O “politicamente correto” no Brasil está ganhando contornos que se apresentam cada vez mais surrealistas. Para mim, que de nada entendo, parece tratar-se de uma tendência que busca impor doses cavalares de “civilização” à sociedade, sem que se leve em conta o verdadeiro estado de saúde da “paciente”. Não se faz a anamnese, não se requisitam exames de laboratório, mas se decide, assim mesmo, pela aplicação de medicamentos, que são ministrados a mancheias, com o doente apertando uma chave e fechando o nariz, qual como acontecia com os purgantes contra vermes que, na infância, nos eram empurrados goela abaixo. Dá para imaginar o sabor e o cheiro da mistura de mamona com quinopódio.
Temos as bolsas. E quantas! Bolsa família, bolsa miséria, bolsa universidade. São tantas e tantos os beneficiários que os excluídos do simpático processo já pensam em se organizar no MSB, sigla a significar o Movimento dos Sem Bolsa, o qual, na onda do impulso cívico que assola a Nação, vai exigir nas ruas, com bandeiras e galhardetes, a urgente e firme atuação dos governos para resolver o lamentável imbróglio. Há de ser criada, então, a bolsa dos sem bolsa, de tal maneira que mais uma considerável parcela do povo se veja integrada ao grande programa de recuperação social da gente brasileira.
Os menores de dezoito anos não cometem crimes por isso que a eles está reservada a prática de atos infracionais. A diferença, sutil é verdade, está em que os maiores podem ser presos, enquanto a juventude é somente apreendida. O destino de presos e apreendidos também varia, que é preciso manter o mínimo de coerência na lógica do sistema. Assim é que os primeiros vão dar com os costados nos presídios, enquanto os últimos são encaminhados para os abrigos. Aí se dá o fechamento do circuito, com a incidência do ponto comum: presídios e abrigos são meros depósitos de gente e a sua utilidade tem sido a mesma das conclusões a que chegou o último congresso teológico em que o tema central de discussão foi o sexo dos anjos.
Sabedores da importância da educação para o desenvolvimento, os governos, todos sem exceção, pelo menos nos últimos tempos, têm dedicado especial atenção ao assunto. Afinal de contas, o saber é imprescindível para que um ser humano possa sentir que é diferente da ameba. Botemos, portanto, as crianças nas escolas e exijamos o maior dos aproveitamentos a partir desse esforço. Mas eis que surge um problema, que precisa ser equacionado. Por maior que tenha sido a dedicação, muitos alunos não conseguem demonstrar um aprendizado satisfatório. Está, portanto, em risco todo um programa de governo.
O toque de genialidade é, então, enxertado, e os críticos apressados se veem no dever de demonstrar a mesma surpresa da história do ovo de Colombo. A solução encontrada foi, de fato e sem dúvida, oriunda de inteligência superior: se reprovar um aluno, porque ele aprendeu pouco ou nada, compromete o excelente programa governamental, acabemos com as reprovações. Entrou, passou. Exibido o certificado de aprovação, será impossível para os descontentes eternos imputar qualquer falha ao sistema educacional. Temos resultados.
E como temos! Ainda pululam nas páginas dos jornais as notícias sobre a chegada dos médicos estrangeiros, que para aqui estão vindo a fim de dar cumprimento a mais essa iniciativa do governo federal. Vão para o interior, dizem, e lá hão de suprir uma lacuna secular, atendendo a populações, cujo único recurso medicamentoso é a erva cidreira, substituída, em suas faltas e impedimentos, pelo capim santo.
Os doutores vão ser integrados ao Sistema Único de Saúde, o que há de lhes favorecer em muito o diligente exercício da medicina. É que alcançamos níveis espetaculares nesse campo específico. Atendida pelo SUS, uma pessoa consegue realizar a incrível proeza de dialogar com o mal que a aflige, dando-lhe comandos que causam espanto pelo ineditismo. Assim, por exemplo, se o médico atendente afirma que só pode dar um diagnóstico seguro depois de determinado exame radiológico ou laboratorial, o paciente, de maneira pura, simples e singela, determina à doença que ela fique paralisada por seis meses até que ele consiga agendar e realizar o tal exame.
Lindo, não é? E nem pensar em criticar o funcionamento desse moderno mecanismo. Será politicamente incorreto porque o crítico em questão estará apenas discriminando a massa trabalhadora que, por não ser portadora de preconceitos pequeno-burgueses, não se importa de optar livremente pela excelente saúde pública posta à sua disposição.
Como até no futebol já existe gol mais politicamente correto do que outro, como é o caso do que é feito no campo do adversário, tenho para mim que necessito urgentemente de me inscrever no MSB para ver se consigo superar a defasagem imperdoável que constato na minha pobre educação.
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Marcos Santos é radialista e jornalista. Começou em rádio, narrando futebol, aos 12 anos, na Rádi...