21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Arapongagem externa e externa

Publicado em 19 de setembro, 2013

Estamos a nos queixar amargamente da bisbilhotice americana. Com razão, sem dúvida, porque é muita cara de pau os gringos irem ouvir conversas e lerem e-mails da dona Dilma Roussef, enquanto, entre outros esforços, a gentil senhora luta tenazmente para que todos se convençam de chamá-la “presidenta”. Questão de preferência, é certo, mas eu nunca vi nenhuma bancária fazer questão de ser chamada “gerenta”, assim como a doutora Flávia Grosso, que por anos dirigiu com proficiência a Suframa, jamais foi ofendida com o título de “superintendenta”.

Afastadas essas firulas de alta indagação semântica, resta a evidência da intromissão indevida dos Estados Unidos na vida pessoal da dirigente (ou seria “dirigenta”?) de um país soberano. E aí é que o busílis se complica porque a vocação xerifal do “colosso do norte” parece não encontrar limites, nem conhecer padrões de razoabilidade. O egocentrismo americano é algo que escapa aos míseros conhecimentos deste escrevinhador e que talvez pudesse ser objeto de algum trabalho científico, baseado na doutrina freudiana ou, pelo menos, na de seu aluno e contestador Jung.

Não que isso tenha algum sabor de novidade. Perde-se na noite dos tempos a origem da mania ianque de se intrometer nos assuntos internos dos outros. Antes de 1991, o pretexto era o combate ao comunismo. Como “o ouro de Moscou” se incumbia supostamente de divulgar o marxismo pelo mundo, os americanos tinham como ponto de honra impedir o que lhes parecia uma catástrofe e, a partir daí, patrocinaram as mais cruentas ditaduras. Na América Latina todos ainda temos na memória o regime de Pinochet que violentou milhões de chilenos, enquanto aqui mesmo, nesta Terra de Santa Cruz, os militares inventaram o DOI-Codi e o SNI, criando as bases instrumentais de um regime de torturas que não faria vergonha aos sonhos mais avançados de Torquemada. Isso para não falar na invasão militar direta e desabrida como aconteceu em Granada.

Mas a guerra fria foi superada, depois que os russos deliberaram jogar para o lixo a grande oportunidade de criar um regime solidário e justo. Renderam-se ao capitalismo mais selvagem e, com isso, afastaram a justificativa ideológica que embasava o comportamento americano. Mas eis senão quando as Torres Gêmeas são destruídas e a privilegiada inteligência de Bush Junior passou a ver terrorismo em qualquer pessoa barbada ou de burca. Ler o Corão virou sintoma da mais alta periculosidade e o ser humano que o faz tem que necessariamente estar vinculado a alguma organização terrorista, dessas que atam bombas nos corpos de seus adeptos e os mandam explodir meio mundo.

Aí invadiram o Iraque, enforcaram Saddam Hussein e agora se preparam para fazer o mesmo com a Síria, restando saber quem será premiado com o laço do carrasco nessa nova incursão civilizatória que os Estados Unidos planejam abertamente, com apoio de seus tradicionais aliados europeus. Até autorização legislativa está sendo solicitada, enquanto Barack Obama suja sua biografia aderindo a mais esse arreganho imperialista. De Bush a Barack, parece que os “bês” americanos só servem mesmo para fazer rima com “costa”.

Já se vê que, para quem assim age, é fichinha instalar uma escuta telefônica ou acionar a arapongagem para esmiuçar correspondência eletrônica, mesmo que se trate de um Chefe de Estado. Dir-se-ia que é apenas a operacionalização de um complicado sistema, cujos objetivos maiores estão além da compreensão do chamado grande público.

Parece, porém, que a voraz xeretagem americana poderá servir para que internamente façamos um balanço e uma autocrítica da atuação de nossas instituições no que diz respeito à privacidade alheia. Fui encontrar um texto publicado há pouco mais de cinco anos no sítio da Conjur e confesso que voltei a ficar abismado. Naquela época se achava instalada a CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas. “De janeiro a dezembro de 2007, a PF fez 48.262 interceptações telefônicas autorizadas judicialmente. Isso representa pouco mais de 11% do total de 409 mil grampos autorizados feitos no país no ano passado”, diz o texto.

É pouco? Então veja mais esta: “Os dados das telefônicas alarmaram os deputados da CPI. Para o presidente da comissão, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), com esses números divulgados em março, fica a impressão de que primeiro a Polícia manda grampear o telefone, para depois começar as investigações. Já o relator da CPI considera que um país com tantas ligações interceptadas não consegue garantir o direito à privacidade”.

Não esqueçamos de que isso foi há mais de um lustro. Dá para imaginar o crescimento vertiginoso desse processo de intromissão do Estado na vida dos cidadãos. Não queremos dona Dilma vigiada, seja por quem for. Mas convenhamos que nosso telhado tem pelo menos uma parte de vidro e não é muito propício a receber pedradas.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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