O Amazonas passou a conhecer o que era paternalismo governamental a partir da década dos anos cinquenta da última centúria, com a ascensão do trabalhismo varguista, que substituiu o dueto PSD/UDN. No plano nacional, esse malefício já se apresentava há muito mais tempo, oriundo da política implantada por Getúlio Vargas, quer em ambiente formalmente democrático, quer nos períodos ditatoriais, que não foram escassos nos governos do caudilho.
A ditadura militar, que se autoconsiderava acima do bem e do mal, pouca atenção dedicou ao assunto. Como o respeito às leis era questão de somenos, os governantes do período optaram pela megalomania, misturando obras faraônicas com a mais cruel repressão àqueles que ousassem pensar de forma diferente. E vinte e um anos se passaram com o céu do pensamento e da liberdade totalmente encoberto por nuvens de chumbo
Restaurada parcialmente a normalidade, José Sarney cumpriu tempo de serviço, eis que a Nação teve que se conformar com a morte de Tancredo Neves que, embora eleito de forma indireta, conseguia enfeixar as esperanças de uma nova era.
Promulgada a Constituição de 1988, o Estado Democrático de Direito, nas suas bases burguesas, inicia efetivamente a nova trajetória do País, restaurando-se as eleições diretas e consagrando-se os direitos políticos e sociais como cláusulas pétreas da Carta.
Fernando Collor não soube honrar o lugar que a História lhe conferiu de ter sido o primeiro presidente da República eleito pelo voto direto, depois da ditadura. Desandou-se com a Casa da Dinda e com PC Farias, sofrendo um vergonhoso impeachment, que o mandou mais cedo para casa, até seu glorioso retorno ao Senado, ungido pelo voto dos alagoanos.
Itamar Franco inaugura um novo estilo e se dedica a colocar em ordem a economia, assolada por uma hiperinflação, até obter sucesso completo com a implantação do Plano Real, orientada e dirigida por seu Ministro da Fazenda, que era o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso. No governo deste, o neoliberalismo teve campo livre para se fixar e se expandir, através de uma política que privilegiou o capitalismo financeiro. Foi a época das privatizações a mancheias, com o aumento astronômico das fortunas de uns poucos privilegiados, relegando-se a segundo plano o enfrentamento das questões sociais.
Era o caldo de cultura que faltava para alimentar o cadinho em que se forjava o PT. Seu líder, operário calejado nas lutas sindicais e vítima, ele próprio, da repressão ditatorial, logrou empolgar as massas, derrotando nas urnas ninguém menos do que Leonel Brizolla, patriota da melhor estirpe. E assim tiveram início os últimos dez anos em que o paternalismo e o populismo dos anos cinquenta voltaram com energias revigoradas e redobradas.
A educação foi esquecida, o que não deve causar nenhuma surpresa se considerarmos que o novo governante era quase um analfabeto funcional e se gabava de dizer que “ler é chato”. Mas proliferaram as “bolsas”, infernal mecanismo por via do qual o governo, olvidando o enfrentamento realista dos problemas nacionais, vai remendando aqui e ali, tudo sob a proclamação altissonante de que se busca a extirpação da miséria. E foi um tal de “bolsa família”, “bolsa comida”, “bolsa minha casa, minha vida”, a ponto de se pensar, aqui no Amazonas, na instituição do “bolsa farinha”, depois que o produto atingiu níveis de preços capazes de competir com uma Ferrari de última geração. Houve, se não estou em equívoco, uma tal de “bolsa floresta”, cujo objetivo é meio turvo: regar plantas ou desmatar.
Anestesiado (com certeza não pelo SUS, que se tornou um flagelo nacional), o povo deu ao líder uma sucessão tranquila e vimos a primeira mulher ascender à Presidência da República. Sexo diferente, mas formação idêntica, a nova governante segurou as rédeas do mais fanático petismo e continuou com a proliferação dos mesmos instrumentos que vão fazendo a delícia dos demagogos de ocasião e mesmo dos profissionais.
Mas a presidenta, como exige ser tratada por seus subalternos a doutora Dilma Roussef, deu um passo adiante nessa pândega nacional. Um de seus assessores, salvo engano do Ministério da Saúde, num lampejo de genialidade, lançou o slogan “Sou feliz sendo prostituta”. Não dá para entender se é humor negro, deboche, insensibilidade ou pura e simples estupidez. Mas uma coisa é certa: trata-se da mais aviltante falta de respeito com as mulheres que, por opção ou necessidade, assim ganham a vida. Francamente, jamais acreditei que veria tanta idiotice.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...