam, igualmente, em nossas decisões, pois frequentemente assumimos o ponto de vista das pessoas que estão mais próximas. Exatamente por esse motivo que os chefões nas cadeias conseguem influenciar os membros, tornando-os soldados do crime.

Não bastasse isso, psicólogos acreditam que em uma microssociedade o objetivo dos seus membros é provar que pensam, sentem e agem da mesma forma que os outros. Isso fortalece a identidade daquele pequeno grupo e, ainda, reforça a aceitação e pertencimento do membro. Isso explicaria, por exemplo, os homicídios em série e a guerra entre as facções.

Um fator assustador e ainda mais grave é o fato de que o efeito do contágio social nos jovens é extremamente alto, pois um membro do grupo quase sempre faz aquilo que a maioria sugere. Isso ficou provado no estudo Add-Health, um dos maiores levantamentos sobre o efeito das redes sociais. Agora imagine o contágio social seguido de uma ameaça dos demais membros da facção, determinando que o novo membro realize uma tarefa.

Arrisco dizer, sem medo de errar, que o contágio vai para quase 100% (cem por cento) dos casos. Ademais, segundo a última estatística do Departamento Penitenciário Nacional, 55% (cinquenta e cinco por cento), da população carcerária brasileira está entre os jovens de 18 a 29 anos.

Portanto, lutamos contra as consequências, mas raramente paramos para pensar sobre as causas. Precisamos tomar as rédeas do Sistema Prisional, dividir os presos por individualização da pena, restringir ao máximo o contato entre os membros das facções e, em conjunto, desarticular a ideologia astuciosa professada pelos líderes das organizações criminosas à população carcerária e aos jovens. Só há uma forma: rigor no controle dos presídios e investimento pesado em educação.

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Autor
Delegado Guilherme Torres

* Guilherme Torres é Delegado de Polícia. Titular da Delegacia Especializada em Roubos, Furtos ...

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