Particularmente, esperava que coisas mais relevantes ficassem para o Brasil após as realizações da Copa e das Olimpíadas. A esperança e o otimismo foram lentamente dando lugar à decepção, à frustração, até porque grande parcela da população brasileira – a parte que pensa – já não quer mais pão e circo. Queremos um Brasil funcionando e os impostos pagos sendo devolvidos na igual medida.
Colocando de lado a empolgação, vejamos o que sobrou de troco para o povo após a Copa: muitas obras prometidas e que sequer saíram do papel, obras suntuosas com alto custo nas manutenções e pouco utilizadas, a pobreza aumentando na medida em que nos distanciamos dos locais dos eventos, ou seja, pouca coisa foi feita longe dos ambientes de alta concentração.
Dívidas se acumularam e os escândalos nos revelam que não vale a pena se empolgar tanto, quando na verdade os 7 que levamos da Alemanha e os 3 da Holanda repercutem até hoje, seja na educação, segurança, saneamento e saúde pública.
Lembro da festa popular, alimentada pelo populismo, quando se anunciou o Brasil para sediar a Copa, e o Rio para as Olimpíadas. Duvido que hoje – quando caiu a ficha – o brasileiro em sã consciência festejaria tanto, até porque as contas estão chegando e o povo deverá pagar pelas obras superfaturadas, com comprovação em andamento.
Hoje, um país enfraquecido ainda tem que receber, num Estado endividado e falido, os jogos olímpicos. Compromisso é compromisso. Logo, mesmo que as pessoas estejam morrendo a tiro nas ruas, ou nas portas de hospitais sem leitos, medicamentos ou médicos, o Rio ainda se orgulha de ser sede desse evento, que hoje provoca reflexão. Vale a pena gastar tanto?
A decretação de estado de calamidade pública para arrancar dinheiro do Governo Federal abre um perigoso precedente, até porque os demais Estados também possuem o mesmo direito. Imaginem o quanto seria precioso para a população carente ter os quase 3 bilhões de reais que irão para o Rio aplicados exclusivamente no combate ao mosquito que nos infecta, ou para imunizar a população contra a gripe H1N1.
Pra completar, sem o menor pudor, sem ao menos demonstrar que está imbuído do propósito de evitar gastos desnecessários, se descobre que o mesmo governo do Rio faz cotação de preços incluindo frutas caras e cortes nobres de carne que jamais estarão na mesa do povão.
A lista custaria R$ 361 mil aos combalidos cofres do estado, incluindo salmão, robalo, picanha e filé, sem falar nas framboesas (orçadas em R$ 9 mil), nas cápsulas de café expresso, orçadas em quase R$ 51 mil, e no damasco seco. Francisco Dornelles, o mesmo que decretou a calamidade, alegou desconhecer a tal lista.
Em época de crise, com tanta gente sofrendo na pele as consequências dos cortes, é impossível não observar os exageros do revezamento da tocha. Aqui, onde até as argolas olímpicas viraram atração, circula na net que “a tocha” poderia se candidatar que ganharia, pois por onde passa as coisas acontecem: a cidade fica limpa, as ruas sem buracos, os monumentos restaurados, tudo iluminado (menos a ponte do Rio Negro), o policiamento reforçado, para não dar nada errado no seu percurso.
Para a nossa infelicidade, desnecessária foi a exposição da onça Juma nesse evento, lamentando profundamente o seu sacrifício, cuja notícia correu o mundo e grudou em nós de forma extremamente negativa. Não se trata aqui de discutir se foi fatalidade ou falha humana, muito menos valorizar mais a vida do animal em detrimento da do ser humano. Lamenta-se a perda de uma vida, perfeitamente evitável.
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* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.