No programa “O Brasil que eu quero”, educação, corrupção, saúde e segurança foram unanimidades. Embora a corrupção seja revoltante, nada é mais danoso ao país do que a má qualidade da educação. Ela trava os avanços da cidadania, destrói a competitividade, provoca prejuízos incalculáveis à Nação e condena os mais pobres a saírem perdendo na maratona da vida desde a largada.
Há anos a culpa recai na falta de recursos. Analisando dados da Organização para a Cooperação ao Desenvolvimento Econômico (OCDE), cujos membros são os 35 países mais bem avaliados em educação no mundo, é possível inferir que o problema brasileiro é resultado de extraordinário equívoco intelectual, senão vejamos: a) esses países da OCDE gastam, em média, 5,6% do PIB em educação; b) o Brasil segue o mesmo patamar de 5,6% e, dependendo da fonte, pode chegar a 6,1% do PIB. Emparelhados nos gastos e abissal distância os separa nos resultados, como mostram os diversos rankings internacionais.
As razões aparecem na aplicação dos recursos. A OCDE gasta três vezes mais por aluno do ensino básico do que o Brasil, que gasta o triplo dos recursos com alunos do ensino superior. É do senso comum, que nada se sustenta em cima de bases fracas, axioma que as nossas autoridades parecem não acreditar, pois concentram os recursos na cobertura.
O ensino brasileiro desde sempre teve problema. No início e até meados do século passado, apresentava razoável desempenho, estribado no elitismo, entre outras razões. Em meados dos anos 1990 e inícios dos anos 2000 foram esboçadas políticas que encaminhavam melhorias no longo prazo, correta atitude, mas de efeito eleitoral duvidoso no curto prazo, portanto, não atenderia ao populismo recém empossado.
Exemplos não faltam. Grande parte dos estados, sob os aplausos da população, criou a sua própria universidade. Na mesma direção em 2005 o país inaugurou o programa “Universidades para Todos” e, via FIES, estimulou uma rede de faculdades de baixíssimo nível, onde, frouxos exames validam o acesso de despreparados jovens. Uma espécie de aperfeiçoamento do analfabetismo funcional desde o ensino básico.
São atalhos a esconder a incompetência para resolver o problema, que se sabe estar no ensino básico. Essa incompetência ao juntar-se à sanha da perpetuação no poder, consolidam as excrescências rumo ao objetivo. Se existir dúvida, veja-se o período eleitoral, quando tais “excrescências”, mencionadas a exaustão, viram plataforma política de sucesso. Assim, preso a era do populismo, o Brasil viu passar as eras da informação, do conhecimento e agora, despreparado, enfrenta dificuldades de posicionar-se na era da inteligência artificial, expressão maior da alta tecnologia, no momento.
O ensino superior, como diz o próprio nome, não é para todos. É superior. Há anos os países desenvolvidos o entendem dessa forma e consideram investir na base o caminho para atingir a igualdade de oportunidades, marco maior da sobrevivência com dignidade. Conquistar o ensino superior vai depender do talento e esforço de cada um. É a receita da própria seleção da espécie, dai os rigorosos exames de seleção.
No caso brasileiro é dever investir pesadamente no ensino médio, sobretudo, para corrigir a mais perversa e brutal contradição da educação brasileira. Os pobres estudam nas deficientes escolas públicas do ensino básico. Já os que podem pagam caras mensalidades à escola particular de qualidade, privilégio do qual se valem para disputar, com larga vantagem, as vagas das universidades públicas, teoricamente de melhor qualidade, onde estudarão gratuitamente. Uma lógica perversa que aniquila as pretensões dos desafortunados e os faz reféns da sua própria pobreza.
Há anos a qualidade da nossa educação produz cidadãos de segunda categoria que, sem autonomia, fortalecem a cultura do coitadinho de mãos estendidas às sobras da madrasta Nação. Mudar os fundamentos desse sistema, é promover a igualdade de oportunidades em busca da meritocracia, única forma de transferir aos cidadãos a responsabilidade pelas suas escolhas ao longo da vida.
Não vai ser fácil, pois a meritocracia na nossa cultura, não vai além do “puxadinho” das cotas de toda espécie. Uma escolha meramente populista.
Felizmente já se enxerga luz no fim do túnel. O presidente eleito declarou sua prioridade pelo ensino básico, para onde irão a maior parte dos recursos. Há esperanças! Esse é o Brasil que eu quero.
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* Francisco R. Cruz é empresário e trabalhou muitos anos na área de tecnologia e, entre 2001 e 20...