Sexta-feira, 22 de junho de 2018

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Amor ao invés de machismo e feminismo

João Lago

João Lago

Esta é uma resenha que não gostaria de escrever, pois no mundo que idealizo a violência é um recurso que só acontece na observância de três fatores: 1º) A inexistência (ou impossibilidade) do diálogo e conciliação; 2º) O desequilíbrio das relações com o empoderamento de uma parte em detrimento da outra e; 3º) A completa desesperança na existência de uma segunda via que não seja a violência. Assim, por mais enfadonho que possa parecer, desenvolver este raciocínio não pode ser feito em poucas palavras, pois envolve uma análise de uma revolução silenciosa que não terá reflexos imediatos, mas que no longo prazo pode acirrar ainda mais a violência e propagar injustiças.

Nesta semana que se comemora o dia oito de março, dia internacional da mulher, chegou-me a notícia que uma amiga e ex-colega de trabalho em Brasília foi assassinada pelo marido a tiros e esse logo em seguida também tirou a própria vida. Segundo relato da mãe da vítima publicado na imprensa, o marido tinha brigas com a esposa motivadas por ciúmes e o casal estava em processo de separação. Dessa tragédia duas crianças ainda pequenas vão crescer sem os pais e a família terá a incumbência de atenuar em suas vidas a razão terrível pela qual ambas ficaram órfãs. Este caso, assim como outros, indica que uma mente perturbada pode praticar um crime e não é a existência de uma lei que irá impedi-lo de executá-lo. Aliás, o crime somente é caracterizado a partir da transgressão da lei, e a lei ocorre não de forma profilática, mas como um remédio a doença social instalada. Neste ponto, a lei é uma espada que pesa sobre o indivíduo transgressor do pacto social idealizado por Thomas Hobbes e serve para definir os limites do homem natural, ou seja, aquele que em sua natureza é mau. E é essa natureza má que leva o homem a transgredir e não é a existência da punição que irá frear este instinto, pois se assim fosse, ninguém beberia antes de dirigir ou deixaria de tirar a vida de quem por amor deveria proteger. A lei Maria da Penha sob minha análise é uma dessas leis inócuas para a profilaxia da violência que mata mulheres, pois infelizmente ela não colocará um policial armado 24h vigiando a mulher e a mente doentia, corroída pelos ciúmes e pelo sentimento de posse encontrará alguma forma de despejar seu desespero.

Lembro-me que em meados dos anos 80 o lema que existiu nas primeiras reações ao crime passional era “quem ama não mata” e desde então a sociedade falhou em criar medidas profiláticas aos crimes passionais, que não deixaram de existir, tão pouco diminuíram a partir da Lei Maria da Penha. Pelo contrário, segundo as recentes estatísticas a violência tem aumentado. Engraçado é que a existência de delegacias especializadas para violência contra a mulher foi justificada no fato que os homens não estariam atentos a ouvir as ocorrências de violência contra as mulheres e, portanto, era necessário que mulheres delegadas fossem designadas para tal. Também, nas varas especializadas de violência doméstica e familiar contra a mulher estão sendo nomeadas juízas, pois essas seriam mais capazes de entender e julgar a violência pela qual sofrem as mulheres. Isto posto, o simples fato de ser homem já nos colocaria como culpados em nossa natureza má tão alardeada por Hobbes? Se homens são parciais quando se trata de violência contra a mulher, o que impede que mulheres também o sejam? Não obstante, eu conheço um caso de um cidadão que viveu décadas com uma mulher e que depois do final do relacionamento e o mesmo vivendo em outra cidade, a mulher, motivada pela disputa patrimonial, seis meses após separados fisicamente foi até uma delegacia especializada e denunciou o marido por agressão sem apresentar nenhuma prova da violência, ou qualquer registro posterior que o enquadrasse como um homem agressivo. Foi somente a palavra dela contra a do marido, mas mesmo assim a mulher obteve as medidas protetivas e as usa como forma de intimidação. O que é bastante grave, haja vista que nesta semana o plenário do Senado concluiu a votação de um texto que estabelece pena de detenção de três meses a dois anos para agressores que desobedecerem medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. Como o texto já havia sido aprovado na câmara dos deputados, o projeto de lei vai agora à sanção presidencial. O problema são as distorções que a lei pode proporcionar no final das relações conjugais quando a mulher valendo-se da presunção de culpa do homem use o aparelho repressor do Estado para vingança pessoal ou qualquer outro sentimento mesquinho. O problema da Lei Maria da Penha é que uma mulher pode avançar em um homem, bater-lhe na cara e o mesmo não terá o benefício dessa lei, o que a faz uma lei parcial. No entanto, por analogia homens podem até pedir medidas protetivas, mas vai depender se o juiz (ou juíza) da causa ratificar ao homem o benefício da lei, já que a mesma não se dá de forma compulsória como é o caso quando se trata de mulher.

