
O cinegrafista de Gustavo Lima mostrou como cresceu a cidade flutuante de Coari
Por Islânia Lima
O cantor Gustavo Lima, um dos maiores cachês do atual show business brasileiro, foi contratado por R$ 390 mil para cantar na quarta-feira (02/08), na grande festa dos 85 anos da cidade de Coari (a 363 quilômetros de Manaus), mas deixou um resultado inesperado. Enquanto os fogos de artifício estouravam pela cidade e o cantor preparava o gogó para a apresentação da noite, o cinegrafista de Gustavo, Samuel Augusto, despejava no Instagram fotografia mostrando uma cidade flutuante invadindo o rio, dando a impressão, para quem não conhece, que a imagem reflete a cidade inteira.
A realidade de Coari na segurança pública, apesar da festança de aniversário, é ainda mais dura. Roubos, assaltos a mão armada, guerra entre facções criminosas e o povo no fogo cruzado. Trinta e três assassinatos foram registrados entre janeiro a julho deste ano e mais de 4 mil boletins de ocorrências lavrados no mesmo período, de acordo com informações da Polícia Militar. A morte do cantor Melvino de Jesus Júnior, líder da Júnior & Banda, segundo a polícia, ocorreu porque ele foi confundido com um traficante de Coari, conhecido como “Vitão”, que ficou tão rico que estava criando ramificações em Codajás, tornando-se alvo de traficantes locais.
O aniversário, além de Gustavo Lima e banda, ofereceu prêmios caros para as vencedoras do concurso Miss Coari, incluindo motos e um carro zero. O aeroporto assistiu a uma revoada de aviões fretados, levando visitantes amigos do grupo político do prefeito atual, Adail Filho, e seu pai, o ex-prefeito cassado Adail Pinheiro. Ao mesmo tempo, segundo fotografias que chegaram ao portal, o cemitério sofria vandalismo.
A realidade de Coari podia ser outra porque os royalties do gás e petróleo extraídos na bacia do rio Urucu ultrapassam 100 milhões, anualmente, mesmo com os hidrocarbonetos em baixa no mercado internacional. A cidade já foi uma das maiores produtoras de banana do Estado, na década de 1990. É, sem dúvida, mais rica do interior do Amazonas, mas sofre pela falta de infraestrutura e investimentos que melhorem a vida dos coarienses, campeando o desemprego, a insegurança e problemas na saúde pública.
O major Pedro Moreira, há pouco mais de dois meses comandante da Polícia Militar de Coari, conta que comanda um efetivo de apenas 40 soldados. Este número divide-se entre o trabalho interno e o patrulhamento da cidade. Ele explicou que durante a festa, ocorrida na noite de quarta (02/08), foram registrados apenas roubos. “Tivemos algumas ações, dias antes da festa, para justamente garantir a paz durante o evento”, acrescenta.
O delegado informou que, de janeiro a julho deste ano, em Coari foram apreendidas 70 armas de fogo e mais de uma tonelada de drogas, durante operações policiais. “O judiciário precisa ser mais firme com os presos, pois o maior problema da cidade é o tráfico. Por outra via, a prefeitura precisa asfaltar, iluminar as ruas para que haja mais segurança para a população e permita a entrada de viaturas”, sugere.
Para uma comerciante, que preferiu não ter o nome identificado, a situação da cidade é de total preocupação. Só este ano, o comércio dela já foi assaltado três vezes. “Sabemos que o problema é social. A polícia prende, a justiça solta, mas é preciso que haja mais investimentos na cidade para que os índices de crimes diminuam”, enfatiza.
Trabalhando com um efetivo de apenas três pessoas, entre escrivães e investigadores, o delegado da Polícia Civil de Coari, José Barradas Junior, afirma que há conflito no Município entre duas facções criminosas. Ele explica que dos 33 homicídios ocorridos na cidade, desde janeiro, 90% têm a ver com a guerra do tráfico.
No comando da Civil em Coari há aproximadamente uma semana, José Barradas conta que encontrou a delegacia abandonada, sem manutenção e que busca apoio do poder público para “arrumar a casa”. Além disso, o tráfico chega pelos rios amazônicos, onde não existe fiscalização. “Aqui é muito fácil a entrada de armamento e drogas, pois vem pelo Maraã, diretamente da Colômbia, rota certa de traficantes”, explica.
O delegado afirma que é preciso ter todo apoio, em todos os seguimentos públicos, para que haja mais segurança na cidade. Os roubos e furtos, ele atribui aos soldados do tráfico que realizam os assaltos para sustentar o comércio de drogas na cidade.
O povo de Coari, em suma, segue vivendo dias de terror, em oposição à glória do que antes era uma cidade pacata do rio Solimões.

Fotos mostram que o cemitério de Coari sofreu vandalismo, no dia do aniversário da cidade
A repórter entrou em contato com o secretário Municipal de Comunicação de Coari, Marcos André, para solicitar a posição da Prefeitura, porém não houve qualquer retorno, até esta publicação.
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