
Treinador dirige o time com energia e faz questão de imprimir marca pessoal. Fotos: Ricardo Oliveira
O técnico Aderbal Lana, do Nacional, aos 67 anos, fez história pela terceira vez no futebol do Amazonas. A primeira foi quando, com a chamada “Máquina azul”, levou o Nacional-AM a bater os grandes do futebol brasileiro, nos Campeonato Nacionais de 85-86-87. Depois, em 1999, ao elevar o São Raimundo, vice-campeão da Série C, à Série B do Campeonato Brasileiro. Nesta quinta-feira, ao vencer o confronto contra o Coritiba, goleando o adversário no primeiro jogo, em Manaus, por 4 a 1, e perdendo o segundo por 1 a 0, em Curitiba, tornou o Nacional a primeira equipe amazonense a chegar à terceira fase da Copa do Brasil.
Lana revela, nesta entrevista, que o Nacional acaba de contratar o centroavante Marcinho, ex-Cruzeiro, e o atacante Michel, ex-Fast. Descansando no CT do time, após viajar 3h de Coritiba para Brasília e depois Manaus, o treinador fala sobre a Série D do Campeonato Brasileiro, onde estreia dia 1º de junho, contra o Náutico-RR, em Boa Vista, e volta a jogar dia 7/05, contra o Plácido de Castro-AC, em Rio Branco. Fala também de como foi a preparação nacionalina para enfrentar e vencer o Coritiba. E afirma que a CBF rasga dinheiro ao não incentivar um time amazonense a entrar nas séries C ou B, acrescentando que a Arena da Amazônia não será jamais um “elefante branco”.
Por fim, sempre polêmico, Aderbal Lana critica os torcedores de Vasco e Flamengo em Manaus, afirmando que nenhum deles é melhor que o Nacional atual. A seguir, a íntegra da entrevista:
blogdomarcossantos – O Nacional está pronto para enfrentar o desafio de resgatar o futebol amazonense?
Aderbal Lana – Ô Marcos, isso aí depende muito não só do Nacional, mas da Federação, de empresários, de tranquilidade aqui dentro para se trabalhar, para que a equipe possa contratar mais alguns trabalhadores e subir da Série D para a Série C. Sem dinheiro, nada se faz. O Nacional tem algum dinheiro, mas você trabalha numa faixa de R$ 10 mil e o jogador bom está na Série A ou na Série B e não vem pra cá, trazer qualidade, se não for pra ganhar um “algo mais”. Essa conquista foi muito importante para o futebol do Amazonas. Espero que as pessoas que põem nome na camisas dos times de fora olhem um pouco melhor para o nosso futebol. Vamos ter bons campos e isso vai dar visibilidade, retorno. O São Raimundo dava por que o Nacional, que é um time maior, não vai dar? Falo também para ver se surge patrocínio para o Princesa, o Penarol e outros times. Só assim, o nosso futebol vai crescer.
Blog – Quais são as posições onde o time ainda precisa ser reforçado?
Lana – Precisa contratar um atacante, um lateral-direito, possivelmente um ou dois zagueiros. São as posições mais carentes. Contratamos um meia ontem, Marcinho, muito bom jogador, que conseguimos tirar do Cruzeiro. Um emissário nos falou aqui que talvez ele não venha, mas eu acho que virá sim. Contratamos também o Michel Parintins, que era do Fast. As coisas estão melhorando.
Blog – Esses jogadores todos entrarão na Copa do Brasil?
Lana – O Michel não. Ele já jogou na competição pelo Fast. Os outros sim. Vamos reforçar o time para a terceira fase da Copa do Brasil, mas, antes disso, tenho dois jogos da Série D, dias 1º e 7 de julho, antes de parar para a Copa das Confederações.
Blog – Dia 1º é contra o Náutico, em Boa Vista (RR), e dia 7 contra o Plácido de Castro, em Rio Branco (AC). Vai ser uma chance boa para experimentar as novas contratações.
Lana – É. Vou aproveitar para experimentar as coisas.
Blog – E esse jogo contra o Princesa, domingo, decisão do Campeonato Estadual? Depois de ter perdido o jogo da vinda, em Manaus, por 3 a 1, dá para reverter?
Lana – Vou pra lá pra ser campeão. Vou pra cima deles. Só se não tiver jeito mesmo, mas nós estamos imbuídos de ir buscar o título.
Blog – Os teus principais jogadores, no elenco atual, são o Danilo Rios e o Felipe?
Lana – A principal arma do Nacional, principalmente na Copa do Brasil, onde jogadores que não atuam no Campeonato Estadual podem jogar, é o sistema de jogo cumprido à risca. Temos um grupo que faz o que tem que fazer dentro de campo. Essa é a força do Nacional na Copa do Brasil.
Blog – Como treinador que sempre estudou muito os adversários, principalmente nos jogos mais decisivos, como foi seu comportamento em relação ao Coritiba?