Outro ponto de inflexão da lei Maria da Penha é que não permite o diálogo e a conciliação, porque da forma como está posta uma mulher pode estar em um relacionamento abusivo, mas se denunciar o companheiro deve estar convicta que será o final da relação, pois sequer pode demonstrar arrependimento e retirar a queixa na delegacia. Portanto, a mulher no desejo de continuar no relacionamento pode até levá-lo para um desfecho trágico sem registrar uma única violência sofrida. Assim, a lei não serve para a proteção e manutenção da relação conjugal, mas sim para sua extinção e isto muitas vezes isto não é o desejo da mulher. O mundo ideal é o qual o casal tivesse na lei um mecanismo alternativo que buscasse resgatar a união e tratar a relação abusiva que afeta ambos, pois não será sempre o homem o único algoz da relação. Ideal seria que a lei disponibilizasse apoio psicológico e grupos de apoio para casais que desejassem superar seus problemas, mas isto não acontece. Como exemplo, algumas religiões não toleram relacionamentos abusivos e oferecem apoio aos casais para que se respeitem por meio de terapias e, principalmente, reforçando valores morais que dão suporte ao casamento: fidelidade, amor, solidariedade e respeito ao papel de cada um na família. Aliás, a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica neste período de quaresma aborda a violência de modo amplo, inclusive a familiar porque a raiz de toda violência reside no fato de não se amar o próximo como a si mesmo.

O terceiro ponto que abordo nesta resenha é a desesperança, ou seja, aquele indivíduo que pela ausência de amor a si próprio e capaz de matar e tirar a própria vida em seguida. Ou mesmo aquele que mata destruindo sua vida para qualquer perspectiva futura, pois é certo que a sociedade não mais tolera o crime passional e o destino de quem o pratica é ser hóspede do sistema carcerário durante um bom tempo. Hoje o meu sentimento é que gostaria de ter oportunidade de conversar com cada homem que se sente justo (ou injustamente) vítima de vilipêndio em uma relação amorosa para dizer-lhe que o sol nascerá no dia seguinte e que todo o sofrimento um dia termina. O tempo sara todas as feridas e o destino talvez reserve um novo amor, uma nova família, um novo lar, um novo caminho cujas únicas bagagens que devam ser carregadas são as boas lembranças que ficaram para trás e que balanço dos erros cometidos seja necessário para não serem reproduzidos novamente. Não se merece ser infeliz duas vezes pelos mesmos motivos.

Um dia penso encontrar pessoas que possam formar grupos de apoio para ajudar outros homens a sair de relacionamentos abusivos, principalmente aqueles que não têm apoio de amigos, não possam contar com a família, tão pouco tenha uma fé para lhes trazer esperança. Alertar a sociedade que a lei Maria da Penha, longe de ser uma solução que traga paz na família, serve da forma que está sendo aplicada para acirrar ainda mais a violência e ser motivo de criminalização compulsória do macho na relação. Afinal, nem todo comportamento de macho é machismo e nem o machismo é comportamento de homem. Comportamento de homem é o cavalheirismo.

Termino reproduzindo uma frase que li na publicação de uma mulher que na rede social lamentou o assassinato dessa minha amiga com a seguinte frase: “Quem deveria proteger, desprotege e pratica uma insanidade dessas”. É justamente isto! O instinto nato do homem deverá ser sempre o de proteção à mulher e muitas vezes proteger significa deixar ir, esquecer as mágoas, perdoar e seguir em frente.

 

* João Lago é professor universitário, mestre em Administração (Estratégica / Marketing), tem 10 anos de experiência em Logística Empresarial em empresas multinacional e de médio porte. É consultor independente em marketing, logística, finanças e custos. Ex-consultor do Sebrae Nacional em Brasília-DF, Unidade de Administração e Finanças. Experiente no terceiro setor na concepção e manutenção de projetos de captação de recursos, incluindo ações de marketing e administração de contratos. Pós-graduação em Controladoria e Finanças pela Fundace – USP Ribeirão Preto, em 2000. Graduado em Administração de Empresas pelo Centro Universitário Moura Lacerda em 1998. Francês fluente, inglês e espanhol avançado e um razoável português.

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