Especulação sociológica

Ao meu escasso leitor já há de se ter deparado, na imprensa, uma notícia encimada pela seguinte manchete: “Assassinato na zona do baixo meretrício”. O que lhe pode ter escapado, talvez, são as implicações decorrentes do adjetivo anteposto ao último substantivo da expressão. É que, partindo do princípio dialético dos contrários, em sendo dado escrever “baixo”, parece razoável supor que, paralelamente, existam o “alto” e, por simples questão de coerência, o “médio”. Teríamos, então, o meretrício dividido em três categorias, não sendo despropositado imaginar que elas estariam vinculadas aos mesmos critérios que ensejam a classificação das classes sociais.

Estaria eu a fazer sociologia de beira de igarapé? É muito provável que sim e minhas escusas se fazem de pronto, pois nunca é de bom alvitre adentrar seara alheia. Os cuidados, em tal mister, devem ser redobrados, ao fito de evitar deslizes que os expertos não perdoariam em nenhuma hipótese. Mas, como estas mal traçadas linhas não se jactam de qualquer pretensão acadêmica, fio estar livre de admoestações mais severas se, a partir da propositura inicial, expuser eu o que me parece razoável sobre o assunto.

Na juventude, única época propícia para as relaxações da espécie, tive eu azo de frequentar casas noturnas que o eufemismo chamaria de “cabarés” e que a linguagem mais popular rotulava simplesmente de “puteiros”. Eram grandes barracões, onde a música, de duvidosa qualidade, se fazia ouvir muitos decibéis acima do recomendado pelas regras da boa audição. A cerveja e o rum abundavam, contribuindo para a formação gradativa dos pares que ou bem se entregavam à dança nada artística no imenso salão ou bem escapavam para os quartos nos fundos, onde, por certo, haveriam de travar “o eterno diálogo de Adão e Eva”.

Seria um ambiente dessa ordem integrante da área do “baixo meretrício”? A intuição, nada além dela, me leva a apostar na resposta negativa. A própria localização dos estabelecimentos favorece tal conclusão. Eram bem distantes do centro da província, sendo indispensável a utilização dos “carros de praça” para a eles ter acesso. Tal circunstância, já se vê, não se amolda às características do estrato inferior da comunidade de que se cuida, pela singela razão de que exigia dispêndio de dinheiro extra.

A resposta também é abonada pela própria imprensa da época que, reiteradamente, colocava a área portuária e adjacências (leia-se Itamaracá, Frei José dos Inocentes e Joaquim Sarmento) como aquelas que retinham as características marcantes do “baixo meretrício” ou, simplesmente, zona. Ali, então, mercadejavam as “operárias do amor” mais desprotegidas, aquelas para quem não há futuro porque simplesmente não têm passado e, apenas, carregam o fardo do presente. Digamos, pois, que os referidos cabarés poderiam ser classificados, cuido que com razoável propriedade, no âmbito do “médio meretrício”.

“Muito bem – dir-me-á o raro e implicante leitor -, você já deu sua opinião sobre onde e como funcionavam o baixo e o médio. E o que me diz do alto”? Mas que crueldade! Como poderia eu, plebeu de carteirinha, ter acesso aos mistérios da aristocracia meretricial (podem adotar o neologismo)? Os leitos de que me recordo recendiam a perfume 1010 (quando muito a Coty), nunca me tendo sido dado o ensejo de me refestelar nos coxins em que se aspira a essência do Chanel número 5.

Não está, portanto, nas habilidades deste pobre escriba satisfazer uma curiosidade desse tipo. Digamos, à guisa de especulação, que o alto, só por sê-lo, é diáfano e de localização imprecisa, assim como o era o Olimpo para os gregos da antiguidade. Talvez lá, também, os deuses e as deusas se entreguem a jogos divinos que só por comiseração podem ser conhecidos da humana gente. Nem creio, aliás, que tal ambiente possa rigorosamente fazer parte do universo de que cuido. Faltar-lhe-ia, acredito, o detalhe pecuniário. Ou não? Talvez não, porque o simples fato de desfrutar do privilégio da abastança não tem o condão de expurgar do ato em si a marca da troca. No final das contas, a essência permanece inalterada, seja a experiência praticada no mísero quarto da traseira do barracão, seja entre macios lençóis de cetim da mais sofisticada suíte.

Acho que descobri a pólvora.

 

Felix Valois

Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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