Lana – Estou esgotado. Estudei demais da conta o time do Coritiba. Peguei tudo o que era positivo do time deles, com (o meia) Alex e sem Alex (ex-Cruzeiro e Seleção Brasileira). Fui anotando tudo e desenhando o esquema que eu iria usar, dentro da característica de cada um deles, queimando as pestanas, perdendo noites de sono. Graças a Deus deu certo.
Blog – A goleada foi uma surpresa?
Lana – Fiz uma coisa que poucos treinadores fizeram até hoje, uma marcação de laterais, jogando como pontas, em cima dos laterais deles, marcando a bola, não deixando sair. Sabia que eles seriam sufocados. Os gols saíram pelo sufoco que eles tomaram. Em determinado momento é claro que a gente abriu um pouco, mas era porque queríamos a diferença para ir para lá com mais tranquilidade. O futebol brasileiro, tirando um ou outro time, tirando Atlético-MG, Corinthians, Cruzeiro… é tudo igual. O Santos, quando o Neymar sair, periga ir lá para a Série B. Às vezes, um ou outro time, quando o esquema encaixa, joga melhor, mas, de uma maneira melhor, não tem muito time melhor que o Nacional atual não.
Blog – O que você fez contra o Coritiba, nessa disputa de vaga na Copa do Brasil, foi mais ou menos o mesmo feito contra o São Paulo, na mesma competição, com o São Raimundo, não?
Lana – Mais ou menos. Usei o Isaac marcando em cima da defesa, mas era diferente. O Isaac sabia marcar, mas sabia também entrar na área adversária. E o time tinha outros jogadores como Sidney, que era leve e tinha um toque de bola excelente, Alberto e Zedivan, que combatiam muito. A cada time você monta um esquema, trabalhando em cima do adversário.
Blog – Tem alguma jogador daquele elenco do São Raimundo que ainda hoje te ajuda?
Lana – Marcelo Araxá, que mora em Araxá (MG), virou uma espécie de empresário de jogador. Quando estou precisando, ele me liga, a gente conversa e tem dado certo. Não tenho saído daqui. Assisto muito jogo, mas não saio. Fiquei um pouco fora do eixo e tenho nele um cara que vai, olha, ganha o dinheirinho dele e me dá boas indicações.
Blog – Como foi sua passagem pelo Penarol?
Lana – Você fala da minha saída?
Blog – É, o tempo que ficou lá e aquela saída meio tumultuada…
Lana – Eu estava muito bem lá, sendo muito bem tratado. Quando nós ganhamos de 5 a 1 do Fast, lá em Manaquiri, o presidente falou pro supervisor: “Vai uns torcedores dentro do ônibus com o time”. A gente tinha uma logística. Atravessava de ajato (barco veloz), ia para Manacapuru, fazia o trabalho na piscina, naquele hotel muito bom que tem fora da cidade, e o jogador viajava de volta para Itacoatiara descansado. Quando entrei no ônibus tinha uma mulher e um outro torcedor. Eu falei pro supervisor: “Avisa pro presidente que não vou admitir essa mistura aqui”. Ele virou pra mim e disse: “Não vou ligar pra ele não. Ele já autorizou a entrada desse pessoal e eles vão conosco”. Eu disse: “Ah, é? Então diz pra ele virar treinador também”. Peguei minha bolsa, aluguei um táxi e vim embora pra casa. Terça-feira fui lá, entregar o time. Foi quando eles me acusaram de pegar dinheiro do governador, dizendo que o governador tinha me dado uma mala de dinheiro. Não tinha nada disso. O Fast tinha ligado, mas eu estou chateado com eles porque me dispensaram no ano anterior. O Mário Cortez foi lá depois. Fez uma proposta, fiz uma contraproposta, acertei e vim para cá (para o Nacional). Fiquei muito chateado de fazer a semifinal (do 2º Turno) contra eles (Penarol) e desclassificá-los. Era o time que tinha condição de disputar o título. Era muito bom. Perdi muitos amigos que tinha feito lá, por causa da minha saída. Isso me doeu.
Blog – Vi o Penarol jogando e o time, realmente, parecia afinado…
Lana – Era afinado mesmo. Fazia gol fácil. Você me conhece, sabe que não sou de viver por causa de dinheiro. Se tiver dinheiro pra pagar as contas eu pago, se não tiver pego fiado (risos). No São Raimundo eu ganhava pouco, em relação ao dinheiro que o time ganhou, mas trabalhava satisfeito.
Blog – Você já pensou em como será se o São Raimundo seguir em frente na Copa do Brasil, já que o estádio com maior lotação, o do Sesi, não cabe nem 4 mil espectadores?
Lana – Acho que para Copa do Brasil não existe exigência. O Sesi vai servir. Na Série D (Campeonato Brasileiro) é que vai dar problema. Tem que arrumar um campo que tenha 10 mil lugares, em Santarém ou Belém, para mandar nossos jogos. A Colina só vai ficar pronta no fim do ano.
