A engrenagem do crime organizado

“Aquele que estiver em Liberdade, bem estruturado, mas esquecer de contribuir com os irmãos que estão na cadeia, será condenado à morte sem perdão.”

Foi o que disseram, após consagrarem-se vencedores de uma partida de futebol no Pinheirão (Casa de Custódia de Taubaté), integrantes do time batizado de Comando da Capital. Surge, ali, no ano de 1993, os primeiros passos da maior facção criminosa do País, a 15.3.3 (a numeração aponta a posição de cada letra na sigla no alfabeto).

TCE 68 anos

Germinava, naquele momento, aquilo que iria ser a base de todo um sistema que mais tarde abalaria as estruturas da Segurança Pública: a cebola (taxa paga pelos membros das facções ao comando).

O Primeiro Comando da Capital surge discretamente, vendendo aos demais presos a mensagem de que lutaria contra a opressão do sistema. No entanto, era apenas uma das bandeiras levantadas pela facção, que, na verdade, mascarava um plano de domínio sobre todo o sistema prisional nacional, em um curto espaço de tempo.

Os internos perceberam, ainda naquela década, que dominar o sistema prisional era ter em mãos o controle sobre a criminalidade, pois todas as organizações criminosas, com exceção daquelas do colarinho branco, nasceram de dentro do sistema prisional.

Duas principais engrenagens alimentam o fortalecimento das facções: a) a divisão, dentro dos presídios, por facção (e não por individualização da penal); e b) o recolhimento da cebola.

Com o objetivo delimitado das facções, era hora de estabelecer regras, hierarquia e procedimentos. Instituiu-se um comando em cada pavilhão (surge a figura do piloto) e os demais membros passariam a pagar a mensalidade. Mas não é só: traficantes, ladrões e sequestradores que estavam nas ruas enviavam parte do lucro ao comando da facção. O PCC oferecia, também, em contrapartida, ajuda às comunidades carentes e familiares dos presos, alguns até com pagamento de Advogados.

A falsa percepção de solidariedade, aliada à ausência de políticas públicas, fez com que o PCC rapidamente subisse no conceito da “malandragem”, o que ajudou na adesão rápida de vários criminosos. Além do mais, da mesma forma como ocorria na máfia italiana, ser integrante da facção e chamado de irmão era sinônimo de status e poder.

Nossa legislação caminha “a passos de tartaruga” e, com isso, o Sistema de Segurança Pública Nacional vem padecendo frente ao avanço vertiginoso e desenfreado das facções criminosas. Necessário se faz uma reformulação geral da legislação, maior investimento no Sistema Prisional e divisão dos presos por crime e não por facção, tomando-se, com isso, as rédeas dos presídios, sob pena de nossa Pátria perder a guerra contra as organizações criminosas.

Delegado Guilherme Torres

Delegado Guilherme Torres

* Guilherme Torres é delegado e diretor do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO).

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