Não sei se foi astúcia, arrogância, petulância ou pegadinha – ou todas juntas – a sugestão levada pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao presidente interino Michel Temer, de ampliar a carga horária no Brasil das atuais 44 horas para 80 horas. Seria como reimplantar no país o regime de escravidão. Seria nos igualar a países com cargas desumanas de trabalho, onde não sobraria tempo para mais nada, somente para doar suor e sangue às elites empregadoras.
Que o presidente interino não provoque em mim o arrependimento de querer tanto o Impeachment e, a contragosto, sentir saudades de Dilma. Sabemos, porém, que Temer está muito inclinado a levar avante ideias de assessores mais próximos (muitos dos quais não possuem votos e outros devidamente monitorados pela Lava Jato) acerca de reformas que não estavam nas propostas da chapa Dilma/Temer nas últimas eleições. Isso sim é golpe!
Quando Robson Braga de Andrade da CNI sugeriu que para melhorar a situação do déficit fiscal serão necessárias medidas duras tanto na Previdência Social quanto nas leis trabalhistas, se esquece de que isso seria um golpe baixo e traiçoeiro contra a população brasileira – já tão agredida pelas constantes quebras de contratos e de regras impostas aos trabalhadores.
Nada do que estão tratando foi colocado na plataforma eleitoral da dupla que hoje está separada, mas que ganhou duas eleições sem incluir essas reformas trabalhadas nos gabinetes e sem a menor discussão com os trabalhadores.
Quando o senhor Robson cita a França, dizendo que lá o governo francês tomou decisões com relação às questões trabalhistas sem enviar ao Congresso Nacional, praticamente impôs a Temer que faça o mesmo aqui, passando por cima de tudo. Tremenda atitude ditatorial de quem detem o poder econômico e pensa que ter dinheiro é ter tudo. Agora sei para que serve o pato amarelo da Fiesp e dos empresários: alguém vai “pagar o pato”. E vai ser o trabalhador.
O empresariado apoiou o presidente interino, e agora chegou a conta, amarga, imoral, traiçoeira, desumana e cruel. Enquanto isso, Henrique Meirelles, Eliseu Padilha e os ministros mais próximos ficam enlouquecidos para aprovar essas medidas consideradas antipáticas com extrema rapidez, porque sabem que esse governo tem prazo de validade e pouquíssima popularidade. O risco é que aprovem o que querem, sem discussão, apenas porque possuem, ainda, maioria no Congresso.
Quando os trabalhadores começam a sua vida laboral estão submetidos às regras vigentes no país. Sem serem os culpados por desvios de verbas, superfaturamento de obras e materiais, malversação do dinheiro público e conchavos, má gestão e prejuízos decorrentes de péssimos administradores levados ao poder por eleitores irresponsáveis, os trabalhadores ficam a mercê de uma verdadeira quebra de contrato, já pertinho da aposentadoria. Milhares são prejudicados. A última reforma da previdência e a PEC da previdência mostraram isso num passado recente.
Quais foram os fatores de aumento desordenado das despesas? O que causou o desequilíbrio das contas públicas? Onde foi aplicado esse dinheiro? Quem o consumiu? Por qual ralo escoaram recursos tão valiosos para a sociedade brasileira?
Ora! É fácil dar palpites partindo para a opressão sobre a parte mais fraca: o trabalhador, lembrando que sempre é mais fácil atender aos poderosos, como já vimos nas reduções do IPI para automóveis, linha branca e móveis, fazendo a alegria desses setores – que hoje vivem a ressaca da crise – e a tristeza dos brasileiros endividados.
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* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.