Blog – O governador Omar Aziz e o prefeito Arthur Virgílio têm ido aos jogos do Nacional. O que você acha da presença deles?
Lana – É, os dois têm ido ao estádio e prestigiado nosso time. Têm dado muita força ao nosso futebol. O futebol local, para crescer, tem que ter ainda um empurrão do poder público. Se ajudar agora, no início, como o Amazonino ajudou o São Raimundo, depois aparece patrocinador, começa a dar renda e a coisa ganha força. Hoje, no aeroporto, havia 20 caras da imprensa, seis canais de TV, torcida com bandeira, um grande alvoroço. É isso que vai motivando os jogadores. E agora à tarde o Nacional já treina. O Paulão, que foi quarto-zagueiro do Nacional e do São Raimundo, é meu auxiliar técnico e está treinando o pessoal.
Blog – Você voltou a fumar, Lana?
Lana – Voltei. E muito.
Blog – Foram muitos anos sem fumar… por que a recaída?
Lana – Aconteceu um episódio. Na minha rua tinha uns meninos que gostavam de futebol. Sabe aquele campeonato Peladinho, de A Crítica? Montei um time na rua com eles. Pus um treinador, mas vi que não era muito entendido de futebol e eu fui me envolvendo. O time começou a ganhar. Fomos crescendo e chegamos à final. Na final do Peladinho, que aconteceu na preliminar do Peladão, jogo duro, os meninos do outro time maiores que os meus, fizemos 1 a 0 e eu, subindo e descendo as escadas do Vivaldão, muito nervoso. No finalzinho, eles viraram para 2 a 1. Tinha um sujeito do meu lado fumando e eu disse: “Me dá um cigarro”. Aí comecei a fumar e não parei mais. Estou bem, sem problemas de saúde. Só cansado. Hoje levantamos 3h, fomos de Curitiba a Brasília e de Brasília para cá. Cheguei em casa, tá tudo arrebentado porque estamos em reforma e os pedreiros não fizeram nada durante a viagem. Fiquei aborrecido e resolvi vir para o Nacional, passar o tempo.

Depois de ter abandonado o cigarro há anos, o técnico voltou a fumar por nervosismo na final do Campeonato Peladinho, de A Crítica
Blog – Mas você não está treinando o time…
Lana – Tem 13 jogadores treinando. Quem jogou ontem não treina. Quem chegou de viagem treina só amanhã pela manhã, comigo, treino tático, montando o time para afogar o Princesa. Essa noite vou estudar direitinho, que estava muito focado na Copa do Brasil.
Blog – É curioso que você vai fazer uma final contra um time que é dirigido por um jogador que atuou como seu lateral-direito, o Marquinho, técnico do Princesa…
Lana – É. Ele atuava muito bem em Manaus e quando chegava lá fora não rendia tanto. Agora, como técnico, está muito bem, montou um time todo certinho.
Blog – (Aparece o técnico Antônio Lopes na TV do CT do Nacional e Lana fala sobre ele)
Lana – Ontem, estive com o (Antônio) Lopes, no CT do Atlético-PR. Gente boa. Só tem cara de brabo. É muito amável. Foram lá pedir o campo para treinar e ele perguntou quem era o treinador. Disseram e ele disse que me conhecia, já tinha cruzado comigo e pediu para eu ir lá, que ele queria conversar. Aí eu fui. Ele me ofereceu um centroavante, Marcão, que era do Atlético-GO e está no Atlético-PR, muito bom. O problema é que ele ganha R$ 70 mil por mês no Atlético-PR e como é que eu vou pegar um jogador desses? O Atlético-PR tem 89 atletas.
Blog – E o Nacional? Quanto tem?
Lana – O Nacional está numa faixa de 30.
Blog – O que você acha dessa história de que a Arena da Amazônia vai se tornar um “elefante branco” por falta de futebol?
Lana – Ontem, inclusive, dei uma entrevista lá em Curitiba sobre isso. Eles me perguntavam sobre o tal “elefante branco”. Eu disse que a CBF rasga dinheiro não dando atenção ao futebol do Amazonas. Se Manaus tivesse time na série B ou mesmo na C, encheria a casa. Se você pegar a Copa do Brasil quando o São Raimundo ganhou do São Paulo aqui em Manaus, por 2 a 0, verá que o jogo teve o maior público do ano. Como é que a Arena da Amazônia vai ser elefante branco? O povo gosta de futebol e é isso que conta.
Blog – Qual o recado que você quer mandar ao torcedor?
Lana – O torcedor amazonense tem que parar de torcer por time de fora. A torcida Furacão, a principal do São Raimundo, era toda a Torcida Jovem do Vasco, que passou a torcer para o nosso futebol. O pessoal aqui fica desfilando com bandeira de Vasco e Flamengo, times ruins e que devem pra todo mundo. Se fosse o Corinthians, que é campeão do mundo, ainda me calava, mas esses dois? Nenhum dos dois tem time melhor que o do Nacional, neste momento.
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