18/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Rodoviários falam grosso com prefeito, ameaçam parar ônibus, mas pedem ajuda para negociar salários. Entenda o transporte coletivo

Publicado em 23 de janeiro, 2018

Rodoviários pedem ajuda do prefeito falando grosso

Rodoviários pedem ajuda do prefeito falando grosso, para obter reajuste salarial, e não hesitam em deixar usuários nas paradas lotadas em dias de paralisação do transporte coletivo de Manaus

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nos Transportes Rodoviários de Manaus (STTRM), Givancir Oliveira, engrossou com o prefeito Arthur Virgílio. Falando em tom duro, durante coletiva, ele deu o prazo de dez dias para Arthur negociar os salários da categoria. Caso o prefeito fracasse, motoristas e cobradores ameaçam paralisar o transporte coletivo em Manaus. “Posso esperar até depois do Carnaval, mas depende da categoria se eles vão parar ou não”, disse o presidente.

O dissídio coletivo 2016-2017 dos rodoviários está na Justiça Trabalhista, desde junho/2017. Venceu em maio/2017. Maio é a data base de motoristas e cobradores. O reajuste pedido pelos rodoviários é de 7% sobre os salários atuais.

Givancir cobrou da Prefeitura o pagamento de R$ 7 milhões, em subsídios atrasados, devidos às empresas de ônibus da cidade. Pediu também uma reunião de prefeito, Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU) e empresários de ônibus.

 

Veja a cronologia do caso, com opinião do portal

Os rodoviários, ano passado, fizeram uma série de paralisações para obter vantagens no dissídio coletivo da categoria. Só até junho/2017 ocorreram 42 paralisações. Eles estavam pressionando tanto pelo dissídio coletivo 2015/2016, quanto pela reeleição da diretoria atual. Greves servem aos propósitos de fazer os diretores parecerem durões e dar a impressão de que tudo fazem na defesa da categoria.

Transferindo obrigação

Prefeito não tem a prerrogativa de intermediar salários de quaisquer das categorias de serviços concedidos pelo Município. No caso dos rodoviários, a obrigação é do Sindicato dos Rodoviários. A diretoria, porém, tem sido hábil em fazer motoristas e cobradores acreditarem que a obrigação é de Arthur.

 

Chantagem política

A principal arma de troca dos irmãos Oliveira, que comandam os rodoviários há anos, é a greve. Quando eles param os ônibus, a população fica toda contra a Prefeitura e o prefeito é obrigado a ceder. A chantagem fica mais dura em ano político, ainda mais quando o chefe do Executivo municipal é candidato. Arthur Virgílio é pré-candidato do PSDB à Presidência da República, na eleição deste ano.

 

Reeleição e greves

Em 2017, com a reeleição de Givancir em jogo, os irmãos Oliveira foram além da conta nas paralisações. Tanto que o juiz do trabalho Adilson Maciel Dantas chegou a determinar prisão de toda a diretoria dos Rodoviários. No dia 8 de junho, finalmente, Givancir foi reeleito. Obteve 2.278 votos contra apenas 116 da chapa concorrente.

 

Salário embutido na tarifa de R$ 3,80. Dissídio 2015/2016

Aí começou outra série de paralisações, agora por conta do dissídio 2015/2016. O acordo estava sob julgamento do Tribunal Superior do Trabalho (TST), mas os irmãos Oliveira preferiram resolver na greve.

O prefeito interveio. Embutiu reajuste salarial de 10% para rodoviários, a partir de março/2017, no reajuste da passagem de ônibus para R$ 3,80. Os empresários toparam porque o reajuste acabou com a dependência deles dos subsídios. Antes, a Prefeitura e o Governo do Estado pagavam a diferença entre o preço real e o das catracas. As empresas tinham que esperar pela boa vontade de prefeito e governador para receber a diferença. O então governador José Melo, por exemplo, simplesmente resolveu não pagar. A Prefeitura foi obrigada a cobrir diferenças.

 

Dissídio 2016/2017, o comum-acordo

Paz no transporte coletivo, após o reajuste salarial de 10% e a reeleição de Givancir? Nada. Os irmãos Oliveira haviam acertado que só discutiriam salários novamente em janeiro/2018.

Alguns dias depois, porém, paralisação nos ônibus novamente. O que houve? Eles queriam agora que os empresários assinassem o “comum acordo” no dissídio 2016/2017. O que é isso? Empresários e rodoviários dão carta branca ao TRT-AM para julgar o dissídio. Da decisão não cabe recurso. Os donos de empresas resistiram até o fim, mas foram pressionados pela greve – e pelo prefeito – a assinar.

Os irmãos Oliveira, que haviam embutido o pedido de 7% de reajuste salarial imediatos, levaram fácil o comum-acordo. A discussão salarial ficou para janeiro/2018.

 

Frota de ônibus, subsídios e discussão do dissídio

Os irmãos Oliveira sabem que não podem mais botar o peito na frente das paralisações. Têm, no lugar disso, vários lugares-tenentes, que fazem as mobilizações que eles ordenam. Na hora em que o pau canta nas garagens, com piquetes e pneus furados, dirigentes estão em sítios, bem escondidos.

O que eles querem com o atual movimento? Chegou a hora de cobrar o reajuste prometido pelo prefeito para janeiro.

Ocorre que havia várias coisas interligadas, para que a Prefeitura concedesse novo reajuste de tarifa. Isso ocorreria numa espécie de “data base tarifária”, em janeiro.

Os empresários teriam que trazer 300 ônibus novos, todos com ar-condicionado. Trouxeram apenas 40, sem ar.

Havia R$ 7 milhões, do subsídio que lastreava a passagem anterior, pendentes de pagamento pela Prefeitura aos empresários. Não foram pagos. As empresas passaram a usar isso para justificar atrasos salariais. E os irmãos Oliveira como razão para novas paralisações.

 

Filme se repete e só o usuário de ônibus sofre

O prefeito, quando soltou o vídeo dizendo que tinha “bala na agulha” para enfrentar rodoviários e empresários de ônibus, tem razão. Mas os outros lados são especialistas em pressão.

A solução mais rápida é fácil é a Justiça do Trabalho cumprir o papel dela e julgar o dissídio. Ponto final.

Os irmãos Oliveira e os empresários de ônibus, sem o julgamento, vão esticar a corda além do limite. As empresas querem novo reajuste de tarifa. Os rodoviários reajuste salarial.

Rodoviários e empresários têm interesses convergentes. Não é estranho que Givancir tenha “cobrado” os R$ 7 milhões devidos pela Prefeitura aos empresários? O dinheiro não é para as empresas? O que tem a ver o Sindicato dos Rodoviários, teoricamente, com isso?

A Prefeitura diverge de ambos. A popularidade do prefeito Arthur Virgílio foi seriamente afetada pelo reajuste que elevou a tarifa para R$ 3,80. Novo reajuste agora, sem contrapartida de melhoria do transporte coletivo, seria um suicídio político.

O pior, em tudo isso, é que rodoviários e empresários sabem se defender. Muito bem. Mas e a população? Serve apenas de massa de manobra. Sofre nas paradas quando os ônibus não saem das garagens. Perde emprego, consulta médica, viagem, cirurgia e tudo o mais que dependa de deslocamento.

Alguém precisa parar a falta de escrúpulos. O prefeito Arthur Virgílio parece ter atingido o limite. Rodoviários e empresários vão acabar tornando-o “o cara” a enfrentar o desafio.

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