Quarta-feira, 23 de maio de 2018

No campo menos clientelismo e mais profissionalismo

João Lago

João Lago

Existe uma previsão do Banco Mundial que até o final deste Século aproximadamente 70% da população global estará vivendo em grandes aglomerados urbanos e não é preciso dizer que para viver em qualquer grande cidade é necessário ter sempre dinheiro a mão, ao contrário de viver no campo. É porque ainda reside a ideia que a vida rural pode ainda proporcionar uma família viver com uma produção de subsistência e gerar renda comercializando eventuais excedentes no mercado local. Porém, também é verdade que o esvaziamento da população rural decorre dos grandes latifúndios produtivos que já não precisam de tanta mão de obra devido à mecanização do campo, nos quais máquinas agrícolas sofisticadas e caras substituem a força humana. Neste cenário, também com a mecanização e profissionalização do trabalho rural, a própria cultura de subsistência fica limitada em preço e capacidade de produção e não tem força para competir com a produção do grande latifúndio. Os maiores entraves estão no financiamento, especialização e logística.

O governo federal, por meio dos bancos públicos, busca dar acesso ao crédito rural para financiar a produção do pequeno produtor fomentando a agricultura familiar, ao mesmo tempo em que cria no produtor uma dependência da disponibilidade de uma boa saúde financeira estatal para que as verbas possam chegar. A má notícia é que vivemos um período em que as necessidades tornaram-se ainda mais ilimitadas e os recursos ainda mais escassos e em época de cobertor curto é certo que o contingenciamento de verbas públicas afetará toda a cadeia produtiva. No entanto, não é só a perspectiva de falta de financiamento que aflige o pequeno produtor. Enquanto o grande produtor aumenta em expertise no seu negócio, tanto que o termo mais correto para denominá-lo é “agro business”, o produtor rural familiar ainda dependente da força humana e da complacência da natureza em proporcionar-lhe dias luminosos, muita chuva para irrigar a lavoura e sorte para livrar-se das pragas da lavoura. Ainda que se possa contar com alguma assistência técnica agrícola, outro fator pode concorrer para o fracasso é a pouca experiência do produtor na cultura, ou até mesmo a baixa instrução que traz a reboque a dificuldade de leitura e estudo que poderiam auxiliá-lo em assimilar novas técnicas e vencer a falta de experiência. Aqui podemos fazer uma severa crítica ao aliciamento que determinados movimentos campesinos fazem para a ocupação rural quando percorrem as periferias de cidades recrutando gente para invadir terras. Gente que não tem qualquer vocação para o trabalho no campo recebe um lote de terra, eventualmente dinheiro público, mas desiste de produzir antes de completar três anos de posse da terra. No final, vendem a propriedade e retornam a periferia das cidades, ou continuam no movimento campesino em um ciclo de ocupação e venda da propriedade como “sem terras profissionais”. Porém, ainda que se tenha certo sucesso na produção os problemas não terminam. O próximo entrave é a logística que corresponde transportar e comercializar a produção nos grandes centros consumidores e isso tanto afeta o grande produtor quanto o pequeno, sendo a precariedade das rodovias, a falta de entrepostos para armazenagem e a garantia de preço mínimo para o produtor, problemas ainda longe de serem solucionados.

Ficar somente na crítica não ajuda o debate e levando em consideração a importância do agronegócio para o Brasil, algumas medidas já deveriam estar consolidadas no campo. A mais urgente é fortalecer e fiscalizar o associativismo, principalmente para o pequeno produtor, pois isso permite uma política produtiva baseada em “cluster” que fomenta o compartilhamento de bens, máquinas e fortalece o poder de barganha na comercialização.  Em relação ao processo educacional, o produtor deve profissionalizar-se em sua atividade evitando o amadorismo. Neste aspecto, da capacitação profissional, levar escolas agrícolas e a extensão universitária para o campo com a finalidade de inovar, aumentar a produção e a qualidade. Não tem sentido manter nas capitais escolas de agronomia e veterinária longe do campo e sem conexão com o produtor rural. Ainda não devemos esquecer que o empreendedorismo também deve ser ensinado, porque toda atividade econômica não pode prescindir de saber empreender.

Finalizando, é inegável a força econômica do agronegócio e naturalmente, o Brasil com uma imensa vocação agrícola, não faltariam parceiros para financiar e lucrar com essa atividade e o produtor não  necessitaria permanecer cliente de verbas vindas do suor dos impostos dos brasileiros. Tenho convicção que a sociedade não aceita a distribuição de dinheiro à fundo perdido aos aventureiros arrivistas, sem qualquer sintonia com a vida rural, muitos deles de má-fé ou aliciados por movimentos maoistas rurais com a promessa de terra e de dinheiro fácil.

Aos governos os produtores esperam boas estradas, portos e linhas férreas que possam levar a produção até os centros consumidores, também a viabilização da comercialização nos grandes centros, principalmente para a agricultura familiar, de grandes feiras de atacado e varejo. Muitas dessas infraestruturas já existem, precisando somente uma gestão honesta, competente e profissionalizada.

 

* João Lago é professor universitário, mestre em Administração (Estratégica / Marketing), tem 10 anos de experiência em Logística Empresarial em empresas multinacional e de médio porte. É consultor independente em marketing, logística, finanças e custos. Ex-consultor do Sebrae Nacional em Brasília-DF, Unidade de Administração e Finanças. Experiente no terceiro setor na concepção e manutenção de projetos de captação de recursos, incluindo ações de marketing e administração de contratos. Pós-graduação em Controladoria e Finanças pela Fundace – USP Ribeirão Preto, em 2000. Graduado em Administração de Empresas pelo Centro Universitário Moura Lacerda em 1998. Francês fluente, inglês e espanhol avançado e um razoável português.

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